
Pai solteiro
Single with children
Arlene James
Famlia Fortune 6

Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!



   Adam Fortune sabia muito bem que seus filhos estavam precisando de ateno materna. Por isso, ele contratou
Laura Reaumont para ser a bab das crianas.
   Mas Adam sente que algo est errado com Laura. Seus olhos expressam uma tristeza profunda que o
sensibiliza cada vez mais.
   Ser uma excelente bab ou a amante ideal no era o suficiente para Laura. Acima de tudo, ela e Adam teriam
de superar o passado para enfim formarem uma famlia feliz


   Dirio de Kate Fortune

   Estou to feliz com a reconciliao de Adam e Jake! Soube que os dois almoaram juntos outro dia. E sei que
Adam, ao folhear os lbuns de fotografias da famlia, percebeu que estava seguindo os passos do pai. Apesar de se
ressentir por Jake ter trabalhado tanto, e por isso ter ficado longe da famlia, Adam estava fazendo o mesmo com
seus filhos. Mas agora os dois finalmente se deram conta da importncia da unio.
   Como eu gostaria de poder deixar de me esconder. Mas ainda no descobri quem tentou me matar e quer
destruir os Fortune. Espero encontrar logo uma pista para que toda essa confuso se resolva e possamos retomar
nossas vidas.


   ADAM FORTUNE: Ex-militar, Adam  um pai inexperiente tentando educar trs crianas sapecas. Achar uma
bab no  fcil, mas uma jovem e bela garonete se oferece para dar uma ajuda.
   LAURA BEAUMONT: Seus sonhos de ter uma famlia para amar se realizaram quando ela se tornou a bab
dos filhos de Adam. Mas sua felicidade  ameaada por um passado que a persegue.
   TRACEY DUCET: Ela  uma cpia de Lindsay Fortune de tirar o flego. Ser que a gmea desaparecida dos
Fortune foi encontrada? Ou ela no passa de uma fraude bem montada?
   JANE FORTUNE: Quem poderia imaginar que uma casa antiga na Nova Inglaterra seria o lar ideal para
construir uma vida nova para Jane, uma me solteira e seu filho?


   Liz Jones

   A Colunista N 1 dos Celebridades

   Como eu havia previsto, uma bomba explodiu no meio dos Fortune! A herdeira perdida deu as caras. H 30
anos, a irm gmea de Lindsay Fortune foi raptada. Agora, a gmea, Tracey Ducet, voltou para reivindicar seu
lugar na famlia. E todos parecem radiantes com sua inesperada apario.
   Aposto como ela  uma garimpeira em busca de ouro. Afinal, quem no est atrs de um pedao do bolo dos
Fortune? Eu imagino quantos parentes perdidos ainda no estaro por aparecer...
   Seja l qual for a verdade, ela vir  tona mais cedo ou mais tarde. As credenciais de Tracey Ducet esto
sendo investigadas, e se ela tem segredos guardados, eles sero descobertos.





   Captulo 1

   Adam passou a mo no cabelo liso e eriado da cor de mogno. Era um clssico gesto de frustrao de um militar
aposentado, acostumado a tirar o quepe da cabea. Retesou os ombros e inspirou profundamente, tentando cuidadosamente
manter sua voz em um tom razovel. A senhora Godiva se ofendera com o timbre de comando, e o orgulho no lhe permitiria
sucumbir ao desespero da splica.
    Agora vamos falar com calma Tenho certeza de que a neve em seus sapatos foi apenas uma brincadeira. Eles no
poderiam entender a a profundidade de seu choque. Eles s tm trs anos, afinal.
    Eles no imaginaram isso sozinhos!  retrucou a mulher.  Aquela Wendy est por trs disso! Ela mandou estes
patifes colocarem neve em meus sapatos porque eu a botei de castigo hoje de manh, porque se negou a comer ameixas.
    Wendy no gosta de ameixas, senhora Godiva  Adam respondeu, spero  eu lhe pedi vrias vezes que no
    Ameixas fazem bem para eles  a viva de meia-idade insistiu.  Se voc me deixasse orient-lo, eles se
alimentariam melhor, mas, assim como sua filha, voc simplesmente no escuta a voz da razo! Bem, para mim chega. Ela no
s fez seus irmozinhos encherem de neve meus chinelos novos em folha, mas tambm gritou me chamando  noite, sabendo
que meus ps haviam acabado de se aquecer e que eu os enfiaria inocentemente dentro Dentro  seu lbio superior
tremia de revolta.
   Adam curvou a cabea, uma dor surda comeando atrs dos olhos. Sem dvida ela tinha razo. Todo mundo sabia que ps
frios eram a maldio da existncia de senhora Godiva, mas os gmeos no imaginariam uma vingana dessas  isso era
vingana no estilo de Wendy. E ainda por cima, a maldita mulher sabia que Wendy abominava ameixas cozidas. Adam
suspirou.
    Ser que no poderamos simplesmente esquecer o que aconteceu?
    No, no poderamos!
    Eu tomarei providncias para que no acontea novamente.
    H-h! Voc tem tanto controle sobre essa criana quanto sobre o tempo! Eu no compreendo como um homem com
sua experincia de comando pode permitir que este trio de malcriados mande nesta Nesta casa de caos!
    Senhora Godiva, eles perderam sua me h apenas dezoito meses
    E o senhor perdeu sete babs desde ento!
    Seis!  Corrigiu ele, de imediato.
    Sete!  ela disse, abaixando-se para pegar as alas de sua mala.  O senhor pode encaminhar meu pagamento para
minha irm em Minneapolis. Eu acho que o senhor tem o endereo!
   Virou-se, lutando furiosamente com a mala e a maaneta, e marchou para dentro da noite.
    Senhora Godiva!  chamou Adam.  Pelo menos espere at amanh de manh!
   Esse pedido teve tanto efeito em seus ouvidos quanto os gordos flocos de neve que derretiam no cachecol espalhafatoso
enrolado em volta de sua cabea ou a crosta gelada que crepitava sob seus ps pesados, presumivelmente quentes dentro de
suas botas barulhentas forradas de pele. Em segundos, ele ouviu os sons arrastados das portas de seu carro abrindo e fechando,
depois o motor sendo ligado enquanto os faris balanavam em um arco zangado sobre os montes de neve que ladeavam o
caminho.
   Adam fechou silenciosamente a porta, resistindo ao impulso de encostar sua cabea contra ela e gemer. Ouviu atrs de si
os rudos de pequenos corpos se movendo dentro de pijamas de flanela. Sua coluna pareceu esticar-se por si s, e seus ombros
se nivelaram sozinhos e se retesaram. Voltou-se com toda a preciso de um soldado em revista e fez uma carranca para os trs
pequenos rostos que espreitavam na quina entre o vestbulo e o corredor.
    Ela foi embora?  Wendy sussurrou. Seu nariz sardento se franziu numa expresso de esperana mal dissimulada,
enquanto seus dedos redondos puxavam a trana fina marrom-avermelhada.
    Foi.
    De verdade?  perguntou Robbie, na voz um garotinho completamente inocente, iluso favorecida pelos cachos de
cabelo louro em torno de seu rosto rechonchudo.
    Eu acho que sim Graas a vocs trs.
   Ryan, uma verso um pouco menor de seu irmo minutos mais velho, lanou um sorriso triunfante para Wendy, antes de
comear a dar gritos de pura alegria. Imediatamente os outros dois juntaram-se a ele, abandonando toda tentativa de fingir
arrependimento. Adam girou os olhos, e, nesse curto espao de tempo, eles correram para a sala de estar, onde ele os
encontrou saltando alegremente sobre os mveis.
    Embora, embora, embora, a bruxa foi embora! Adam tomou uma postura militar no meio do quarto.
   Era um quarto frio e sem cor, de que ele no gostava, mas, em todos os meses desde a morte de sua esposa, no fizera o
mnimo esforo para mud-lo. Nem planejava faz-lo.
    J chega!  vociferou em sua melhor voz de comando. Robbie deu uma cambalhota desajeitada no sof e caiu no cho
com um baque, os gritos de alegria transformados instantaneamente em choro de dor e susto. Ryan engatinhou para ir ao seu
encontro, gargalhando, e Robbie abruptamente passou dos soluos ao riso, uma das mos esfregando a nuca enquanto se
sentava. Wendy ignorava a todos, danando sobre o assento de uma poltrona.
    Embora, embora, a velha ameixa foi embora!
   Os garotos riam ainda mais, enquanto o rosto de Adam se avermelhava at explodir em clera:
    Parem com isso imediatamente e vo para a cama! O que seus gritos no conseguiram, seu rugido fez: as trs crianas
ficaram quietas e silenciosas, a ateno finalmente em seu pai. No que elas obedecessem realmente. Os garotos simplesmente
se deitaram no cho e o olharam com curiosidade, enquanto Wendy escorregou at sentar-se na poltrona, o rosto exibindo
rebeldia.
    Eu a odiava. Ela era m e feia e
    Voc fez tudo que podia para que ela fosse embora! -ele acusou.  Voc sabe que ns precisamos de ajuda, mas ainda
assim voc
    Ns no precisamos de ajuda!  gritou Wendy com sua voz fina.  A mame sempre cuidou de ns s com a
cozinheira.
    Cozinheira em meio-expediente!  exclamou Adam.  E eu no sou a mame! Eu preciso ganhar nosso sustento, eu
no posso ficar em casa o dia inteiro para cuidar de vocs!
    A mame fazia isso!
    Porque eu estava na rua trabalhando!
    No exrcito  disse Ryan acusadoramente, e algo em seu tom fez a raiva de Adam se aplacar.
     verdade  murmurou, tomado pela estranha confuso que vinha junto com essa sugesto de ressentimento. Diana
nunca se importara com sua carreira militar. E, de fato, durante uma permanncia mais longa, ela parecia ansiosa por mand-lo
embora. Talvez por isso ele sempre se sentisse aliviado ao partir. Talvez as crianas tivessem sentido seu alvio e pensado que
estava relacionado a elas, e essa fosse a raiz de seu ressentimento. Ou talvez Diana tivesse se queixado de vez em quando de
sua ausncia. Ele se sentia envergonhado em admitir que no havia realmente conhecido sua falecida mulher o suficiente para
dizer com certeza o que ela poderia ter dito ou feito em relao s suas ausncias. Estava deprimido e irritado por saber que o
mesmo valia para seus filhos, e que nos dezoito meses desde o acidente de trnsito que tirara a vida de Diana, de certo modo
isso no mudara. Suspirou, cansado e vazio demais para brigar com seus filhos incontrolveis. Como era to mais fcil lidar
com homens adultos e duros! Ele fez um gesto impulsivo com a mo.
    Vo para a cama, todos vocs. Est tarde.
   Robbie e Ryan sentaram, observando a irm para saber como ela reagiria  ordem do pai. Wendy esticou o lbio inferior e
encarou Adam com seus olhos marrons-dourados.
    Quem vai nos colocar na cama, agora que a bab Godiva foi embora?
    Voc deveria ter pensado nisso antes de encher os sapatos dela com neve, pequena senhorita Lder-de-Motim. Agora v
para a cama antes que eu comece a estalar esses traseiros.
   Wendy cruzou os braos com teimosia, mas, exatamente quando Adam ia explodir, ela subitamente saltou da cadeira e
saiu correndo do cmodo, os pequenos braos balanando duros ao seu lado. Os garotos levantaram-se e correram atrs dela,
cantando:
    Hei, embora, a bruxa foi embora! Hei, hei, a bruxa foi embora
   Adam colocou a mo na nuca. O que ele faria agora? Tinha uma reunio importante na tarde seguinte, com um
franqueador de lubrificantes de carro de Minneapolis, e outra na sexta-feira, com um corretor de imveis. Com certeza
Rebecca ou Natalie poderiam olhar as crianas por algumas horas no dia seguinte. Ele s se preocuparia com sexta-feira mais
tarde. Pensou que sempre haveria a possibilidade de cancelar a reunio, mas somente como ltimo recurso. Estava cansado de
viver em um limbo. Precisava achar algo para fazer agora que sua aposentadoria do exrcito era oficial. Precisava de uma
carreira, de um negcio, um foco de qualquer tipo, mas como poderia se concentrar nisso, quando as crianas haviam acabado
de conseguir expulsar outra bab? Algumas vezes ele se perguntava se os pequenos patifes no estavam na realidade tentando
prend-lo em casa, um cenrio improvvel, j que eles pareciam no gostar dele a maior parte do tempo.
   Ele balanou a cabea enquanto caminhava descalo para seu quarto. Gemeu quando lhe ocorreu o pensamento de que era
provvel Godiva bater com o carro nas estradas cheias de neve e gelo e o processar, pedindo muito dinheiro. Isso completaria
o Ano Novo! Ele ignorou os sussurros vindos de trs da porta de Wendy, e arrastou-se para dentro dos espaos frios de seu
quarto, decorado em nuances de branco e azul-gelo. Nem mesmo as chamas tremeluzindo na lareira eram capazes de aquec-
lo, mas ele se esgueirou para baixo do cobertor vermelho escuro  a nica mudana que tomara a iniciativa de fazer  e
precipitou-se em um sono felizmente vazio.
   Um pequeno dedo puxou suas plpebras para cima e para baixo, quase arrancando seu olho no processo.
    Ai!
   Adam desvencilhou-se e observou seu prprio filho com desnimo e cansao. Quantas vezes um garotinho pode acordar
durante uma nica noite?
    Meu Deus, Robbie, quando  que voc dorme?
    Ryan  corrigiu uma voz petulante.
    Ah  Os meninos eram suficientemente parecidos para serem confundidos, se no se olhasse bem de perto, mas
Wendy afirmava que sua me nunca o fizera, e Adam no conseguia conter uma onda de culpa, pelo fato de t-lo feito, embora
raramente. Suspirando, virou-se de barriga para cima e pousou o brao sobre os olhos.
    O que , agora?
    T cum fome  disse Ryan, sua leve deficincia de dico agravada pelos trs dedos que enfiara na boca. A tia de
Adam, Lindsay, a pediatra da famlia, dissera-lhe que no havia razo para preocupao, mas ele se preocupara assim mesmo
 quando tivera energia para isso, o que no acontecia no momento.
    Ryan  resmungou Adam  ns estamos no meio da noite.
    Mas j  de manh!
   Com certeza no era. No podia ser de manh. Ele ainda no dormira duas horas inteiras. Oh, Deus, no deixe que j seja
de manh, pensou, levantando os braos cuidadosamente e forando os olhos a se abrirem. Oh, Deus, era de manh. Adam
gemeu do fundo de sua garganta e se resignou ao inevitvel, quando rolou na cama e levantou o pescoo para ver as horas no
relgio-despertador ao lado. Sete e quarenta. O alarme s tocaria em cinco minutos. No valia a pena brigar por cinco minutos.
    Est bem  ele disse bocejando.  O que h para o caf? Ryan deu de ombros e tirou os dedos da boca.
    Eu no sei.
   Adam jogou as pernas para o fora da cama e estendeu a mo para pegar a camiseta que deixara no cho.
    Bem, v ver o que a bab est fazendo, e venha me di
    A bab foi embora  Ryan lembrou-lhe.
   Adam fechou os olhos. Embora, embora, a bruxa foi embora. Godiva os deixara na noite anterior, e a cozinheira s viria
logo antes do almoo. Que os cus os ajudassem.
   Bem, com certeza havia algo que podia preparar Cereal frio, talvez, donuts Ele daria mil dlares para colocar seu
uniforme militar e sair pelo saguo em desordem s uma vez mais. Mas com certeza as coisas pareceriam melhores depois de
ele tomar uma xcara de caf. Caf. Gemeu novamente, ao se conscientizar de que no haveria caf nesta manh, o mundo
civil era um inferno.
   Ryan arrastou-se para fora da cama e se agarrou  perna de Adam, puxando com toda a fora de seus pequenos membros.
Adam riu da insensatez desse ato, e se levantou desajeitadamente, estendendo a mo para o roupo que estava pendurado na
coluna da cama. Ele o vestiu e amarrou por sobre as calas de l que usara para dormir e a camiseta que acabara de pr. Seus
sapatos estavam em algum lugar por ali, se ele pudesse ver alm do corpinho encolhido de seu filho.
    Est bem, est bem, Ryan  disse ele, dando tapinhas nas costas do garoto.  Eu estou a caminho.
   Ryan o soltou e correu para a porta, onde parou e chamou novamente:
     m'lhor coler.
   Ele apontou o dedo para Adam em uma pardia perfeita de sua irm mais velha.
    Wendy disse que se voc no vier, ela vai fazer o caf sozinha.
   Os olhos de Adam se abriram, alarmados. Esquecendo os sapatos, se arremessou para a cozinha, berrando:
    Wendy!
   Ele irrompeu atravs das portas de vai-e-vem a tempo de ver sua filha de p sobre uma cadeira que puxara at o balco,
derramando farinha de um saco em uma grande tigela. A farinha caiu com um vamp! e fez subir uma nuvem em volta da
tigela, que balanou perigosamente perto da borda do balco. Adam jogou-se por cima do fogo e arrancou Wendy da cadeira
exatamente no momento em que a tigela se despedaava em mil pedaos no cho. Farinha e vidro se espalharam no estreito
espao entre o balco e o fogo. Wendy imediatamente irrompeu em gemidos altos. Adam a puxou para a mesa, esperando ver
sangue correr por suas pernas. Relaxou com alvio quando viu que estavam somente empoeiradas de farinha. Nesse momento,
os meninos entraram pela porta, primeiro Robbie, depois Ryan, com a mo na boca.
    Para fora!  vociferou Adam. Nenhum dos dois moveu um msculo.
    O cho est cheio de vidro espalhado! Saiam daqui!
   Os olhos esbugalhados, eles voltaram pela porta de vai-e-vem, mas ento Robbie a abriu novamente e colocou a cabea
para dentro.
    Wendy, voc est ferida?
   Os gemidos de Wendy haviam se transformado em soluos, mas ela no se deu ao trabalho de responder. Adam o fez por
ela, ainda ofendido  magoado, para ser honesto  pelo fato de seus filhos sempre precisarem de uma razo para obedec-lo.
    Ela no est machucada, somente assustada  disse, rudemente, puxando-a para si e comeando a marcar seu caminho
na farinha em direo  porta, fora dos limites do brilho indicador dos cacos de vidro.
   Uma vez em segurana no carpete da sala de jantar, colocou Wendy no cho, ajoelhou-se e a agarrou pelos ombros.
    O que, pelo amor de Deus, voc pensou que estava fazendo?
   Ele no tivera a inteno de gritar, nem de sacudi-la, mas o pensamento do vidro penetrando em seu corpo rechonchudo de
criana o horrorizava e enraivecia. Ela se desvencilhou, mas Adam notou que seus olhos estavam secos. Adivinhou que ela
estava mais envergonhada que assustada, Para dizer a verdade, algo nele estremecia tambm. Largou-a e passou a mo na
testa.
    Tudo bem  murmurou , est tudo bem, mas nunca mais faa algo assim. Est me ouvindo?
   Ela assentiu, fungando sonoramente. Adam ignorou o fingimento e modulou sua voz para pacincia.
    Alis, o que voc estava fazendo?
    Panquecas!  gritou Robbie, saltando no mesmo lugar.  Sim, sim, panquecas!
   Ryan imediatamente comeou a cantar junto, batendo palmas.
   Adam tremeu. Eles queriam algo to difcil como panquecas para o caf da manh. Mesmo se ele achasse a receita, no
seria capaz de fazer uma poro de panquecas aceitveis. A quem estava enganando? Ele teria sorte se conseguisse colocar o
leite na tigela junto com o cereal  se conseguisse achar algum. E ele no procuraria descalo, no agora. Tomou uma sbita
deciso. Ele era bom em decises. De fato, decidir era o que freqentemente fazia melhor, e a sua deciso o tirava do problema
de vrias maneiras. Por um lado, eles realmente teriam o que comer, e por outro, ele no teria que enfrentar a limpeza da
baguna na cozinha com o estmago vazio. Estirou-se em toda sua altura.
    Est bem, vistam-se. Ns vamos sair para comer panquecas.
   Isso produziu paroxismos de deleite. Robbie danava em torno deles, saltando em crculos, os joelhos batendo um no
outro, as pernas voando em ngulos estranhos. Ryan deu uma olhada na dana improvvel de seu irmo e decidiu saltar e
gritar piu como um trem. Wendy simplesmente olhou para seu pai de uma maneira solene bem sua, assentiu prontamente e
virou-se para arrastar seus irmos barulhentos para fora do cmodo. Adam sorriu consigo mesmo. Era possvel que tivesse
marcado alguns pontos com aquela ali.
   Uma hora mais tarde, Adam se perguntava como uma boa idia podia terminar to mal, enquanto agarrava o jarro de
refresco mais uma vez. Tirou-o do caminho exatamente no momento em que Robbie caiu de peito sobre seu prato, os braos
esticados para bater com os vidros de sal e pimenta nos cinzeiros e com os cinzeiros nas cestas de torradas. Wendy riu
abafado, uma mo sobre a boca, a outra balanando um garfo com uma panqueca gotejante enfiada. Robbie dava gargalhadas,
olhando para a mancha melada em sua blusa, e Ryan imediatamente se colocou de joelhos, preparando-se para copiar o que
seu irmo se preparava para fazer.
    Oh, no, no se atrevam!  Adam pulou, tentando equilibrar a jarra de refresco com uma mo e agarrar o ombro de
Ryan com a outra. A tigela bateu na mesa, e o caf derramou para fora da xcara, por cima da borda do pires em direo a suas
calas.
    Maldio!
   As crianas comearam a rir alto. Adam sentiu que tiravam a jarra de refresco de suas mos. Um momento depois, ela foi
substituda por uma toalha branca mida.
    Permita-me  disse uma voz macia. Adam captou um vislumbre de uniforme azul claro e uma rede de cabelos
marrom, enquanto se dobrava para limpar a mancha em sua coxa. Ele olhou para cima a tempo de ver uma jovem mulher
puxando a perna de Wendy para o lugar certo, arrastando sua cadeira mais para perto da mesa e colocando a mo com o garfo
no lugar correto em cima do prato. Ela sorriu para a menina, depois se moveu em volta da mesa, colocando Ryan de volta em
seu assento infantil e tirando seu copo de leite da borda mesa. Debruou-se e sussurrou algo para ele antes de ir at Robbie, e
Ryan imediatamente pegou seu garfo e comeou a comer. Robbie exigiu um pouco mais de ateno.
    Bem, meu lindo, voc se bagunou um pouco, no ?  disse ela, abaixando-se ao lado de sua cadeira e afagando seu
cabelo.
    A comida deveria ir para dentro de sua barriguinha, no para cima dela.
   Ela molhou um guardanapo de papel em seu copo de gua e comeou a limpar cuidadosamente o pior da gelia em sua
camisa.
    Que olhos bonitos voc tem  disse ela, sorrindo para os olhos verde-musgo salpicados de amarelo e de pequenos
pontos azuis. Robbie riu, claramente enaltecido, estupefato, e quando ela voltou seu sorriso para Adam, ele compreendeu
completamente o sentimento.
   Ela era na verdade extraordinariamente encantadora, com um rosto oval de mas altas e delicadas, uma testa ampla e
macia e um queixo levemente pontudo. As mechas lisas e espessas de suas sobrancelhas naturalmente arqueadas eram finas
como cabelo de milho. Seus lbios eram grossos, mas perfeitamente torneados, abaixo de um nariz pequeno e nobre. Mas seus
olhos eram a caracterstica dominante. Grandes e ovais, eles eram de um verde claro e brilhante. Plpebras pesadas davam-lhe
uma aparncia ardente, e Adam suspeitou que ela fosse um tanto mope. Talvez ela no notasse que sua boca estava aberta. Ele
a fechou de um golpe e deu a ela a forma de um sorriso.
    Eu acho que voc acaba de evitar um grande desastre  disse ele, sentando-se em sua cadeira.  Obrigado.
   Ela girou o guardanapo em sua mo, molhou-o na gua uma vez mais e continuou a limpar a camisa de Robbie.
    Sem problemas. Parecia que voc estava completamente ocupado.
   Adam surpreendeu-se com uma risada calorosa.
    Voc pode dizer isso, com certeza. Nossa bab foi embora ontem  noite, e eu sinto muito dizer que ainda no me
acostumei com essa coisa de pai solteiro.
   Ser que realmente dissera solteiro?
   Ela lanou-lhe um olhar que era um misto de desprezo e curiosidade.
   O que aconteceu com sua esposa?
    Ela moutal  Ryan anunciou com toda a fora de seus pulmes.
   Mortificado, Adam sentiu o peso dos olhares voltando-se para o seu lado e um calor subiu por seu pescoo e rosto. Ele
lanou a seu filho um olhar penetrante e rapidamente olhou de volta para a linda loura.
    Minha esposa morreu em um acidente de carro h dezoito meses. Os meninos tinham somente um ano e meio, e voc
sabe como so as crianas. Elas nem sempre captam o significado das coisas
    Oh, pobrezinhos  ela disse e abraou os gmeos. -Vocs so to doces, eu poderia com-los!
   Ela se abaixou para beijar primeiro Ryan e depois Robbie. Eles absorveram o carinho como se fosse raios de sol, a
olhando adoravelmente e inclinando suas cabeas para trs, em seus braos. Ela esfregou o nariz com cada um deles, um
depois do outro, fazendo-os gargalhar, antes de olhar por cima da mesa para Wendy, que observava, pensativa.
    Voc provavelmente se lembra de tudo, no, meu amor?
   Wendy assentiu, os olhos bem abertos, mas Adam teria apostado uma pequena fortuna em que ela s tinha uma fraca
noo do que a garonete queria dizer.
    Eu aposto que voc sente muita falta dela tambm  O lbio inferior de Wendy tremeu, mais com empatia pelo seu
tom de voz do que qualquer outra coisa. A loura deslizou com a graa de uma danarina em volta da mesa para lanar seus
braos em torno dos ombros de Wendy.
    Que anjo! Voc deve t-la amado muito.
   Wendy assentiu solenemente com a cabea, enquanto a jovem a abraava de encontro ao busto  um busto firme e
generoso, Adam notou.
   A mulher se ajoelhou, a ateno completamente voltada para Wendy.
    Eu me lembro de algo que a Irm Agnes dizia sobre o amor de me. Voc quer saber o que era?
   Wendy assentiu novamente, e ela continuou.
    A Irm Agnes dizia que o amor de me nunca morre. Ele continua vivendo para sempre no corao de seus filhos, e se
voc fechar os olhos e ficar bem quietinha, pode senti-lo batendo forte, feliz e confortador.
   Wendy perguntou:
    Quem  Irm Agnes?
    A enfermeira no local onde eu fui morar depois que minha mame foi para o cu. Ela era uma freira  Irm Agnes, eu
quero dizer. Era um orfanato catlico, voc sabe.
    Por que voc precisou ir para um orfanato catlico?  Wendy queria saber.
    Porque meu papai foi para o cu um pouco antes de minha mame.
   Wendy olhou para seu pai com olhos grandes e surpresos.
    Meu pai foi para Rbia, mas ele voltou para casa. A loura sorriu para Adam.
    Bem, voc tem sorte ento, no?
    Ele estava no exrcito  Robbie disse, cansado de ser deixado de fora.
    Ele ainda est? Adam limpou a garganta.
    Eu estava na Arbia Saudita quando minha mulher sofreu o acidente. Eu corri para casa ao encontro de meus filhos,
que estavam com minha tia.
    Minha av morreu tambm  anunciou Robbie.
   A loura suspirou, colocando uma das mos no peito.
    Oh, meu Deus!  Ela olhou para Adam, buscando confirmao.
   Um raio de dor o atravessou.
    Bisav, na realidade. Acidente de avio.
   A garonete deu um grande suspiro, as lgrimas brilhando em seus olhos maravilhosos.
    Meu Deus, eu sinto muito.
   Adam, voc  um patife, disse a si mesmo, enquanto curvava a cabea e extraa cada grama possvel de compaixo dela.
    Meu corao est com todos vocs  e acrescentou, de repente:
    Pare com isso imediatamente, meu jovem. Ns no permitimos que nossa comida seja jogada longe.
   Adam olhou para cima a tempo de ver Robbie deixar cair um punhado de panqueca encharcada na mesa.
    Chega, Robbie Fortune. Voc vai apanhar assim que chegarmos em casa!
   A garonete deu uma risada, ficando de p.
    Voc no sabe mesmo nada sobre crianas, no ? Neste exato momento, um homem careca e corpulento apareceu ao
seu lado.
    Laura, voc tem clientes esperando.
    Oh, eu sinto muito, senhor Murphy. Eu estava somente tentando ajudar este senhor
    Eu lhe avisei, quando a contratei  o homem a interrompeu rudemente  no flerte com os clientes!
    Mas eu no estava
   Adam cortou a conversa.
    Ela no estava flertando! Estava tentando limpar a sujeira que meu filho fez
   O homem apontou o dedo para Adam.
    Eu lhe agradeo se ficar fora disso. Ns temos regras aqui, como gerente,  meu dever fazer com que sejam cumpridas.
O senhor no v as outras garotas ignorando os clientes para bater as pestanas para homens casados.
    Eu no sou casado!
    Ele no  casado!  gritou ela, ao mesmo tempo. O gerente deu um sorriso afetado.
    No estava flertando, hein? Voc j sabe o estado civil dele, mas no estava flertando. Eu estou desapontado com voc,
Laura, muito desapontado.
   O queixo de Laura caiu.
    Ele s estava me contando como sua esposa  sua falecida esposa  sofreu um acidente enquanto ele estava na
Arbia Saudita.
    Eu no gosto de empregados que me respondem. Voc tem cinco segundos para voltar ao seu posto ou est despedida.
Quatro.
   Adam levantou-se.
    Isso  um absurdo! Ela no fez nada que justifique este tipo de tratamento agressivo!
    Trs. Dois.
    No se preocupe!  Laura arrancou sua rede de cabelo, liberando uma cascata lustrosa e macia de seda loura que ia at
a cintura. Adam perdeu o flego. Ela lanou a rede no cho.
    Eu me demito!
   O gerente zombou dela:
    Eu sabia que voc no duraria nem um dia.
    Voc est com raiva porque o proprietrio o obrigou a me contratar!
    Obviamente no foi por causa de sua habilidade como garonete  ele respondeu maliciosamente.
   Adam jogou seu guardanapo sobre a mesa.
    Senhor, o senhor est pedindo um nariz quebrado! Laura suspirou e levantou uma mo protetora.
    No, no faa isso! Eu no quero o trabalho, honestamente, e eu no suporto brigas. Por favor.
   Adam olhou para a mistura de desespero e esperana em seu rosto e sentiu seu corao balanar dentro do peito. Engoliu a
raiva e olhou em torno da mesa.
    Coloquem seus casacos, crianas  ordenou.  Ns estamos saindo daqui. E no voltaremos  ele disse para o
gerente.
    Oh, isso  realmente uma tragdia.
    Diga a seu chefe que ele ter notcias de Adam Fortune.  meno do nome Fortune, o homem empalideceu.
   Adam assentiu com satisfao e ajudou Robbie a descer de sua cadeira, enquanto a mulher chamada Laura apressadamente
fez o mesmo com Ryan. Adam colocou-se ao seu lado, debruou-se e a pegou pelo brao.
    Onde est seu casaco?
   Suas plpebras se elevaram com surpresa.
    L atrs, mas
    Voc vai conosco.
    Mas eu no posso simplesmente
    Olhe, voc estava somente tentando ajudar um pai inepto quando este idiota chegou e a demitiu.
    Ele no me demitiu, eu me demiti  ela salientou, levantando o queixo.
   Adam sorriu. Oh, ele estava gostando dessa mulher.
    Est bem, voc se demitiu, mas voc no teria que ter se demitido se no fosse por ns. Assim, para mim, isso quer
dizer que eu estou em dvida com voc. Agora pegue seu casaco. Ele se voltou em direo ao fundo do pequeno caf, e ento
colocou o dinheiro sobre a mesa.
    Isso deve ser suficiente. Ele olhou para ela. -Vamos!
    Eu tenho que trocar o uniforme  ela disse por cima do ombro, rapidamente abrindo caminho entre as mesas cheias de
clientes boquiabertos.
    Vamos esquentar o carro  disse ele, tomando Ryan pela mo. Fechou a gola do casaco de Robbie enquanto ele caa
de joelhos, querendo engatinhar sob a mesa.
    Na-n-o precisa disso  o gerente gaguejou nervosamente e tentou enfiar o dinheiro no bolso do casaco de Adam. O
caf da manh  por conta da casa, senhor. Eu sinto muito pelo pelo mal-entendido.
    Boa tentativa  Adam disse por entre os dentes perfeitamente brancos.  Mas eu ainda penso em falar com o
proprietrio.
    Senhor Fortune, se Ser que no poderamos discutir isso?
    No.
   Adam puxou Robbie para seus ps e o carregou para a porta, arrastando Ryan atrs dele.
   Wendy colocou a lngua de fora para o homem e correu na frente deles para lhes abrir a porta. Ela ainda no se fechara
atrs dele e ela comeou a falar:
    Eu gosto dela, papai! Voc no? Ser que ela no seria uma boa bab?
   Adam sorriu maliciosamente para sua astuta filhinha. Talvez ela entendesse mais sobre as coisas do que ele imaginava.
Seu rosto feliz e esperanoso de boneca fez com que uma onda de amor passasse atravs dele.
    Sim  disse ele  eu penso que ela pode ser, mas ela precisa concordar, querida, ento no fique com esperana
demais por enquanto.
    Oh, mas ela precisa desse emprego!  Wendy assegurou-lhe sabiamente.
   Adam ergueu a cabea.
    Talvez sim, mas ela pode no querer. Veremos. Agora entrem no carro. Est frio aqui fora.
   Ele abriu a porta do motorista e Wendy subiu para dentro.
    Assento traseiro  ele sorriu para ela  s para garantir. Wendy concordou e pulou para trs, se espremendo entre as
cadeirinhas dos gmeos. Adam passou pela rotina laboriosa de prender os meninos em seus assentos. Depois, fechou a porta e
correu de volta ao caf, apertando os braos contra o frio brutal.
   Exatamente como ele suspeitara, o gerente havia retido Laura para clamar por clemncia.
    Laura?
   Ela olhou surpresa ao ouvir seu nome.
    Estou indo.
   Ela jogou o seu casaco sobre si e deixou o gerente massageando as tmporas. Adam olhou o deslizar cheio de graa de
suas longas pernas com a boca seca. Ela parecia mais alta dentro dos jeans apertados do que no uniforme deprimente. E aquele
cabelo! Seus dedos cocavam por toc-lo. Seu corao bateu forte em seu peito enquanto ela deslizava pela porta ao seu lado.
     Laura Beaumont  ela disse com voz rouca e um sorriso tmido.
    Laura Beaumont  ele repetiu, pasmo.
    E voc  Adam, eu acho que voc disse isso?
   Ele se deu conta repentinamente que a olhava paralisado, e estendeu a mo.
    Adam Fortune.
   O nome no pareceu representar nada para ela.
    Muito prazer, senhor Fortune.
   Sua mo era delicada e extremamente feminina.
    Chame-me Adam.


   Captulo 2

    Eu vou fazer um trato com voc. No ligarei para o proprietrio do caf se voc vier trabalhar para mim. Veja, eu
preciso de uma bab.
   Laura desviou os olhos dele e acalmou sua excitao. Era bom demais ficar olhando para ele e, se ela aprendera algo na
vida, era ficar longe de homens bonitos. Ainda assim Ela balanou a cabea.
    Eu no tenho nenhuma experincia nem treino nesta rea.
   Ele olhou para ela, momentaneamente tirando os olhos da estrada.
    No? Bem, talvez isso seja uma coisa boa. Com certeza voc parece ter um modo especial de trat-los, e talvez isso seja
o mais importante.
   Ela tentou pensar.
    Eu, eu no tenho um carro.
    Bem, isso no importa, realmente. Este  um emprego para dormir. Quarto, refeies, salrio.
   Ele lanou-lhe um sorriso malicioso.
    E eu acho que voc far mais bem a ns do que  casa de panquecas ali atrs.
   Laura susteve a respirao. Quarto, refeies e um salrio? Ele continuou a falar.
    O caf da manh  o ponto-chave. As babs treinadas no gostam de cozinhar. Nossa cozinheira, porm, no dorme no
emprego. Ela  casada, sabe, e quando ela consegue alimentar seu marido e mand-lo para o trabalho, arrumar sua casa e
chegar na nossa, j  a hora de fazer o almoo. E, j que eu sou mais ou menos to til na cozinha quanto um cabideiro, a bab
precisa fazer o caf. Voc pensa que pode cuidar disso?
   Laura precisou sorrir. Como se fazer o caf da manh fosse um problema.
   Houve uma poca em que ela pensava que preferia passar sem comida s para escapar de seu turno na cozinha no lar
comunitrio em que passou a maior parte de sua infncia. Mais uma vez, porm, o lar provara seu valor, lar sendo a palavra
operante. Seria bom ter um lar novamente. Ela franziu as sobrancelhas. Se ela o fizesse, que no casse na armadilha de
considerar o lar de Adam Fortune o seu lar. Ainda assim Quarto, refeies e um salrio  era bom demais para recusar. Ela
inspirou profundamente.
    Voc precisa compreender, seria s temporrio. Ele franziu o cenho ao ouvir isso.
    Como, temporrio?
    Bem  ela pensou rpido, procurando um jeito de se proteger. Era fevereiro. Maro, abril, maio, junho A escola
acabaria, o vero viria, seria fcil viajar. A universidade. Sim, isso poderia funcionar. Estremeceu por dentro com a facilidade
com a qual a mentira lhe veio.
    A questo  que eu prometi  Irm Agnes que terminaria minha faculdade. Eu tive ajuda no primeiro ano, uma espcie
de bolsa de estudos, mas o resto depende de mim, ento eu tenho trabalhado e economizado dinheiro, e agora eu j tenho
quase o suficiente para voltar  universidade.
   Ele concordou.
    Est bem. Eu no posso discutir isso. Ento o que voc est dizendo  que nos deixar no outono.
    Sim, talvez antes. Tudo Tudo depende.
   Ele lhe lanou um olhar enigmtico, e por um momento ela pensou que lhe exigiria uma data exata de partida, mas ele
somente inclinou a cabea e disse:
    Quanto ao seu salrio, digamos
   Ele mencionou uma quantia em dlares que fez o queixo dela cair. Quando se recobrou, quase lhe disse que era demais,
mas ento pensou quo longe poderia ir com tal quantia, quo bem poderia se esconder. Poderia guardar quase que cada
centavo, j que no precisaria pagar aluguel nem comprar alimentos. Fechou os olhos e agradeceu silenciosamente. Talvez
Deus no a tivesse abandonado, afinal. Talvez ela finalmente tivesse expiado o passado, e o longo pesadelo tivesse acabado.
Seus olhos se abriram grandes. No, este pensamento era perigoso. Ela no ousaria baixar a guarda, especialmente agora. Ela
era responsvel pelo cuidado e segurana de trs preciosas crianas agora, e as protegeria, Deus era testemunha, com sua
prpria vida.
   Adam sups que deveria estar satisfeito consigo mesmo. No precisara cancelar a reunio nem ligar para a irm ou a tia.
Mesmo assim, tudo o que conseguiu com a reunio foi riscar outro pretendente da lista. Lubrificantes no eram absolutamente
o que queria. O problema era que ele no estava mais prximo de descobrir o que queria do que antes. Precisava rascunhar
uma carta para que sua secretria digitasse informando ao pessoal da franquia que ele no estava interessado em lubrificar
carros. Balanou a cabea. Tinha um escritrio. Tinha uma secretria. S no tinha nada para fazer. Bem, ao menos resolvera o
problema da bab  esperava que sim. Estava se sentindo um pouco menos seguro de sua deciso agora.
   Parecera to certo no momento, mas o que sabia ele sobre Laura Beaumont, na realidade, alm do fato de que era bonita?
Ele supunha que isso fazia parte. O que fazia uma mulher como ela, vivendo cada semana em um motel maltrapilho em uma
estrada pouco rodada e trabalhando como garonete em uma casa de panquecas? Ela poderia ser exatamente o que parecia,
uma jovem sem razes, famlia ou amigos, tentando abrir caminho sozinha no mundo, economizando para a universidade, mas
parecia absurdo que ela no estivesse ligada a ningum ainda. No era do tipo pelo qual os homens passavam sem uma
segunda olhada. No fazia sentido. Ela no fazia sentido.

   Ele abriu a porta da frente com um pequeno tremor, incerto quanto ao que encontraria. O local estava silencioso, quase
ameaadoramente silencioso, j que seus filhos estavam na residncia. Ser que ela os amordaara e amarrara? Prendera-os
nos armrios? Amarrara-os em suas camas? Ele pendurou seu casaco, o cabelo em p na nuca, enquanto supervisionava a rea.
Passou pelo saguo e entrou na sala de estar.
    Wendy? Rob? Ryan? Eu cheguei em casa!
   Nada. Voltou para o saguo e se dirigiu rapidamente para os quartos. Girou a maaneta da porta de Wendy e a abriu
bruscamente, entrando, como lhe fora ensinado no exrcito. O quarto estava vazio  e arrumado. A cama fora feita, a roupa
separada, os brinquedos guardados fora de vista. O que estava acontecendo ali?
   Ele cruzou o saguo em direo ao quarto dos meninos. O lugar estava to arrumado quanto um quartel, e Robbie estava
deitado em sua cama, olhando um livro. Um livro! Adam caminhou at ele e notou que um cronmetro de cozinha
tiquetaqueava sobre a cmoda.
    O que voc est fazendo, Rob? O menino deixou cair o livro.
    To isso  anunciou  endo.
    Como  que pode?
    P'que eu cuspi no Ryan.
   Ele no parecia nada arrependido quando confessou. Nada de surpreendente nisso. Adam sentou-se na borda da cama.
    Voc no deveria cuspir, Robbie. No  legal.
    Eu sei, Laura me disse.
   Adam fitou o cronmetro na cmoda.
    Este  seu castigo por cuspir em Ryan? Robbie assentiu.
    Eu preciso ficar na cama e ler este livro at ele tocar, ento eu estou isso.
   Isso novamente. Adam balanou a cabea como se realmente entendesse o que o menino dizia. Obviamente ele estava
falando com a pessoa errada, se quisesse saber o que estava acontecendo ali.
    Onde est Laura?  perguntou com indiferena. Robbie deu de ombros.
    Num sei.
    Voc no sabe?
   Ele balanou a cabea, os olhos completamente inocentes. Adam franziu as sobrancelhas.
    Onde esto as outras crianas?
    Ela as condeu.
    Condeu? Escondeu? Oh, meu Deus!
   Robbie assentiu, sorrindo quando o cronmetro soou. Ele jogou o livro para o lado, lanou suas pernas por sobre a borda
da cama e rolou, caindo no cho.
    Eu estou isso! Gritou, correndo para fora do quarto.
    Cuidado! Estou chegando!
   Isso. Eles estavam brincando de esconder. Graas a Deus. Ele deixou cair a cabea, rindo silenciosamente de si mesmo. A
distncia, ouviu uma sbita exploso de riso, seguida por guinchos e gritos de disputa. Caminhou pelo saguo, voltando por
onde viera, passando pelo banheiro e pelo quarto de Wendy  direita, as despensas e o vestbulo  esquerda, depois pela sala de
estar, e, finalmente, a sala de jantar. O corredor virava  direita, chegando ao final em um escritrio amplo. Era seu cmodo
favorito, grande e quente, com paredes de tijolo e uma lareira, confortvel, pouco mobiliado, uma TV, estantes de livros, fotos
emolduradas nas paredes. Este cmodo fora um presente de Kate. Diana lhe assegurara que sua av insistira em decor-lo
sozinha quando eles construram a casa. Querida Kate. Como ele sentia falta dela! Mais, at mesmo, que de sua esposa, muito
paciente, muito apropriada, muito distante. A casa estava pronta h aproximadamente um ano, incluindo este cmodo, quando
ele o viu pela primeira vez, mas nunca entrara nele sem sentir a mo de sua av. Ser que lhe agradecera de maneira adequada
por isso? No conseguia se lembrar.
   Ele captou um movimento com o rabo do olho e voltou sua cabea para ver Laura sair engatinhando de trs do grande sof
de camura verde, as trs crianas penduradas nela. Laura jogou o cabelo para trs e, com um rugido dramtico, caiu de
braos.
    Eu me rendo! Voc venceu!
   Wendy, cujo cabelo fino se libertara de suas marias-chiquinhas para cair sobre seu rosto, colocou sua cabea perto da de
Laura e se estatelou no cho ao seu lado. Os gmeos comearam a bater palmas e a cantar enquanto se empilhavam por cima
de Laura Beaumont.
    Ns vencemos! Ns vencemos!
   Subitamente Laura se ergueu, sentou e prendeu os meninos com as mos.
    Est bem, est bem, faam o seu pior!
   Para surpresa de Adam, seus filhos comearam a atacar Laura Beaumont com beijos estalados por todo o seu rosto
adorvel, ombros e braos, gargalhando enquanto ela fazia rudos de desdm.
    Oh, isso  terrvel! Tortura! Tortura!
   Ryan lhe deu um abrao de quebrar o pescoo. Ela sufocou apropriadamente, e os outros dois prontamente o seguiram. Ela
caiu para trs de encontro  lateral do sof, vencida pelo puro peso da afeio deles. Adam no se lembrava de ter recebido
mais que um rpido e seco beijinho de qualquer de seus filhos. No sabia a quem invejava mais, Laura ou seus filhos.
   De repente, ela se deu conta da presena dele. Seu sorriso empalideceu e ela ficou dura, comunicando tacitamente que a
brincadeira havia acabado. As gargalhadas morreram. Os pequenos braos se soltaram. Ps pequenos se apoiaram no tapete
espesso, cor de areia. Quatro pares de olhos o fitaram com a expresso de prisioneiros condenados recebendo o carrasco.
    Oi  disse Laura, de p no meio dos corpinhos.  Ns estvamos brincando.
   Adam se permitiu um fraco sorriso.
    Eu pude notar.
   Ela parecia insegura. Com medo, talvez? Ele os olhou mais de perto, e viu medo no rosto de todos  o medo da
desaprovao. Ele se obrigou a relaxar, pegou o jornal em uma mesa e deixou-se cair em sua poltrona favorita.
    Como foi o seu dia?
    Bem!  Laura sentou-se no sof. Wendy levantou-se para sentar ao seu lado, a cabea encostada em seu brao,
enquanto cada um dos gmeos pegou uma de suas pernas e se enroscou nela.
    A professora do jardim-de-infncia de Wendy ligou para perguntar por que ela no foi  escola essa tarde. Eu no sabia
o que dizer.
   Escola. Como ele poderia ter se esquecido disso? Adam forou um sorriso.
    Eu vou ligar e explicar amanh.
   Ele abriu o jornal e tentou ler, mas no conseguiu encontrar uma nica palavra na pgina inteira. Sua mente estava dando
voltas. Eles j a amavam. Ele no sabia nada sobre essa mulher, mas seus filhos j a amavam. E a escola. O que faria sobre
isso? Ser que ela sabia dirigir? Colocou o jornal de lado.
    Voc dirige?
    Sim.
    E que eu prefiro que Wendy seja levada de carro  escola, e no de nibus. E to perigoso esperar ao ar livre nesse
frio
    Tudo bem, mas
   Ele lembrou de que ela no tinha carro.
    Ah, isso no  problema. Voc pode pegar a perua. Eu prefiro a caminhonete, de qualquer jeito.
    Bem, est combinado ento.
   Ele sorriu e abriu o jornal de novo, mas sua mente simplesmente no estava nas notcias locais.
    A que horas ser o jantar?
    A qualquer momento, eu acho. Beverly disse que por volta das seis horas.
   Beverly, era isso? At a cozinheira e a nova bab j se tratavam pelo primeiro nome. Ele no podia se lembrar disso ter
acontecido antes.
    Est bem  ele precisava faz-la se abrir para conhec-la. Dessa maneira ele no chegaria rapidamente a nenhum
lugar, e ainda assim no conseguia deixar o jornal de lado. O que diria? O que perguntaria a ela, sem faz-la sentir que a estava
interrogando? Para seu alivio, ela tomou o assunto de suas mos.
    Bom, hora de se lavar. No podemos ir para a mesa de jantar com as mos e o rosto sujos, no ?
   Adam grunhiu concordando atrs do jornal, enquanto eles saam. Ele escutou um dos meninos lamentar sobre algo como
no deixar o sabo entrar nos olhos, e ouviu Laura afirmar baixinho que isso no aconteceria.
   Adam balanou a cabea e largou o jornal. O que havia de errado com ele? A mulher era maravilhosa, exatamente como
ele soubera instintivamente que seria. Ele no tinha nada a temer, absolutamente nada, e ainda assim
    Jantar em dez minutos, senhor Adam.
   Ele olhou para a tranqila e eficiente mulher de meia-idade que estivera cozinhando suas refeies nos ltimos dezoito
meses.
    Obrigado Beverly.
   Suas sobrancelhas se elevaram, e ela interrompeu o gesto de secar as mos no avental, ento sorriu, primeiro timidamente,
depois mostrando uma ofuscante dentadura branca.
    Eu sairei um pouco mais cedo esta noite, senhor, se estiver tudo bem. Meu marido, ele quer ir ao cinema, e Laura disse
que colocaria a loua na lavadora para mim. Eu limparei todo o resto antes de ir
    Claro. Ah, diga-me, o que acha de nossa Miss Laura? Beverly abriu um sorriso radiante.
    Oh, ela  um tesouro, essa a! Tomou o controle das coisas imediatamente, e, sabe, eu acho que ela realmente gosta de
crianas. Por que ser que tantas babs no gostam de crianas?
   Uma observao muito astuta. Adam sorriu.
    Divirta-se no cinema.
    Obrigada, eu vou me divertir, e, senhor Adam, se eu posso dizer, eu acho que ela  exatamente de quem esses
pequeninos precisam.
   Seus olhos disseram algo mais, mas ele no era muito bom em ler mensagens mudas, e no tinha certeza se queria saber o
que ela estava pensando, afinal. Meu Deus, planejar estratgias de guerra e mobilizaes em massa era um passeio no parque
comparado com a vida que estava levando. Mas talvez mudasse para melhor agora, embora temporariamente.
Temporariamente no era o bastante. Ele no poderia contratar uma nova bab a cada dois ou trs meses. As vidas das crianas
eram continuamente tumultuadas por estas mudanas e um dia  logo, por favor!  ele teria uma nova carreira. Ele estava
sentindo uma nova sensao de presso em relao a isso, tambm. Sua aposentadoria militar no bancaria a universidade das
crianas nem permitiria o tipo de gastos domsticos que os invernos em Minnesota requerem, especialmente quando a casa
ficasse mais velha. E ele no podia simplesmente sentar-se, dia aps dia, lendo o jornal. Laura entrou e sentou no sof.
    Est pronto.
   Ele levantou, mas ela continuou sentada.
    Voc no vem?
   Ela lanou um olhar humilde.
    Eu no tinha certeza quanto ao que  apropriado em minha situao.
    Bom,  apropriado comer.
    Eu s no tinha certeza se eu deveria comer na mesa com o senhor e as crianas.
    Por aqui ns somos bastante informais. Venha.
   As crianas estavam dando risadinhas quando eles entraram  o que no era um bom sinal. Robbie havia metido a mo
no prato de pur de batatas e estava espremendo a massa, que saa por entre seus dedos. Adam abriu a boca para dar uma
ordem zangada, mas algo no comportamento de Laura o fez pensar duas vezes. Ele olhou de soslaio para ela, que se erguera
em toda sua altura e cruzara os braos longos e esbeltos. Seu rosto estava impassvel. Robbie vagarosamente tirou a mo do
pur. Laura foi at a cadeira em frente e sentou sem olhar para Robbie. Adam pressentiu um mtodo no comportamento dela e
calmamente a imitou. Uma vez instalado na cabeceira da mesa, ele olhou e reparou a expresso desconfortvel no rosto de
Robbie, enquanto ele olhava para a mo revestida de pur de batatas e sorria para Laura.
    Voc pode servir as crianas, por favor?
    Sim Wendy, voc quer pur?
    Sim, por favor.
    Ryan?
   Ryan ficou vesgo e sacudiu a lngua.
    Sim, pol favoll
   Laura sorriu e colocou pur em seu prato. Ento se voltou para Robbie.
    Robbie, voc quer?
   Robbie assentiu e baixou a cabea. Adam dissimulou um sorriso, sabendo que seu patifezinho estava se perguntando como
uma arte to brilhante se transformara em uma vergonha. Laura o serviu e pousou a tigela. Silncio total se seguiu, e ento
Adam ouviu o som de algum fungando. Olhou para Robbie, cuja cabea estava praticamente em seu prato agora, depois para
Laura. Sua expresso de compaixo por Robbie o fez sentir subitamente um n na garganta. Precisou desviar o olhar.
    Adam  Laura disse, tranqilamente  ser que voc poderia limpar a mo de Robbie para que ele possa comer?
   Brilhante. Ela era brilhante. Adam escorregou de sua cadeira e ajoelhou-se ao lado de Robbie, usando seu guardanapo para
limpar a pequena mo do filho.
    Sabe, Rob  disse gentilmente  h razes para as regras. Jantar no seria uma atividade muito agradvel se todo
mundo se servisse com as mos, no ?
   Robbie concordou com a cabea. Adam seguiu seu instinto e deu uns tapinhas no ombro do menino antes de voltar  sua
cadeira. Laura estava radiante ao pegar o prato de costeletas de porco.
    Robbie, voc gostaria de uma costeleta de porco, querido?
   Robbie limpou o nariz com o punho e disse que sim. Laura compartilhou um sorrisinho com Adam enquanto espetava uma
costeleta para coloc-la no prato de Robbie.
   Por muito tempo, a mesa esteve viva com os sons de um jantar de famlia agradvel, de fato o mais agradvel que tinham
na memria. As risadas que eclodiam de tempos em tempos no eram maliciosas, mas alegres. Adam se maravilhava. Foi com
dificuldade que comeou a interrogar Laura.
    Ento, conte-me, Laura  comeou, com fingida casualidade  o que voc est estudando?
    Estudando?  ela respondeu, surpresa, e Adam pensou, Ah!. Seus pensamentos devem ter transparecido em seu
rosto, pois ela empalideceu, recobrando-se, porm rapidamente.
    Oh, voc quer dizer o que eu estudo na universidade?
    Sim, na universidade.
   Ela sorriu rigidamente, concentrando sua ateno no que sobrava de sua comida.
    Desenvolvimento na primeira infncia.
    Ah!  Resposta perfeita, mas ele ja sabia que ela era brilhante.
    Apesar de ainda no ter terminado.
    Quando voc espera voltar aos estudos? No outono? Ela estremeceu, se sentindo desconfortvel.
    Talvez, porque eu posso querer comear com o curso de vero, para facilitar a volta, sabe.
   Vero. Ele forou-se a sorrir.
    Aonde voc pensa ir? Ela engoliu.
    Eu Eu ainda no decidi.
   Ele fez um som de compreenso, totalmente convencido de que ela estava mentindo para ele.
    Bem, no tem pressa
    , no tem pressa.
   Ele se preparou para o golpe mortal.
    Onde voc freqentava antes?
   Ela levantou o olhar para encontrar o dele, e um instante antes de escond-lo, ele viu o que ela no queria que ele visse:
medo.
    Em nenhum lugar do qual voc jamais tenha ouvido falar  murmurou.
    Fora do estado?  ele perguntou, asperamente. Ela dobrou o guardanapo e o colocou ao lado do prato. O olhar que lhe
lanou era implacvel, incapaz de desculpas.
    Sim  disse simplesmente, empurrando sua cadeira para se levantar. Ela varreu a mesa com um olhar.
    Com licena.
   Ela levantou e saiu sem mais palavras.
   Adam inspirou profundamente. Ela mentira para ele, e ela tinha medo de que ele soubesse. A questo agora era por qu, e
o que ele faria em relao a isso.
    Hora de dormir, meus amorzinhos.
   Adam olhou para a turma no sof e riu consigo mesmo. Hora de dormir, realmente. Nenhum deles podia manter seus olhos
abertos. A mudana de horrio noturno feita por Laura fora sbia. Em vez de adiar os banhos at logo antes da hora de dormir,
ela brincara com as crianas um pouco depois do jantar, em seguida os banhara e os acarinhara no sof, lendo. Eles caram, um
a um, em um estupor de relaxamento. A cama, sem dvida, parecia deliciosa naquele momento. Laura estava insistindo para
que um dos gmeos, depois o outro, se colocasse de p quando a campainha da porta soou. Adam se levantou para atender.
   Ele abriu a porta e encontrou seu pai batendo os braos, todo encolhido de frio.
    Adam
    Pai
   Era o cumprimento padro.
   Jake entrou sem esperar um convite e fechou a porta atrs dele.
    Est frio l fora.
    Alguns at podem se sentir inclinados a ficar em casa  comentou Adam, suavemente.
    Est bem, est bem, no me venha com atitudes. Eu tenho algumas razes importantes para estar aqui.
   Adam sabia muito bem qual seria ao menos uma dessas razes. Ele colocou as mos nos bolsos das calas.
    O que aconteceu? Jake fez uma careta.
     a sua irm.
    Caroline?
    No, Caroline est bem.
   Adam se alegrou ao saber disso. Sua vida de casada parecia ir bem. Jake riu.
    Quem acreditaria? A mulher de carreira finalmente se amansou. Nunca a vi to feliz.
    Bem, faltam trs Natalie  a mais sensata, logo deve ser uma das gmeas.
   O riso de Jake subitamente se transformou em careta.
    Ser que podemos sentar?
   Adam podia ver que Jake estava realmente preocupado com algo, ento o levou atravs do saguo at a sala de estar.
Laura estava levando as crianas pelo corredor e elas se alegraram ao ver seu av. Imediatamente eles comearam a saltar
atrs dos dois e a subir em Jake assim que ele se deixou cair no sof.
   Adam reprimiu uma onda de irritao quando Jake acariciou e abraou seus filhos. Ele ficou realmente aliviado quando
Laura apareceu.
    Eu sinto muito  disse ela.
    No, tudo bem, Laura. Eu gostaria de lhe apresentar meu pai, Jacob Fortune.
   Novamente Adam notou que o nome Fortune nada dizia a Laura. Sempre cavalheiro, Jake se levantou. Ela estendeu a mo.
    Al.
    Papai, essa  Laura Beaumont, nossa nova bab. As sobrancelhas de Jake se ergueram, mas ele sorriu, um sorriso
conquistador para Laura, e sua grande mo engoliu a dela.
    Muito prazer.
   Ela sorriu desculpando-se para Jake.
    Ns estvamos a caminho da cama
    Oh, bem  Jake beijou cada criana e as devolveu a Laura. Ela sorriu para Adam quando saram da sala. Jake os
observou com curiosidade indisfarvel.
    Ela  mil vezes mais atraente que aquela criatura, Godiva!
   Adam precisou rir.
    Sim, muito mais. E melhor bab tambm.
    Verdade?
    Ela conseguiu mais com estas crianas em um dia do que Godiva e todas as outras juntas.
   Jake franziu a fronte.
    Voc nunca compreendeu as crianas.
    Eu nunca compreendi? E  voc que me diz isso
    Isso no  justo, Adam. Ao menos eu tentei
    Voc ia me dizer qual das minhas irms fez o imperdovel.
   O rosto de Jake ficou vermelho.
    Rachel.
    Veja, Rocky tem, o direito de viver a vida como bem entender. Eu sabia que voc poderia no aprovar Luke Greywolf,
mas ele me parece um cara decente. Ele  um mdico, pelo amor de Deus!
    Ela est grvida
   Adam manteve o rosto impassvel.
    E bom que voc seja um melhor av do que foi um  parou, sentindo as cores apagarem de seu rosto.  Perdo, eu
no queria dizer isso
    No mesmo?  Jake cerrou os punhos. Adam suspirou.
    Eu sei que voc est preocupado com ela, mas honestamente, eu no acho que deva.
    Voc sabe como ela  descuidada
    Descuidada, no. Aventureira, talvez. Independente, certamente, mas no descuidada.
   Jake fez cara feia.
    Quando eu falei com a sua me, ela disse que Rocky realmente o ama.
    Eu tenho certeza que sim. Seno ela no teria concordado em se casar com ele, com beb ou sem beb.
    Mas e ele? Isso  o que eu quero saber.
    Eu diria que voc precisa confiar em Rocky
   Mas Jake Fortune tinha dificuldade em confiar em qualquer um de seus filhos. Adam continuou:
    Independente e teimosa como Rocky , voc acha que ela combinaria com algum que no fosse completamente louco
por ela?
   Jake olhou para ele com algo muito prximo de gratido.
    Voc tem razo. Sim, voc tem toda razo. Eu no tinha olhado a coisa dessa forma.
   Adam sorriu para si mesmo, sentindo-se extraordinariamente orgulhoso. Talvez houvesse esperana para eles, afinal.
    Sua me quer dar-lhes uma festa, um tipo de recepo familiar.
   Adam riu.
    Ns o estamos recebendo ou estripando?
    Sua me tem a inteno de receb-lo, mas francamente, eu no tenho certeza se vai acontecer o oposto, dado o clima
atual.
    Voc est falando sobre o caso Mnica Malone agora. O rosto de Jake se fechou instantaneamente.
    Quanto menos se falar sobre este assunto, melhor.
    Por mim tudo bem. Eu s gostaria que meu irmo e sua turma concordassem com voc.
    Isso um dia vai acontecer.
    Eu suponho que sim.
   Jake levantou e fez uma expresso severa.
    Mudando de assunto, quando voc vai desistir dessa busca ridcula e trabalhar na companhia?
    Ops! Est na hora de ir. Eu no quero ter essa conversa novamente.
    Voc no v que o seu lugar  no negcio da famlia?
    No.
    Adam, por favor. Eu preciso de voc agora. A Cosmticos Fortune tem necessidade imediata de uma liderana. Voc 
uma liderana natural. Voc poderia
    No! Por que voc sempre faz isso comigo? Eu no vou dar nenhum passo na direo da grande chatice que so as
companhias Fortune!
    Ento, o que exatamente voc vai fazer? Vender carros? Instalar ares-condicionados centrais?
    Eu no sei! Mas eu acharei algo, algo adequado para mim.
    Mas este trabalho  adequado para voc!
    No!
    Voc no vai nem mesmo me ouvir?
    No.
   Jake cerrou os punhos, obviamente lutando contra seu gnio estourado.
    Eu no o compreendo.
    Diga-me algo que no sei.
    Voc nunca entendeu o que significa ser parte desta famlia.
    No  a famlia.  com o negcio de famlia que eu no quero ter nada a ver.
   Jake parecia estar se preparando para uma exploso real quando Laura os interrompeu suavemente.
    Posso trazer algo para os senhores antes de ir dormir?
   Jake engoliu o que quer que estivesse quase dizendo e balanou a cabea.
    Meu pai j estava saindo
    Obrigado de qualquer jeito.
    No tem problema. Foi um prazer conhec-lo, senhor Fortune. Cuidado com o frio, sim?
    Boa noite, senhorita Beaumont. Ele parou e olhou para Laura.
     senhorita, no ?
   Laura piscou, depois enrubesceu.
    .
    Eu imaginei Foi um prazer conhec-la.
   Depois, lanou um olhar duro para o filho.
    Adam
    Pai
   E saiu resmungando.
   Adam suspirou. Ser que no mudaria nunca? Seu olhar foi quase que involuntariamente para Laura. Ou ser que a
mudana j comeara?


   Captulo 3

   Adam usou um pedao de torrada para limpar o resto de ovos em seu prato, e depois tomou um gole de caf. Seu prazer
era evidente.
    Diga-me novamente por que estes ovos so de baixo colesterol? Laura sorriu.
     simples. Digamos que voc queira uma dzia de ovos mexidos. Voc pega somente nove claras e trs ovos inteiros,
adiciona uma gota ou duas de colorante para comida, aquece uma panela no aderente, coloca os ovos e os mexe.  suficiente
para ns e para as crianas.
    Voc colocou algo mais nesses
    Voc pode acrescentar quase qualquer coisa. Eu usei um pouco do pur de batatas que sobrou da noite passada e um
pouco de queijo sem gordura que achei na geladeira.
    Ento  assim que voc mantm essa forma maravilhosa?
   Laura sentiu o calor subir por seu peito. Pelo amor de Deus! O que havia de errado com ela? Espantada com a prpria
reao, ela desviou o olhar.
    Obrigada Ah! Se voc puder passar pela mercearia e trazer um pouco de bacon de peru
    Hoje no. Sinto muito. Mas as estradas esto livres e voc mesma pode ir e levar as crianas.
   Ele abriu a carteira e tirou uma nota, que empurrou para ela.
    Compre o que precisar.
    Cem dlares!? Para bacon de peru?
    Para qualquer coisa que precisar. Ela o olhou, boquiaberta.
    Voc no pode andar por a dando notas de cem dlares assim!
    E por que no?
    E dinheiro demais!
    Ento guarde o que sobrar para a prxima vez em que precisar de algo.
    Eu no preciso de nada, e, se precisasse, no deixaria que voc pagasse por isso.
    No? Ento est bem, use para coisas de que a famlia precise, como bacon de peru.
    Eu no sei se deveria
    O que , Laura?  perguntou, baixinho.  Eu no posso confiar em voc quanto a dinheiro? O dinheiro  algum tipo
de grande tentao para voc?
   Ela sabia que isso era um tipo de teste. Ele estava disposto a pagar cem dlares para descobrir se ela era honesta ou no.
Em outras palavras, ele no confiava nela, e isso a feria mais do que deveria.
    Eu lhe prestarei contas  disse ela docemente, pegando a nota e a dobrando at que coubesse toda na palma de sua
mo.
   Ele no se moveu nem falou por um longo instante, e Laura manteve seu olhar teimosamente desviado, no querendo que
ele visse o brilho de desapontamento em seus olhos.
    Veja, voc precisa ir  cidade de qualquer jeito. A aula de Wendy comea s nove, e eu preciso estar no escritrio antes
disso. Voc sabe onde  a escola?
    Sim, acho que sim. De qualquer jeito, posso ach-la. Saint Cloud  uma cidade bem pequena, afinal.
    Est bem. Voc pode usar a perua.
    OK.  Laura concordou, sem olhar para ele.
    Voc sabe dirigir, no?
    Claro. Eu aprendi a dirigir na escola, e nunca tive nenhum tipo de acidente ou multa.
    Quantos anos voc tem, Laura?  perguntou ele gentilmente.
    Vinte e dois.
    Eu sabia que voc era jovem.
   Ela mordeu o lbio, mas no pode evitar a pergunta.
    E voc, quantos anos tem?
   Ele sorriu, os olhos brilhando afetuosamente.
    Trinta e um.
    Isso no  exatamente velhice.
    No, no . Ouvindo meu pai falar, algum pode supor que sou praticamente um adolescente ainda.
    Hum, sobre a noite passada Eu no estava bisbilhotando sua briga com seu pai. Eu estava vindo pelo corredor, e no
pude evitar ouvir.
    Sim, est tudo bem em relao a isso Ns sempre terminamos gritando, e a sua entrada foi excelente. Obrigado.
    Eu no tinha a inteno, na realidade. Eu acho que fiz isso sem pensar. Eu odeio conflito, simplesmente odeio.
    Bem, conflito  tudo o que existe entre mim e Jake.
    Eu nunca conheci meu pai
    Oh, que triste
   Adam continuou, depois deu uma pausa.
    No  que no nos gostemos, Jake e eu. E somente Eu no sei, talvez sejamos parecidos demais. O ponto  que ele
foi forado a trabalhar no negcio da famlia, quando o que queria na realidade era ser mdico. Era o primognito Eu no
penso que ele tenha nem mesmo tentado lutar contra isso, e eu vi o que isso fez com ele. Bem, eu decidi h muito tempo que
isso no aconteceria comigo, mesmo sendo o primognito tambm.
     uma pena que vocs no possam evitar essa questo.
   Adam gargalhou.
    Evitar a questo com Jake Fortune? Isso seria impossvel.
   Laura mordeu o lbio.
    No  da minha conta, afinal. Eu tenho essa coisa com famlia,  s isso. Voc sabe como , quando voc no tem algo
que todos os outros tm, parece que  a coisa mais importante para se ter no mundo.
   Adam concordou.
    Minha av era assim. Ela foi criada em um orfanato antes da Segunda Guerra Mundial.
    Eles no os chamam mais de orfanatos  disse Laura, lentamente.  Eles os chamam de lares comunitrios ou casas
parciais, mas ainda so a ltima parada para uma criana sem ningum e sem lugar para ir.
   Adam pareceu escolher as palavras com cuidado.
    Voc no tem nenhum parente?
    No. Meus pais eram filhos nicos. Meus avs j eram falecidos quando eu nasci. Meu pai morreu em algum tipo de
acidente na fazenda quando eu era apenas um beb, e minha me Bem, ns nunca soubemos se ela tomou plulas demais por
acidente ou de propsito. Afinal, eu s tinha cinco anos na poca.
    A idade de Wendy  Adam pensou, sombrio.
    Mais ou menos
    E voc foi para um desses lares comunitrios?  ele perguntou.
    De incio, fui transferida de uma guarda para outra por tanto tempo que eu esqueci quantas foram. Morei em um lar
comunitrio durante o incio de minha adolescncia, depois me candidatei ao colgio interno catlico para os tutelados do
estado, e fui aceita, porque minhas notas eram bastante boas, e foi ali que eu conheci a Irm Agnes.
    Ela era especial para voc
    Sim, era.
    Ento vocs ainda mantm contato? A dor nublou os olhos de Laura.
    A Irm Agnes morreu no meu ltimo ano de escola. Ela era muito velha, e  Ela estancou e disse, muito vivamente:
 Bem,  melhor eu ir ver as crianas.
    Oh, sim, eu tambm tenho de ir embora. Eu tenho pesquisas para fazer.
   Ela queria perguntar que tipo de pesquisa, mas no o fez. Eles j haviam conversado o suficiente, e ela j lhe dissera mais
do que tinha a inteno. No conseguia se lembrar da ltima vez em que mencionara a morte de sua me para qualquer pessoa.
No gostava de pensar nisso, porque a verdade era que, apesar de todo o aconselhamento e livros de auto-ajuda e da instruo
cuidadosa da Irm Agnes, ainda no se livrara do sentimento de que representara to pouco que sua prpria me se fora sem
pensar duas vezes. Levantou-se e seguiu Adam at o escritrio, onde encontrou as crianas em seus pijamas, refesteladas em
frente aos desenhos animados matutinos.
    Estou indo, crianas  anunciou Adam, pegando sua pasta.  Sejam bonzinhos com a Laura. Eu os verei mais tarde.
   Eles no deram nem mesmo um olhar em sua direo, mas ele pareceu achar isso estranho enquanto se virava para ir
embora.
    H um carto com o nmero de meu escritrio pregado perto do telefone da cozinha e o de meu celular est escrito no
verso, em caso de emergncia.
    Ns ficaremos bem  Laura disse. Ele assentiu vivamente.
    Cuidado com as estradas.
    Eu prometo.
    At o jantar.
   Ele foi embora com um aceno de mo.
   Laura o viu mover-se em direo ao caminho, ento observou as crianas refesteladas no cho na frente da televiso. No
deveria haver beijos e palavras de afeio entre um pai e filhos que se despedissem uns dos outros? Contrariava-lhe o fato de
as pessoas nesta famlia se menosprezarem umas s outras. Algo estava errado ali. Sentou perto de Wendy.
    Seu pai saiu  disse, suavemente.
    Ele sempre sai.
   Algo na maneira como ela o disse fez com que um arrepio de desconforto passasse por Laura.
    Eu vou arrumar as coisas do caf da manh, crianas, e depois devemos nos vestir para levar a Wendy na escola. Isso
quer dizer que a televiso vai ter que ser desligada.
   Houve lamentos e resmungos, mas cessaram assim que saiu da sala. Laura sorriu para si mesma. As crianas Fortune no
eram do tipo que gastava sua energia se queixando quando no havia ningum para prestar ateno. O pensamento que se
seguiu, porm, era capaz de dar arrepios  melhor bab do mundo. No, as crianas Fortune no gastariam energia se
queixando; elas preferiam arquitetar travessuras.
   Laura suspirou. J estavam dez minutos atrasados, e ela nem mesmo conseguira coloc-los no carro! Como se lesse seus
pensamentos, Ryan se desvencilhou dela no ltimo instante, se jogou da cadeirinha e correu alegremente para fora do carro.
Robbie deu uma risada, alertando Laura sobre sua prpria fuga da cadeirinha, mas foi para Wendy que ela olhou depois que o
menino correu atrs do irmo. Sentada no assento dianteiro, Wendy era a imagem da inocncia.
    Eu terei que escrever um bilhete justificando seu atraso. E sabe o que vai estar escrito? Vai estar escrito que voc e seus
irmos se comportaram to mal que eu no pude fazer o meu trabalho. Eu acho que no sou uma bab muito boa, afinal.
   Wendy piscou, compreendendo tudo.
    Bem, quando estava muito atrasada, Lady Godiva dizia que talvez fosse melhor eu nem ir, e ela me deixava ficar em
casa para ajudar com os meninos.
   Laura pareceu considerar isso.
    Humm, bem, eu prometi a seu pai que faria algumas compras essa manh. Se Se eu somente conseguisse colocar os
meninos no carro
   Era um pouco covarde, mas ela achou que uma dose de seu prprio remdio era exatamente do que Wendy precisava no
momento.
   Convencida de que vencera, a menina abriu a porta do carro e desceu. Ps as mos rechonchudas na cintura, bateu com o
p e berrou:
    Parem com isso, garotos, e voltem para o carro!
   Os pequenos patifes realmente pararam e olharam para sua irm, intrigados. Wendy sorriu o riso dos vitoriosos.
    Entrem no carro! Laura vai nos levar para fazer compras.
   Quinze minutos depois, eles pararam em frente  escola de Wendy. Ela virou um rosto zangado para Laura, que balanou a
cabea.
    Eu nunca disse que voc no precisava ir  escola. Wendy fez beicinho.
    Voc me enganou!
    Sim, enganei.  ruim quando algum em quem voc confia, algum de quem voc gosta, engana voc, no? Wendy
simplesmente apertou os olhos.
    Eu sei que voc fez os meninos se comportarem mal essa manh para que voc perdesse a escola. Mas isso no vai
funcionar comigo, Wendy. Tudo isso s faz com que meu corao doa, porque fico desapontada por voc tentar me enganar e
tornar o meu trabalho mais difcil.
   Wendy subitamente comeou a soluar.
    Eu s queria ficar em casa com voc e com os meninos!
    Sim, eu sei, mas no  bom para voc faltar s aulas, Wendy. Meu trabalho  cuidar de voc e de seus irmos. Como eu
poderei olhar para seu pai nos olhos e dizer que pode confiar em mim para tomar conta de vocs se eu no cuidar do que 
melhor para vocs?
    Eu no sei
    Mas eu sei Isso  que faz com que eu seja o adulto aqui, Wendy.  por isso que eu tomo as decises. O negcio  que
a escola  importante. Eu no estaria fazendo meu trabalho se a deixasse ficar em casa sempre que voc sentisse vontade. E se
eu no fizer o meu trabalho direito, bem, ento eu terei que encontrar outra pessoa para faz-lo. Agora eu vou fazer uma
promessa para voc.
    Uma promessa?  Wendy repetiu, limpando seus olhos.  Que tipo de promessa?
    Ns faremos alguma coisa legal essa tarde quando voc for para casa. Algo especial.
    Algo especial?  repetiu Wendy.  O qu?
    Bem E se ns fizssemos um boneco de neve no jardim da frente de casa? No, espere! Um castelo de neve! Ns
construiremos um castelo de neve no jardim da frente! O que voc acha?
    Est bem!  respondeu Wendy, sorrindo.  Uau! Godiva no nos deixava nem mesmo brincar na neve!
   Laura sorriu.
    Agora,  melhor voc entrar.
   Laura repentinamente pensou na despedida estril entre Adam e seus filhos mais cedo naquela manh e pensou que no
poderia deixar Wendy ir embora sem algum gesto de afeio.
    Espere!  Laura envolveu o corpinho da criana com seus braos. Deu a Wendy um breve abrao e beijou suas
tmporas sedosas.
    At logo, querida! Eu a verei mais tarde.
   Os olhos dourados de Wendy brilharam de felicidade.
    No v para outro emprego, Laura  sussurrou.  Fique conosco.
   Lgrimas quentes ferroaram os olhos de Laura. Ela queria prometer isso para aquela garotinha, mas sabia que no estava
em seu poder faz-lo. Mais cedo ou mais tarde, teria que ir. Se Doyal a encontrasse ali Ela estremeceu ao pensamento do
que ele poderia fazer a essa famlia j problemtica. No poderia deixar que isso acontecesse, e ir embora antes que ele a
encontrasse era a nica maneira de proteg-los. Mas ela no podia dizer isso quela garotinha. No podia dizer a ningum.
    Veremos. Agora v.

   Laura engatinhou atravs da abertura estreita, apertando seu corpo no exguo espao deixado pelos outros trs que
ocupavam a pequena cmara, e sorriu um sorriso escancarado.
    Est mais quente do que eu pensava. Wendy deu uma risada.
    A neve no  quente!
    No, claro que no, mas um castelo de neve 
    Oh, eu amo meu castelo de neve!  Wendy suspirou. Robbie socou o seu brao.
    Ele no  seu! Ele  de todos ns. No , Laura?
    Sim, mas voc no deve bater na sua irm. Bater  um comportamento inaceitvel. Pea desculpas, por favor.
   Robbie j ouvira pea desculpas vrias vezes naquele dia e fez uma careta pelo esforo de dizer novamente desculpe.
   Wendy deu-lhe uns tapinhas companheiros na cabea.
    Tudo bem, Robbie. No doeu mesmo Amanh ser que podemos brincar de cavaleiros e princesas em nosso castelo?
   Laura riu.
    Se o tempo estiver bom, mas ns teremos que ser cavaleiros e princesas bem agasalhados, est bem?
    Est bem.
   Eles se sentaram amontoados em um pedao de papelo no cho frio. Laura desenhara tbuas nele, para representar um
piso de madeira. Com um pouco de sorte, Adam estaria em casa antes que eles sassem e veria o trabalho que haviam
realizado.
    Papai no ficar impressionado com nosso castelo?  lanou no ar.
   Robbie e Ryan olharam para Wendy, que deu de ombros.
    No sei. Ele pode no notar.
    Bem, com certeza ele notar. Como no poderia notar uma escultura de neve de um metro e meio de altura em seu
jardim? Eu aposto que ficar triste por no ter estado aqui para nos ajudar
   Wendy balanou a cabea. -No, ele no vai.
    No ele no vai  repetiu Ryan.
    Por qu? Claro que vai. Ele nunca brincou na neve com vocs?
   Wendy abaixou a cabea.
    Papais no brincam E ele nunca estava aqui quando tinha neve.
    Nunca esteve aqui quando tinha neve? Eu no entendo
    Ele nunca morou conosco at a mame ir embora.
    No? Eles eram divorciados?
   Eles estavam claramente confusos, olhando um para o outro, procurando uma explicao. Finalmente Robbie levantou os
braos e disse:
    No! Papai morava com o exrcito!
    O exrcito? Ento ele era um soldado?
    Sim, com o exucitol  disse Ryan, claramente desesperado com sua falta de entendimento.
   Bem, isso explicava o corte de cabelo e sua magnfica condio fsica. Mas no o fato de ele nunca ter passado um inverno
com seus prprios filhos. Ela olhou para Wendy procurando respostas.
    Por que vocs todos no foram com ele? Wendy simplesmente deu de ombros. Laura tentou de novo.
    Bem, tenho certeza de que ele vinha para casa sempre. Quero dizer, ele no perdia seus aniversrios ou os feriados
Perdia?
    Papai estava em casa no Nadal Ele e vov Jake tiveram uma briga.
   Uma briga. No Natal. Laura engoliu em seco
    Isso  muito ruim Mas esse foi s um Natal entre muitos. No foi?
    Eu no sei  Wendy deu de ombros.
   Ela no sabia. Ela no lembrava se o pai havia passado outros Natais com ela. O que havia de errado com esse homem?
Laura piscou para impedir as lgrimas.
    Bem, ele est aqui agora, e tenho certeza de que ele passa todos os minutos possveis com vocs.
   Wendy no disse nada, mas seu rosto mostrava uma raiva reprimida. Ai, Adam, Laura pensou, o que voc est, fazendo
com seus filhos?
    Estou com frio!  disse Ryan. Laura despertou de seu devaneio.
    Eu aposto que um copo de chocolate quente aqueceria voc, no ?
    Sim! Chocolate! Chocolate! Chocolate!
   Laura virou-se e os guiou para fora da estrutura de neve. A prxima parada foi o grande banheiro onde todo mundo se
lavou. Ento as crianas foram para o escritrio de leitura, enquanto Laura se dirigiu  cozinha.
    Oi  disse ela a Beverly, que estava mexendo uma panela no fogo e estampou um sorriso por sobre o ombro.  O
chocolate j est pronto?
    Est, mas o jantar tambm.
    Est cheirando bem. O que ?
    Guisado. Devo servir agora? Laura balanou a cabea.
    Vamos esperar o senhor Fortune. Beverly a olhou estranhamente.
    Ah, eu esqueci. Ele ligou agora h pouco. Disse que no deveriam esper-lo. Teve um imprevisto.
   Laura ficou totalmente desanimada, mas no poderia deixar as crianas notarem sua contrariedade.
    Ento, primeiro, tomaremos o chocolate
    Por que voc no coloca a panela do guisado no forno para mant-la aquecida e vai para casa?
   Beverly j estava desamarrando os cordes de seu avental mesmo antes de Laura terminar a frase.
   Laura arrumou as xcaras numa bandeja, espalhou pequenos marshmallows sobre o chocolate e colocou um sorriso no
rosto. Ningum poderia saber que por dentro estava aflita, aflita pelo pai que nunca conheceu, aflita pelo pai que os filhos de
Adam deveriam ter, mas no tinham, aflita e zangada.

   Adam caminhou cansado pelo corredor at a cozinha. Beverly havia prometido deixar para ele um pouco do jantar dentro
do forno. No que ele estivesse com fome, realmente. Ele ja havia jantado com um velho amigo do ginsio e sua esposa, mas
no era diplomtico ofender a criadagem, especialmente quando se dependia dela para sobreviver. Engoliu alguns pedaos do
guisado sobre a pia da cozinha, depois jogou o resto na lixeira e lavou a tigela. Era um bom guisado, mas ele simplesmente
no estava com fome. Foi ao armrio da cozinha, pegou uma garrafa de conhaque e derramou uma dose numa pequena taa,
que aqueceu com as mos enquanto se dirigia ao escritrio.
   Laura estava sentada no sof, suas pernas dobradas sob o corpo, olhando os lbuns de fotos da famlia. Adam sentiu uma
urgncia que s poderia chamar de interesse.
    Ol  ele disse, parando no meio do cmodo para tomar um gole. Ela estava surpreendentemente atraente, o longo
cabelo loiro jogado sobre um dos ombros. Suas mos graciosas abandonaram o livro em seu colo. Ela sentou-se ereta e cruzou
os longos braos abaixo dos seios quase grandes demais para sua estrutura esbelta. Quando ela voltou seu rosto para ele, seu
primeiro pensamento foi que nem mesmo a raiva podia tornar sua aparncia menos bela.
   Ela deixou cair o olhar mais uma vez para as poucas fotos do lbum sobre suas coxas.
    Voc no est em nenhuma das fotos  a sua voz estranhamente rouca tinha uma pitada de desafio.
   Sentiu que algo se apertava em seu corao, enviando vibraes de pnico. Instintivamente ele entrou no papel firme e
indiferente que lhe servira to bem no exrcito.
    Eu no me lembro de ter dado a voc a permisso de vasculhar minhas lembranas.
    Me desculpe  ela murmurou docemente, fazendo deslizar os livros para a mesa de caf.  Eu no pensei que voc se
importaria.
   Ela se levantou rapidamente e fez meno de sair. Mas ele estendeu o brao e a apertou contra si.
    Eu sinto muito. Eu no queria gritar. Ʌ E que foi um dia difcil.
   Ela se deixou ficar muito quieta em seus braos.
    Sim, eu sei.
   O olhar que levantou para ele nesse momento brilhavam, acusatrios.
    Eles esperaram at as nove horas!
   Eles? Seus filhos, claro, mas por que eles se importariam em esper-lo, entre todas as pessoas, era puro mistrio. Na maior
parte do tempo, eles ignoravam tudo sobre ele, incluindo suas ordens. Ele deixou cair o brao, jogou a cabea para trs e
engoliu seu conhaque de um s gole. Sentiu-se imediatamente melhor.
    Acho que seria bom voc me dizer o que eles queriam.
    Eles queriam o pai deles!  Laura respondeu, asperamente. -Ns construmos um castelo de neve na frente do jardim
hoje, e eles queriam que voc dissesse que crianas inteligentes eles so.
    Um castelo de neve?  Ele no notara. Caminhou at sua cadeira e deixou-se cair nela, repentinamente mais cansado
do que podia suportar.
    Amanh eu direi
   Laura balanou a cabea vagarosamente de um lado para outro, mas ele estava demasiado cansado para perguntar do que
se tratava. Dessa vez, quando ela murmurou Boa noite, e foi embora pisando firme, ele a deixou ir.
   Seu olhar caiu nos lbuns de fotos sobre a mesa. Passou a mo sobre a capa rasgada do primeiro, e se perguntou por que
sua av lhe teria deixado essa pea rota de memorabilia em seu testamento.
   Kate era totalmente imprevisvel. Sua mente parecia funcionar em vrias reas ao mesmo tempo, avaliando assuntos
aparentemente sem relao e obtendo muitas vezes concluses surpreendentes. Sentia falta dela.
   O que voc estava fazendo, Kate, indo para a Amaznia sozinha?
   Vagarosamente ele abriu o lbum e mais uma vez olhou a foto do casamento de seus pais. Eles foram o casal perfeito.
Quando pensava em casa e na sua juventude, lembrava de sua me e de suas explicaes para a ausncia contnua de seu pai.
   Ele tem todo o peso do negcio de famlia em seus ombros  ela dizia. Tantos dependem dele. Ele est fazendo o
melhor que pode.
   Passou o dedo pelas fotos. Ali estavam os marcos de sua vida  primeiros passos, festas de aniversrio, formatura do
primeiro grau, seu campeonato de futebol, partidas de hockey, festas de formatura. Nessas fotos a famlia cresceu, tambm, de
primeiro e nico filho, a Caroline, depois Nathalie, e finalmente os gmeos, em dois anos precisos de intervalo entre cada um.
   Laura estava errada. Ele estava em quase todas aquelas fotos. A nica pessoa que faltava ali era, como sempre, seu pai.
Quem essa mulher pensava que era, repreendendo-o por no chegar em casa a tempo de elogiar seus filhos sobre um castelo de
neve idiota? Ele viera para casa, no? Quando eles precisavam dele, ele estava ali, no? Estava fazendo seu melhor, e isso
deveria contar. Ser que no?
   Empurrou os lbuns de foto de volta para a mesa e colocou a taa de conhaque em cima deles. Levantou e se arrastou at a
cama. Ele nunca nem mesmo abrira o segundo lbum, o dirio ilustrado to cuidadosamente preparado por sua falecida esposa,
aquela que escrevia as crnicas das vidas de sua prpria jovem famlia  aquela de quem ele sentia falta.


   Captulo 4

   Laura esperava que ele gritasse com ela, ao menos dissesse que cuidasse da sua vida. Em vez disso, ele apareceu para o
caf da manh todo sorridente. Sua nica referncia  noite anterior foi um olhar comprido para ela, antes de amontoar elogios
generosos sobre o castelo de neve. Para a decepo de Laura, as crianas simplesmente se entreolharam antes dos gmeos
seguirem a liderana de Wendy e se curvarem sobre suas tigelas em um silncio total. Um Adam obviamente arrasado sentou-
se e ergueu a horrvel barreira de papel entre eles. As crianas terminaram o caf da manh e foram levadas para fora da sala
por Laura. Ele foi embora antes dela conseguir colocar as roupas nas crianas e voltar para perto dele.
   Esse se tornou o padro das manhs na casa dos Fortune. Adam era sempre o ltimo a se sentar  mesa. Ele e as crianas
s davam uma ateno superficial uns aos outros, e, apesar de todos os esforos de Laura, ele sempre saa sem se despedir. O
que salvava era que regularmente chegava em casa a tempo de compartilhar o jantar com seus filhos, e com a direo calma de
Laura, a famlia comeara a evoluir para seu prprio ritual de boa noite.
   Inicialmente no havia muito de que se orgulhar. Ela meramente fazia as crianas marcharem passando por ele, uma a
uma, para um boa noite solene. Logo, porm, ele comeara a se inclinar para lhes dar uns tapinhas pesados nos ombros, e
agora eles estavam realmente se abraando. Laura esperava ansiosamente pela noite em que um deles se soltasse e os beijos
comeassem. Seria somente um pequeno passo em uma longa estrada para o bem-estar e a normalidade da famlia, mas Laura
sentia que seria um passo muito importante.
   Algumas vezes ela se dizia que se pudesse ficar somente at ver o primeiro beijo de boa noite entre pai e filhos, ficaria
satisfeita, mas a verdade era que ela estava mais feliz naquele momento do que jamais estivera por muito, muito tempo 
exceto pelos momentos de puro terror em que ela pensava sobre o que aconteceria se Doyal a encontrasse ali. Na realidade
nunca quisera alimentar pensamentos to horrveis, mas s vezes eles a pegavam desprevenida.
   Ela no poderia deixar que isso acontecesse. No poderia simplesmente ir embora e deixar Adam e as crianas
desamparados, mas precisava ir antes que Doyal a encontrasse. Ela iria antes que fosse tarde demais  s que ainda no.
   Ela acordava s vezes de madrugada, encharcada de suor e tremendo de medo e asco, depois de testemunhar mais uma vez
a terrvel cena que confirmara a culpa de Doyal. Ela seguira Doyal naquele dia h mais de sete meses em um mpeto de cime,
crendo que ele estava se encontrando com outra mulher, para descobrir que seu destino era uma casa abandonada no lado
miservel da cidade. Ela observara com horror, escondida por uma lixeira e uma rvore, como um amplo espectro de
humanidade entrava correndo e deslizava para fora daquela casa velha. Alguns deles no saam por horas. Alguns saam
imediatamente, mal deixando a casa at que engolissem suas plulas, cheirassem seus ps ou enfiassem agulhas em suas veias.
A maioria deles estava to desesperada que ignorava a arma brandida pelo amigo de Doyal, Calvin, que Laura agora
descobria no ser nada mais do que um capanga. Ela sara correndo da cena para vomitar, sabendo agora que o dinheiro
derramado to generosamente sobre ela por seu primeiro namorado no era o resultado de seus investimentos enigmticos no
mercado de aes, mas do trfico de drogas que devastava bairros inteiros e destrua tantas vidas.
   Seu erro foi confront-lo. Quando exigiu saber como ele conseguia viver consigo mesmo, ele riu de sua ingenuidade. Ele a
agarrou e jurou que ela no iria a lugar nenhum. Ele no terminara ainda com ela, disse, e, quando terminasse, iria antes se
assegurar de que ela no diria a ningum o que sabia sobre ele e seu negcio. Irada e revoltada, ela exigiu que a soltasse, e
ele a espancou insensivelmente. Depois disso, jurou que ela nunca se livraria dele. Ningum, nem mesmo a polcia, poderia
proteg-la, pois se ela ousasse denunci-lo, ele jurava que ambos, ele e Calvin, diriam que ela tambm estava envolvida.
   Ir  polcia parecia impossvel; ainda assim ela percebeu que o pior que poderia fazer era ficar. Fugir poderia resultar na
morte instantnea a qualquer momento em que no tomasse cuidado, mas ficar significaria morrer aos poucos. Ela escolheu a
primeira opo. Passou ainda por trs semanas de inferno e outra surra ainda pior antes de conseguir escapar.
   Ele presumira que ela estava machucada demais para correr e a deixara sem vigilncia. Ela arrastou-se para fora pela
janela e desceu pelo caramancho de hera de seu apartamento de segundo andar apenas com as roupas em sua mochila e uma
carteira com menos de cem dlares.
   Estivera fugindo desde ento, de cidade em cidade, de vilarejo em vilarejo, de estado em estado, por mais de seis meses.
Duas vezes ele quase a pegara  a ltima h mais de cinco meses  mas em todos os seus sonhos, dormindo ou acordada, ela
nunca ousava alimentar a fantasia de que ele tivesse desistido.
   Era exatamente o que estava fazendo, olhando para o futuro e desejando um lugar nele, quando a voz de Adam a pegou
totalmente de surpresa.
    Em que est pensando?
   Era tarde. As crianas estavam dormindo. Adam se isolara, dizendo que tinha um material para ler antes de uma reunio
no dia seguinte.
    Terminou sua leitura? Adam passou a mo na cabea.
    No exatamente, eu s fiquei incrivelmente entediado com ela. No acho que seguros sejam algo para mim.
    No? Bem, voc achar algo.
    Eu no sei. Eu
   Ela podia ver que ele queria falar, e a idia de que a procurara para isso era lisonjeira. Pegou outra xcara no armrio e
alcanou o p de chocolate.
    Sente-se. Vou fazer uma xcara para voc.
   Ele puxou uma cadeira e ficaram os dois sentados por alguns minutos em silncio, saboreando o chocolate. Finalmente ela
resolveu perguntar:
    O que voc quer fazer, Adam? Voc j pensou sobre isso?
   Era como se ela tivesse tocado na raiz de sua frustrao. Ele empurrou sua xcara e passou as mos pelo cabelo, suspirando
profundamente.
    Eu no sei. Eu me sinto como se estivesse tropeando no escuro, tentando uma porta atrs da outra, mas ningum quer
abrir para mim! Eu nunca tive experincia com nada a no ser o Exrcito. Sem ele, eu no sei direito quem sou.
    Deve ter sido difcil abrir mo de sua carreira.
     to maravilhosamente simples no Exrcito. Aqui est o objetivo do dia. Aqui esto as regras. Voc teve seu
treinamento. Voc sabe seu papel. Agora v e faa.
   Ele abaixou o rosto e inspirou profundamente.
    Agora eu sei meu objetivo, mas  s isso. No h regras, e nenhum treinamento pode prepar-lo para um papel
indefinido. Eu estou perdido!
    No  culpa das crianas o fato delas precisarem de voc, Adam.
    Eu sei disso. Voc est pensando que eu no sei?  que, se Diana no tivesse tido aquele acidente horrvel
   Laura colocou sua mo sobre a dele.
    Adam, voc no v que seus filhos sempre precisaram de voc? Isso no mudou quando Diana morreu. A diferena 
que voc no podia mais ignorar isso.
    No era s por mim, sabe! Era como Diana queria que fosse.
   Ele soltou sua mo.
    No comeo, ela ia para onde eu era enviado, mas nunca gostou desse modo de vida. Ela odiava os alojamentos
militares. Depois, quando Wendy tinha mais ou menos um ano, eu fui chamado para a guerra, ento trouxe Diana e o beb
para perto de minha famlia, e ela gostou de ser uma Fortune.
   Ele riu tristemente.
    Eu sei que o nome no quer dizer nada para voc
    Eu no sou estpida. Eu sei quem so os Fortune. Eu s no vejo o que isso tem a ver.
    Para Diana, ser uma Fortune se tornou mais importante que ser minha esposa. Quando minha misso acabou, ela me
informou que ficaria aqui. Eu tinha outra misso no estrangeiro, e sabia como ela odiava isso, ento concordei. Ela no estava
interessada em nenhum lugar, a no ser aqui. Disse que esse era o lugar dos Fortune, e que era assim que deveria ser. Depois
vieram os meninos, e ela construiu essa casa, e toda vez em que eu mencionava lev-los comigo ela dizia que seu lar era aqui,
com a famlia. Eu finalmente me dei conta de que ela no tinha a inteno de viver em qualquer outro lugar nunca.
   Ele deu de ombros.
    Eu pensei em divrcio, realmente, mas nossas vidas j eram to separadas que no fazia sentido. Eu sempre vinha
quando podia, e se Diana algum dia esteve insatisfeita com essa vida, nunca me disse. De fato, eu acho que a distncia foi o
que manteve o casamento. Para dizer a verdade, ao final de cada licena ns estvamos sempre discutindo e brigando por cada
pequeno detalhe.
   Ele passou as mos no rosto.
    Eu no sei Talvez se eu tivesse desistido antes Mas ela nunca me pediu isso. Nem uma vez.
   Sem perceber, Laura estava de novo de mos dadas com ele, e os dois olhavam para elas, como se jamais tivessem visto
duas mos entrelaadas antes.
    Adam, eu no sabia. Mas, seja o que for que tiver acontecido, seus filhos sentiram uma falta terrvel de voc.
   Ele deu uma risada triste.
    Eles sentem falta da me deles, Laura. Francamente, eu penso que voc supre essa carncia bem melhor do que eu. Sem
dvida eles gostam mais de voc do que de mim.
    No  a mesma coisa, absolutamente!
    No ? Laura, eu amo meus filhos, mas no sou muito bom com eles.
    Voc pode ser!
    No como voc. Sabe, eu tentei. Se eu soubesse que voc ficaria com eles
    No!  Ela se afastou e ficou de p. Ser que no entendia que ela no podia ficar? No, claro que no. Como poderia?
E ela no poderia faz-lo compreender sem dizer-lhe a verdade e colocar a ele e s trs crianas em perigo mais ainda do que
j o fizera. Ela no tinha escolha, a no ser mentir.
    Eu Eu lhe disse, eu quero voltar  universidade. Esperei por tanto tempo por uma chance e Bem, para falar a
verdade, eu tenho sentido um pouco de coceira nos ps Eu estou acostumada a ir de um lugar para outro de acordo com o
meu humor. Muito poucas vezes eu fiquei mais de duas semanas no mesmo lugar.
    Bem, no sou eu quem vai dizer que trs crianas inocentes esto No, no  justo. Eles so meus filhos, minha
responsabilidade, e sou eu quem tem de Eu quero cuidar de meus filhos, mas no sei como, e voc  to boa com eles
   Ele suspirou.
    Talvez eu esteja s frustrado porque no consigo encontrar nada para fazer. Eu preciso de um emprego, droga, um
negcio, uma carreira!
    Voc encontrar algo e as crianas vo passar a confiar em voc. Vai valer a pena. Voc ver. Elas so timas crianas.
    Eles so uns malandrinhos, os meus malandrinhos.
    Vocs vo se dar bem juntos. Eles s precisam ver que voc no vai mais porque voc os ama. Voc precisa
tranqiliz-los quanto a isso to freqentemente quanto possvel.
    Eu no sou muito bom com esse tipo de coisa, mas farei o melhor que puder.
    Tenho certeza de que voc conseguir.
    Voc vai ficar at eu encontrar uma substituta, no vai?
    Oh!  Uma substituta. De algum modo ela no esperara por isso. Engoliu em seco. Tinha um n na garganta.  Claro.
 Tentou fazer uma voz leve e brincalhona.  Eu no quis dizer que estava pronta para sair porta afora
    Bem Eu vou comear a procurar. Deve demorar um pouco
    Certo. Como voc quiser
    Eu estou cansado. Acho que vou dormir.
    Eu tambm.
   Mas nenhum dos dois se moveu por um longo tempo. Ele ento se inclinou para frente e a beijou levemente na face.
Pareceu correto e amigo  at ela olhar para os olhos dele.
   Ela desviou o olhar to rpido quanto possvel, mas j vira o suficiente para se perguntar se no haveria uma outra razo
para ele desejar que ela ficasse

   Ela se forou a acordar, o corao batendo forte e uma sensao de terror lhe dizendo que algo estava errado. Estava
deitada na escurido, aquecida embaixo dos cobertores empilhados em sua cama, mas ainda assim pressentindo o frio intenso
que espreitava alm dos limites escuros do quarto. Ouviu o sibilar de tecido e o arrastar quase imperceptvel de passos no
carpete. A sua cama macia pareceu subitamente se arrepiar. Jogou as cobertas para longe, saltou da cama e abriu a porta para
olhar o corredor. A porta do quarto de Adam estava completamente fechada, e nenhum fio de luz aparecia por baixo dela.
Seria uma das crianas, ento? Ela deslizou pelo corredor. A porta do quarto dos meninos abriu silenciosamente quando seus
dedos a empurraram devagar. Laura viu que suas caminhas estavam vazias.
   Ela correu at o vestbulo e sentiu uma onda de frio intenso e inusitado, como se algum tivesse recentemente aberto a
porta da frente. Doyal! Sentiu terror. Oh, Deus, onde estavam os meninos?
   Ela correu com ps silenciosos. Quando passou pela sala de jantar, apanhou a pesada garrafa de cristal que estava vazia
sobre o buf. Uma luz fantasmagrica flua do escritrio, lanando no cho a sombra de uma figura de p ao lado da porta.
Laura viu os dois garotinhos deitados de braos em frente  televiso, no carpete de pelcia. Eles sussurravam e davam
risadinhas, obviamente curtindo o momento de televiso proibida, enquanto a figura silenciosa espreitava da porta.
   Foi com um pavor violento que ela sentiu sua caa dar um passo para o lado, girar e levantar os braos exatamente no
momento em que ela abaixava a garrafa, que caiu no cho, enquanto uma mo tampava sua boca. Ela foi empurrada contra a
parede por um corpo forte que a imobilizava. Foi com alvio que encarou o rosto de Adam Fortune.
   Este era um Adam que ela no conhecia, feroz, ameaador, perito em subjugar ataques de surpresa. Este era o soldado que
Adam fora treinado para ser. E ainda assim o medo que a arrebatara desde o momento em que acordara abruptamente se
esgotara.
    Graas a Deus!  ela sussurrou, as lgrimas brotando em seus olhos. Adam ergueu uma sobrancelha em interrogao
silenciosa, segurou Laura pelos dois ombros e a empurrou de volta pelo corredor. Logo antes do vestbulo, ele a empurrou
novamente contra a parede e a manteve ali com a mo espalmada contra seu trax.
    Voc quase abriu meu crnio!
    Eu Eu pensei que voc era um intruso!
   Um intruso?
   Ela rapidamente se corrigiu.
    Um Um ladro! Eu tive medo que ele machucasse os meninos.
   Adam balanou a cabea, incrdulo. Sua mo deixou o peito dela para passar por seus cabelos. Mesmo enquanto
balbuciava essa explicao, Laura notou em alguma parte perversa de sua mente que ele vestia calas cinza macias e uma
camiseta branca de mangas curtas que moldava quase que encantadoramente os contornos firmes de seu peito e antebraos
musculosos.
    Algo me acordou Um som no corredor. Sua porta estava fechada, a luz apagada. Os meninos no estavam em suas
camas e algum abriu a porta da frente
    Eu, verificando se eles no haviam fugido para brincar na neve No teria sido a primeira vez.
    Bem, como eu poderia saber disso?
    Voc poderia ter perguntado.
    Eu no pensei nisso, e quando vi sua sombra Os meninos estavam simplesmente deitados ali, e eu pensei, se eles o
virem, ele vai machuc-los.
    Ento voc pegou a garrafa de vinho e tentou esmagar o meu crnio Estamos em Saint Cloud, Minnesota, Laura.
    Assaltantes so muito comuns no lugar de onde venho.
    E onde  isso, exatamente?
   Essa no era a primeira vez que perguntara, mas a primeira em que ela no fora capaz de disfarar. Ela simplesmente no
conseguiu pensar suficientemente rpido para evitar que a verdade escapulisse.
    Denver.
    Ah  Ele levantou seu queixo e trouxe seu rosto para mais perto dele.
    Sabe, Laura, eu estou muito satisfeito que voc seja to preocupada com meus filhos que seria capaz de atacar um
assaltante com nada mais que uma garrafa de vinho. Mas, da prxima vez, bata em minha porta primeiro. Melhor ainda, pode
simplesmente abri-la e entrar. E se eu no estiver l, pode ter certeza de que eu tenho a questo sob controle. Eu tenho muito
mais experincia em subjugar intrusos perigosos do que voc. Combinado?
   Ela concordou, mas quando baixou o olhar ele levantou seu queixo novamente, e dessa vez sua mo ficou para acariciar a
curva de seu pescoo.
    Ns  ela precisou fechar os olhos para pensar com lgica.  Ns deveramos levar os meninos de volta para a
cama.
   Ele passou o dedo polegar por sua boca.
    Sim.
   Ento sua boca cobriu a dela e ele a envolveu em seus braos fortes. Ela sentiu a maciez de seus lbios e a dureza de seus
msculos. Instintivamente, seu corpo se apertou contra o dele, os seios intumescidos de desejo. Sua boca recebia a lngua dele.
Algo se abriu no poo de seu ventre, e os msculos secretos de mulher se contraram em resposta. Sentia-se cada vez mais
fraca, o mundo girando para longe, reduzindo-se a este espao exguo em um corredor sombrio onde dois corpos se agarraram,
as bocas unidas, os membros abraados, o desejo florescendo.
   Esqueceu de tudo  das crianas, de Doyal, do fato de estar indo embora, de ele ser seu patro. Ele pressionou suas costas
contra a parede, as mos descendo para levantar a barra de sua camiseta e acariciar suas ndegas. Uma das mos viajou para
cima at capturar seu seio, o mamilo endurecendo contra a palma rude. No sabia mais o que estava fazendo.
   Subitamente ele se afastou dela.
    Droga! Eu Nunca Eu Eu sinto muito. Eu no queria
   Virou-se para o outro lado, como se no quisesse olhar para ela.
    Os meninos
    Eu farei isso!  Mas ela no conseguia sair da parede.
    No, eu irei.  melhor voc dormir um pouco.
   Ele a estava mandando embora. Ela ainda no podia se mover. Seu corpo parecia incapaz de mudar de ritmo. Ela sentiu
uma punhalada de ressentimento pelo fato dele se desvencilhar dela to facilmente.
   Deus, o que estava errado com ela? Fora somente um beijo. Deveria ficar satisfeita por ele ter parado simplesmente nisso,
feliz por estar segura, inteira. Voltou para o quarto, onde se encostou contra a porta fechada e chorou de alvio, tentava
acreditar. Afinal, fora somente um beijo compartilhado no escuro da noite aps um momento de medo. No representava nada.
Nada. E era precisamente por isso que ela chorava.

   Adam puxou as cobertas at o queixo de seus filhinhos, esperando que o sermo que lhes acabara de passar reprimiria suas
atividades noturnas, e desligou a luz antes de deslizar pela porta. Estava cansado. Foi para a cama e deitou. Mas, mal fechou os
olhos, sentiu seu brao envolvendo a cintura firme e esbelta de Laura. Sentou na cama e passou o brao pelos olhos, como se
quisesse varrer as memrias para longe.
   Ele queria arrast-la para ali, rasgar a pouca roupa que ela vestia, coloc-la de volta na cama e fazer amor com ela. No
pensara em seus filhos ou no fato de ela os estar abandonando, ou no pouco que revelara sobre si mesma. Fora s quando ele
se acalmou que as dvidas se infiltraram em sua mente. Vieram em uma palavra: Denver.
   Trs ou quatro vezes ele perguntara de onde ela viera, mas somente naquela noite ela lhe respondera, e isso aps quase ter
aberto sua cabea. Denver. O que mais no sei sobre ela? Como me sentirei quando ela voltar para l?
   E ela estava indo embora. Ele no queria viver mais uma vez na vida longe de uma mulher. Ele havia quase vencido
aquele sentimento de perda, aquele vazio. Amar Laura, fazer amor com Laura somente o traria de volta. S que dessa vez seria
pior  sabia, de algum modo, que seria pior.
   Ele suspirou na escurido, sentindo o frio infiltrar-se em seus ossos. Talvez fosse melhor, afinal, ela no ficar.
   Talvez fosse mais fcil para todos se ela se fosse o mais rpido possvel.
   Eu ligarei para a agncia amanh, disse a si mesmo. As crianas ficariam tristes e desapontadas, mas ele encontraria
outra pessoa para elas, algum que seria to boa quanto Laura. Fechou os olhos e cerrou os dentes tentando evitar a memria
de um beijo que nunca deveria ter acontecido, e prometeu a si mesmo que a primeira coisa que faria na manh seguinte seria
comear a procurar uma substituta. Prometeu a si mesmo. Jurou.
   No dia seguinte.

   Captulo 5

   A primeira coisa que Adam fez na manh seguinte foi vestir ceroulas de seda, depois a roupa de baixo isolante, dois pares
de meia, jeans, uma blusa de gola role e um suter de l. Calou botas de neve, desenterrou da gaveta suas melhores luvas,
colocou uma touca de l e enrolou um cachecol no pescoo. Ele pegou um segundo par de meias de seda e saiu para encarar
Laura.
    Essas so para voc.
   Ela tremia dentro de seu roupo acolchoado. Temera este momento a noite inteira, mas agora que chegara, surpreendia-se
com a facilidade com que o enfrentava.
    Bom dia.
   Ele colocou um par de longas ceroulas de seda no encosto de uma cadeira e pegou uma torrada.
    Caso voc no tenha notado, a temperatura caiu terrivelmente durante a noite. Eu quero voc e as crianas vestidas com
ao menos trs camadas de roupas quentes, toucas, cachecis, luvas e casacos.
    Est bem.
    Uma tempestade est chegando esta noite, mas eu no vou me arriscar. Voc pode levar Wendy para a escola, e depois
eu quero que voc e os meninos se encontrem comigo na loja de departamentos. Eu trarei um suprimento de lenha para a
lareira e vou me certificar de que o gerador esteja cheio de combustvel, no caso de falta de energia. Eu tenho a sensao de
que esta noite ser longa.
   Laura lhe serviu um caf. Ele evitou encar-la e no se sentou. Ela preparou outra torrada e saiu para acabar de vestir as
crianas.
   Ela apressou as crianas a entrarem na perua, feliz em ver que Adam havia acionado o aquecedor de ignio. A estrada
crepitava sob as rodas e o vento quebrava os galhos congelados das rvores. Laura deixou Wendy na escola e depois foi  loja
de departamentos nos limites da cidade.
   Eles compraram roupas de baixo de inverno para os meninos e Adam insistiu para ela lhe deixar presente-la com luvas
melhores, sapatos de frio e um par de pijamas de flanela antes de sair dali para comprar baterias para casa, aditivos para motor
a leo e gales de gua engarrafada.
   Da loja de departamentos eles foram para o mercado, onde Adam pareceu jogar pelo menos dois de cada produto em seu
carrinho. Foi quando eles estavam saindo, que ele parou para observar o cu. As nuvens se juntavam a uma altura incrvel,
mais escuras  medida que ficavam mais altas. A luz do sol estava plida e fraca, e o ar extremamente parado, apesar das
nuvens se agitarem acima deles.
    Eu no estou gostando disso. Quero que voc leve os meninos para casa. Eu vou buscar Wendy na escola. Ligue para
Beverly assim que voc chegar, e diga-lhe que no venha.
   Ele a olhou de verdade pela primeira vez.
    Eu espero que voc saiba cozinhar algo alm do caf da manh.
    Eu dou um jeito.
   Ele pegou em seu queixo e sorriu para seus olhos. Ela entrou no carro e se dirigiu para casa, o corao to pesado quanto o
cu.
   Rajadas de flocos grandes e esvoaantes danavam na frente do pra-brisa do carro muito antes dela chegar em casa.
Quando Adam e Wendy chegaram, o vento havia aumentado muito e o sol havia desaparecido totalmente, s deixando uma
fraca penumbra como evidncia de luz do dia.
   Nevou e ventou a tarde e a noite toda. No meio da manh do dia seguinte, comeou novamente, e por vrios dias depois.
Quando passou, havia bancos de neve to altos quanto a casa, e a temperatura ficou to baixa que a pele congelava. Havia
troncos tombados, por vezes rvores inteiras, e o pequeno abrigo de ferramentas atrs da casa cara.
   Adam tentou manter-se afastado dela, mas no pode evitar ir ao seu encontro quando ela sentou no cho do escritrio e
comeou a rolar com as crianas. Os trs caram em cima dela e comearam a tentar lhe fazer ccegas, mas ela os jogava no
cho, corcoveando como um cavalo, arqueando suas costas e torcendo os quadris e os ombros. Ryan foi o primeiro a cair. Ele
cambaleou pela sala e bateu no joelho de Adam, dando risadas e abraando as Pernas de Adam para se equilibrar. Ento ele o
puxou e disse:
    Vem, papai! Vem, vamos peg-la!
   Foi um grande divertimento. Tambm foi um erro, pois ele acabou, inevitavelmente, com Laura presa no cho embaixo de
si, os seios empinados sob as camadas de roupas, os belos olhos fixos em sua boca. Um certo momento, quase a beijou, mas o
berro de Ryan em seu ouvido o despertou para a realidade. Mesmo assim, foi terrivelmente difcil levantar e sair.
   Depois disso, tomou cuidado de evitar a tentao. Alimentou o fogo e foi trabalhar na escrivaninha de seu quarto, s
aparecendo para as refeies e para dar uma olhada nas notcias sobre o tempo no jornal da noite. No quarto dia de tempestade,
Adam aventurou-se do lado de fora, mas toda zona rural estava congelada. Somente aqueles desesperados por suprimentos e os
encarregados de fornec-los estavam do lado de fora e se movimentando.
   Levou mais dois dias para que uma barulheira o fizesse fazer parte da vida da casa novamente. Os gritos vinham do
escritrio, onde Laura tentava separar Wendy e Robbie. Os dois estavam se atacando e Ryan tentava ajudar Robbie exatamente
no momento em que Adam entrou.
    Oh!  Laura agarrou a canela e saiu mancando para sentar-se, pois Ryan a chutara acidentalmente. As hostilidades
cessaram subitamente e todas as crianas correram para ela.
    Uaur! Uaura! Voc est muito machucada?  Ryan caiu de joelhos ao seu lado.
   Laura no respondeu, mas gritou de pavor ao ver o sangue escorrer de um pequeno arranho no superclio de Robbie e o
lbio inferior de Wendy inchado. A menina se agarrou no pescoo de Laura, aos prantos, enquanto ela tentava limpar as gotas
de sangue do rosto de Robbie.
   Adam pegou Wendy no colo.
    Agora, algum me diga o que est acontecendo. Todos comearam a falar de uma vez s.
    Est bem, est bem!  vociferou Adam.  Chega! Sentou-se perto de Laura obviamente exausta, com Wendy no colo.
Subitamente se sentiu um cafajeste, por t-la deixado cuidar sozinha das crianas todo esse tempo. Cobriu a mo dela com as
suas.
    Por favor, d uma dica ao pai idiota.
    Febre de confinamento. Todos ficam explosivos e suscetveis.
    Ah!  Ele deveria ter sabido que no era o nico a se sentir enclausurado. Ser que nunca aprenderia a ser um pai
responsvel e cuidadoso? Lembrou-se do telefonema de sua me naquela manh.
    Vamos l, vocs, se agasalhem, e vamos visitar sua av Erica.
   Robbie jogou as mos para o alto e fez o som de uma buzina, sabendo que obteria a maior parte da ateno com seu
machucado. Wendy j descia do colo do pai, e Ryan estava batendo palmas. Somente Laura mordeu os lbios e balanou a
cabea bruscamente. O desapontamento de Adam foi grande.
    Voc no quer sair? Ela sorriu fracamente.
    Para dizer a verdade, eu gostaria mais de ter algum tempo para ficar sozinha  abaixou a voz.  Alm disso, eu no
tenho o que fazer em uma visita  famlia.
   Depois de passar dias longe dela, lhe suplicaria que viesse com ele? No seria preciso  as crianas o faziam por ele. Mas
Laura foi inflexvel. Levantou-se e olhou para ele, as mos na cintura.
    Escutem, eu estou sonhando com um longo e ininterrupto banho em uma banheira quente e cheia de espuma. Alm
disso, vocs nem notaro a minha ausncia. Wendy, voc j me disse o quanto gosta de visitar a sua av. Vo em frente e
divirtam-se. Eu ficarei perfeitamente feliz aqui sozinha.
   Ele se levantou da mesa de caf antes de Laura terminar de falar.
    Vamos, vamos nos agasalhar. Eu vou ligar para a mame e dizer que estamos indo.
    Laura, por favor!  Wendy insistiu, lisonjeira. Os meninos fizeram coro.
    Por favor, por favor!
   Ela continuou inflexvel, enquanto ajudava Adam a prepar-los para sair. Eles finalmente aceitaram sua deciso, mas
Adam no sabia o que era pior, o seu desapontamento ou o das crianas. Seria sensato deixar que se ligassem tanto a ela? No
mais, tinha certeza, do que a ligao que ele mesmo estava criando Ainda assim ele no tinha a coragem nem a vontade de
pr um fim nisso. Mais tarde, enquanto conversava com sua me, sentado na casa aquecida e imponente na qual havia
crescido, sentia-se quase grato pela distrao que os seus problemas lhe davam.
   As crianas j estavam exaustas. Erica lhes dera almoo e os agasalhara em sua prpria cama para uma soneca, uma rotina
antiga e querida. Adam brincava que ela faria isso quando eles estivessem com uns vinte anos, e que eles provavelmente a
deixariam fazer.
    Eu espero que sim  ela disse, ao voltar para a sala de estar.  Ser bom se pelo menos uma coisa continuar igual. Ele
no deixara de observar das linhas de tenso marcando seu rosto ainda atraente. Pegou sua mo enquanto ela sentava-se em
sua cadeira, depois se sentou ao seu lado.
    O que est errado, me?
   Ela fez um fraco som que deveria passar por um riso.
    Voc quer dizer, alm de eu ter deixado seu pai?
    Isso  s temporrio  assegurou-lhe.  Quaisquer que sejam as falhas de papai, eu no posso imagin-lo desistindo
de voc.
   Ela abaixou o olhar, balanando a cabea.
    No sei, Adam. Ele no  mais o mesmo, e no somente porque est vendendo suas aes. Ele est enfurnado na casa
de Kate e h rumores de que est bebendo.
   Adam suspirou. Tentara no pensar nisso. No gostava de se envolver nos negcios dos Fortune, mas at mesmo ele sabia
que no era tpico de Jake vender aes para algum de fora da famlia, especialmente para Mni-ca Malone.
    Voc lhe perguntou por que fez isso?
    Ele s diz confie em mim. Mas como eu posso faz-lo, se ele no me conta a verdade?
   Adam balanou a cabea.
    No  a mim que deve perguntar sobre Jake. Eu nunca o compreendi.
   rica fungou e endireitou sua postura j elegante.
    A preocupao maior agora  Nathaniel. Adam resmungou.
    O que tio Nathaniel anda fazendo?
    Exatamente o que voc esperava. Ele est tentando tirar Jake da jogada, tomar posse da companhia. Voc sabe que ele
sempre sentiu que deveria ser o dirigente do negocio. Eu tenho medo de que Jake tenha lhe dado a munio de que necessita
com a venda de suas aes para Mnica. Eu s no sei o que vai acontecer.
    H mais acontecendo do que papai quer admitir, no ?
    Seu pai no est admitindo nada  comentou Erica, amarga.  Eu s no sei o que fazer, Adam. Eu quero unir a
famlia para uma recepo em honra de Rachel e Luke, mas no sei se seria sensato agora.
    Coitada da Rocky Que momento para trazer uma nova ovelha ao rebanho
    Me parece mais um lobo  lanou Erica.
   Mas Adam estava em terreno slido ali, j tendo encontrado o lobo em questo. Ele deu uma risada.
    Hei, o lobo cinzento  um osso duro de roer, mas ele ama minha irmzinha. E, alm disso, ela o ama tambm. Pode
apostar nisso.
   Erica apertou sua mo.
    Eu no quero ser muito crtica. Mas ela  meu beb Adam riu sinceramente.
    Sim, claro, um beb com nervos de ao e uma coluna de titnio! D um tempo  criana, mame. Ela  conhecida por
seguir sua prpria opinio. Ela est com o homem que quer.
   Erica riu afetuosamente.
    Eu me pergunto se voc sabe como se parece com seu pai de vez em quando.
   A resposta de Adam foi cancelada pelo som da porta do hall se escancarando. Sheila, a ex-mulher de seu tio, entrou com
um casaco de peles feito de rabos de raposas e martas. Vestia calas em deferncia ao tempo, mas os saltos de seus sapatos
tinham pelo menos dez centmetros. Ela jogou uma luva de peles e uma bolsa de quinhentos dlares em uma cadeira enquanto
passava, o casaco escorregando de seus ombros.
    Precisamos fazer algo!  disse a Erica.  No me espanta que voc o tenha mandado embora! Ele foi longe demais
dessa vez!
   Erica fechou a boca e rolou os olhos para Adam.
    Boa tarde, Sheila. Sobre quem devemos discutir?
    Sobre Jake,  claro! O que ele pensa que faz, vendendo aes de famlia para uma artista fracassada?
    Eu lhe agradeceria se no falasse de meu marido nesses termos.
   Adam reprimiu uma risada e ficou de p.
    Oi, tia Sheila. Como voc vai?
    Como voc pensa que eu vou? Sem um tosto, e Nate se nega a participar com um centavo, agora que o negcio est
em crise.
    O negcio no est em crise  insistiu Erica, ansiosamente.  Como voc ousa implicar
   Adam adiantou-se e pegou no brao de Sheila, que estava pesado de tanto ouro.
    Eu suponho que voc tem ainda a possibilidade de empenhar as jias da famlia  caoou ele  ou de encontrar
algum cavalheiro atraente para sustent-la. E, com sua aparncia, tenho certeza de que poderia encontrar um homem muito
mais novo.
   Sheila se desembaraou fazendo beicinho, mas era bvio que gostara do elogio.
    Eu no daria nenhuma satisfao a Nathaniel  disse, atravs dos dentes , mas, com Jake minando as finanas da
famlia assim, eu posso no ter escolha! O que esse homem pensa que est fazendo?
    Chega!  Erica gritou.
    Voc est to estpida como sempre foi! Ele a deixou por ela,  isso? Ele est atrs dessa velha atriz?
    Voc realmente no deveria ter vindo, Sheila. Seja uma boa menina e v enterrar suas presas em outra pessoa.
   Ela espremeu os olhos muito maquiados.
    Voc  o ltimo que eu esperava que o defendesse  disse ela, com arte.  Todos sabem que voc o despreza.
    No  assim.
    Ento v e fale com ele. Faa-o ver o que ele est fazendo com todos ns. Se voc est to prximo de seu querido pai,
tente colocar algum bom senso em sua cabea, por misericrdia!
    Eu no me envolvo no negcio dos Fortune, e, francamente, voc faria bem em seguir meu exemplo, j que no  nem
mais um membro desta famlia.
    Eu preciso pensar nos meus filhos.
    Michael, Kyle e Jane j se viram bastante bem sozinhos, apesar de sua ajuda.
    Eu j devia saber que no adiantaria. Vocs esto cerrando as fileiras em torno dele por puro hbito, parece. Bem,
deixe-me dizer uma coisa: desta vez, vocs esto sozinhos. O resto da famlia no correr em defesa de Jake depois disso, e
Nate sabe disso! Eu s espero que ele tome o controle da companhia antes que seja tarde demais, antes que Jake nos leve todos
 falncia!
   Ela saiu ainda mais tempestuosamente do que entrou, mas a preocupao de Adam no era com as dobradias da porta.
Desta vez, s desta vez, toda a sua preocupao se dirigia a seu pai.

   Laura observou Adam remexer a comida no prato. As crianas haviam terminado seu jantar h muito tempo, e a permisso
de sair da mesa j lhes fora dada, mas Adam parecia nem notar.
    Voc no tem fome?
   Adam a olhou, como se surpreso.
    Oh, oh, claro. Quero dizer, no. Desculpe. Ele suspirou e afastou seu prato.
    No  a comida. Eu acho que eu almocei demais na casa de mame hoje.
   Enquanto se levantava para tirar a mesa, ela evitou comentar que as crianas haviam comido como bois, apesar do prdigo
almoo da vov.
    Bem, Beverly insiste em vir amanh para fazer as suas famosas costeletas de carneiro. Guarde seu apetite para elas. Eu
acho que ela pensa que eu tenho dado a voc brotos de feijo e tofu.
   Ele concordou distraidamente, como se no houvesse escutado nada do que ela dissera. Ela saiu da sala preocupada.
Colocou a loua na lavadora, arrumou a cozinha, ps a mesa do caf da manh seguinte e jogou domin com os meninos.
Adam olhava atravs deles, aparentemente esquecido de tudo. O nico momento em que pareceu sair desse torpor foi quando
as crianas vieram lhe dizer boa noite. Depois de coloc-los na cama, Laura hesitou por um momento  porta de seu quarto.
Em vez de entrar, voltou ao escritrio, e encontrou Adam de p em frente a uma televiso silenciosa, olhando a tela vazia.
    Quer conversar?
   Ele deu de ombros, um sorriso autodepreciativo.
     engraado  disse, voltando para sua poltrona.  No importa o quanto um pai possa ser inadequado, seu filho no
pode impedir
    Eles o amam, Adam.
    , eu sei. Eu os amo tambm, mais do que pensava.
    Mas voc no  somente um pai, no ? Voc tambm  um filho.
    Algo est errado Eu no sei. No sei\ Eu nunca compreendi Jake Fortune em toda a minha vida, mas
    Por que no me fala sobre isso?
   E ele o fez, comeando com a dedicao de seu pai ao negcio da famlia, apesar de suas ambies pessoais, e sobre sua
prpria recusa em cair na mesma armadilha. Falou de como se sentia abandonado quando criana, da preocupao de seu pai
quanto ao que ele percebia principalmente como seu dever para com a famlia. At mesmo falou sobre a inveja de tio
Nathaniel em relao a seu irmo mais velho, sobre o casamento de seus pais e a habilidade de Jake em lidar com as crises
constantes ligadas  tarefa de liderar um conglomerado internacional. Falou sobre Kate e Ben, e os problemas, como os via,
com a companhia de cosmticos. Falou tambm sobre Mnica Malone e o fato de Jake ter lhe vendido as aes da famlia.
    A famlia quer respostas. E se ele no lhes disser o que quiserem ouvir,  provvel que Nathaniel tome a dianteira,
estimulado, sem dvida, pela rainha da ganncia, a querida velha tia Sheila.
    E voc tem medo de que ele no lhes d as respostas que querem?
    No imagino o que ele poderia dizer. No faz sentido vender aes a Mnica Malone. Ele s faz evitar o assunto, e essa
 a razo da separao. Eu quero dizer, ele sempre contou tudo a mame. Apesar de suas deficincias como pai, aquele
casamento parecia firme como rocha. At agora
    Voc sempre tem a possibilidade de perguntar a ele. Ou voc pode simplesmente confiar nele.
    Eu sou a ltima pessoa no mundo a quem ele faria confidencias. E eu no acho que a minha confiana represente muito
para ele, afinal.
    Ento o que resta, Adam?
    Eu no sei. Eu s estou grato por no ser como ele, eu acho.
    Voc no ? Ele franziu a testa.
    O que voc quer dizer com isso? Eu fiquei de fora do negcio da famlia expressamente para evitar os erros que ele
cometeu.
   Laura mordeu os lbios. Ser que ela deveria arriscar-se a lhe mostrar que ele tambm deixara a carreira e outras
consideraes mant-lo longe de seus prprios filhos? Por outro lado, o que tinha a perder? Fitou os lbuns de foto empilhados
em cima da mesa.
    Eu quero mostrar-lhe algo.
   Ela separou os dois lbuns e os abriu.
    Voc me disse que sua mulher fez um desses, no?
    O mais novo.
    E o outro foi deixado para voc por sua av?
    Sim, e da?
    Voc nunca se perguntou por qu? Quero dizer, voc nunca pensou que os dois poderiam ter algum tipo de conexo?
   Ele levantou-se e caminhou em volta da mesa para sentar-se no sof ao seu lado. Ela soube o momento em que ele
descobriu o que os dois lbuns tinham em comum.
    Oh meu Deus!  disse ele, as mos passando pelas pginas.
   Laura sabia exatamente o que ele estava vendo. Os momentos sociais da famlia, os passeios, as pequenas celebraes, e
em cada um deles o pai estava faltando, seu pai e depois ele. Poderiam ser conjuntos idnticos, a no ser pelas roupas fora de
moda e pelos cortes de cabelo e pela colorao empalidecida das fotos mais antigas, Elas eram extraordinariamente
semelhantes, ele e as irms junto com a sua me, Diana e Wendy e os meninos, mas sem Jake, e sem o Adam adulto.
   Ela notou que as mos dele tremiam e as tomou para si.
    Voc no v, Adam? Como voc, ele no tinha a inteno de estar preocupado. Ele apenas tentava fazer o que sentia
que era seu dever.
    Eu nunca enxerguei isso antes. Eu sempre culpei Diana. Eu no sentia que tivesse escolha
    Essa  uma maneira de compreender seu pai, atravs da sua prpria experincia.
   Ele sorriu agradecido, e a envolveu em um abrao amigo e afetuoso.
    Como voc ficou to esperta, senhorita?
    No  isso Eu fiz algumas coisas tremendamente estpidas, Adam. Eu teria vergonha de lhe contar Eu sou s
como aquela criana com o nariz apertado contra a janela, olhando para dentro. E mais fcil ver o quarto inteiro de onde eu
estou.
   Eledeu um tapinha na ponta do nariz dela.
    Eu fico feliz que voc tenha escolhido a minha janela. Ela sorriu, melanclica, e no disse mais nada. Ele nunca saberia
o quanto ela queria entrar, s uma vez, para misturar-se nessa sala cheia de famlia e estar do lado de c, s para variar. Mas
isso nunca aconteceria, no enquanto Doyal estivesse por a.


   Captulo 6

   Adam sorriu para as crianas, achando graa em seus rostos ansiosos, resultado de sua ltima tentativa em provar que os
amava.
    Bem, que tal uma matin?
   Os oba que ele esperava no jorraram. Ele olhou para Laura, pedindo ajuda.
    Seu pai quer lev-los para o cinema essa tarde.
   Ainda assim nenhum oba, somente suspiros e jovens olhos arredondados de surpresa. Ele engoliu em seco, agora
inseguro do caminho que escolhera.
     um desenho animado.
   Trs pares de olhos esbugalhados simplesmente piscaram.
   A ajuda de Laura chegou sem ser solicitada dessa vez, mas no menos apreciada por isso. Ela simplesmente disse o ttulo
do filme, um que fora repetidamente anunciado na televiso nacional durante algumas semanas, e Adam finalmente conseguiu
os seus oba.
    Eu te amo, papai!  Wendy disse, de repente.
   O corao de Adam acelerou tanto que ele quase engasgou.
    Eu tambm te amo, querida.
   Mas sua felicidade transformou-se logo em desapontamento quando Laura recusou-se a ir com eles assistir ao filme.
    Essa deve ser a sua tarde com as crianas.
    Eu quero que voc venha.
    Eu no posso.
    Por que no?
    Eu simplesmente no posso. Por favor. Adam.
    Pelo amor de Deus, Laura. De que voc tem medo?
   Pela expresso de pnico em seu rosto, s podia concluir que obviamente ela no queria nada com ele. Fechou o casaco e
seguiu os filhos em direo  garagem, to zangado consigo mesmo quanto com ela.
   Ele estava zangado com ela. Laura disse a si mesma que isso no deveria importar. Ele tentara tanto ultimamente dar
ateno s crianas, e isso era o que importava. O filme fora evidentemente um grande sucesso. No fim da noite, ela no sabia
se ficava aliviada ou ferida por ele a ignorar depois dela ter colocado as crianas na cama. Precisou de toda a sua coragem para
juntar-se a ele no escritrio.
    Voc os fez muito felizes hoje, Adam.
   Ele moveu-se em sua poltrona, os olhos grudados na tela.
    Na realidade, foi um filme muito bom. Voc teria gostado.
   Ela sentiu a alfinetada.
    Eu sei que teria, mas as crianas precisam desses momentos a ss com voc.
   Seu olhar voltou-se para ela pela primeira vez.
    Voc faz isso parecer como se eles fossem se ressentir com a sua presena, e voc sabe que isso no  verdade.
    Eu sei Mas voc  o pai deles, Adam, e eu sou somente a bab.
    Somente a bab  ele resmungou com voz de censura.
    Voc sabe o que eu quero dizer.  de voc que eles devem depender, Adam. Voc  a pessoa constante na vida deles.
    Talvez voc tenha razo. Talvez eles estejam dependentes demais de voc. Talvez todos ns estejamos dependentes
demais de voc. Mas no se preocupe com isso. Ns no temos a inteno de nos tornarmos um peso para voc.
    Oh, Adam, no  isso! E exatamente o contrrio. Eu estou ficando dependente demais de vocs. Voc no v que no
posso deixar isso acontecer?
   Ele olhou para ela, pela primeira vez sem poder controlar a expresso de seu rosto.
    Desde quando a dependncia mtua  algo mau? Ns precisamos de voc, Laura. Voc  a melhor coisa que nos
aconteceu
    No!  Ela balanou a cabea, reprimindo as lgrimas.  Eu no sou nem mesmo uma bab treinada. Voc pode
fazer muito melhor que eu! S no tem conscincia disso, porque somente agora vocs esto comeando a se relacionar, e
esto me dando crdito por isso, eu acho.
   Ele levantou-se de sua poltrona, as mos agarrando os antebraos dela.
    Claro que sim! Finalmente estamos chegando onde deveramos estar como famlia, graas a voc. Ser que voc no
v? Ser que no pode ver o quanto ns devemos a voc? Voc abriu meus olhos, Laura. Voc me mostrou que eu estava
repetindo um comportamento aprendido com meu pai, um comportamento que eu odiava quando era criana. Minha me era
tima conosco, mas de algum modo eu no aprendi com ela a ser um pai afetuoso. De algum modo, isso no passou para mim,
at eu ter comeado a observar voc com meus filhos. Voc  uma me natural, to carinhosa, calma, paciente e equilibrada
    Oh, Adam, eu no sou absolutamente o que voc pensa!
    Ento, quem  voc, Laura?  ele perguntou asperamente e a sacudiu to forte que a sua cabea caiu para trs e ela foi
forada a olh-lo nos olhos.  Se voc no  a mulher bela, amorosa e generosa que parece ser, ento quem  voc?
    Eu sou uma tola  ela sussurrou, os olhos cheios de lgrimas.  Eu sou a maior tola do mundo.
   Os braos dele a envolveram e ele a beijou. A palavra amante passou por sua mente, mas a voz temerosa e cuidadosa
dentro dela a substituiu por patro, e isso a galvanizou e deu-lhe fora para afastar o rosto de seu beijo.
   Ele no percebeu logo que ela esfriara. Quando ela virou o rosto, ele simplesmente moveu a boca para a coluna macia do
seu pescoo, beijando, lambendo, mordiscando. Foi s quando ele tentou novamente beij-la que ela o repeliu, sabendo que se
permitisse outro beijo estaria perdida. Obviamente confuso, ele aliviou a presso com a qual a mantinha, as mos escorregando
para a sua cintura. Mas at isso era contato demais, era atraente demais, tentador demais.
   Adam Fortune no era o tipo de homem que ela pudesse amar e abandonar, e ela no podia esquecer que a hora estava
chegando, a hora em que ela deveria ir embora, pois ficar colocaria em perigo no somente Adam, mas seus filhos. Mas a idia
de partir trouxe uma dor to aguda e profunda que a levou imediatamente s lgrimas.
    Laura?  ele estendeu os braos para traz-la para si mais uma vez, mas ela fugiu de seu alcance, balanando a cabea.
    No! Eu  Ela fez a nica coisa que podia fazer no momento  fugiu para o quarto e trancou a porta. No haveria
explicaes cheias de lgrimas e afirmaes calorosas. Era melhor assim, disse a si mesma, mas convencer o corao era outra
histria completamente diferente.

   Ela estava fazendo aquilo novamente. Mais uma vez, assim que as crianas foram para a cama, ela desaparecera sem uma
palavra. Bem, hoje no se sairia bem agindo assim. Os ltimos trs dias haviam sido terrveis e cheios de tenso. Ela no o
olhava nos olhos, no falava com ele a no ser que lhe perguntasse algo e evitava ficar a ss com ele, Ele no podia pedir
desculpas a um fantasma, e as crianas j estavam bastante confusas para que tivessem que ouvi-lo fazer referncias veladas a
um episdio que era melhor manter em segredo. Mas como ele a pegaria sozinha? Tentara bater em sua porta na noite anterior,
mas ela o ignorara.
   Havia um jeito, claro, mas ele o evitara at agora, por medo de que ela no o compreendesse. No havia outra sada,
porm. Abriu uma gaveta da escrivaninha do quarto e tirou um estilete longo e fino. Ele j encarara misses secretas com
menos ansiedade, pensou.
   Inspirando profundamente, bateu de leve na porta.
    Laura? Laura, por favor, venha at a porta.
   O silncio que o saudou era desapontador, apesar de ser exatamente o que esperara. Tentou girar a maaneta. Trancada,
No importava.
   Ele encostou a cabea na porta.
    Laura, precisamos conversar. Eu vou entrar. Meteu o estilete na fechadura e quase imediatamente a porta se abriu.
    Como voc ousa!  Laura ainda tentou fechar novamente a porta.
    Pare!  ele empurrou a porta e entrou.  Eu no sabia o que fazer. Voc no queria falar comigo
    Ser que voc no pode simplesmente me deixar em paz?
    Sim. Eu tenho a inteno de deix-la em paz. Esta  uma das coisas que eu vim lhe dizer.
   Ela parecia perplexa.
    Laura, eu lhe devo desculpas.
   Ela olhou para ele e pareceu relaxar um pouco. Ele continuou.
    Eu Eu no sei o que me deu naquela noite. Eu normalmente no me imponho a mulheres que no me querem. Eu
no posso explicar, realmente, exceto  mas ele no ousou dizer o que pensava, o que sentia.  Eu no privei Ah Da
companhia de uma mulher desde o acidente de Diana. Bem, na realidade, foi antes disso, meses antes disso. Eu Ah Estive
fora de casa algum tempo, e, bem
   O olhar no rosto dela o fez se calar.
    Oh, est tudo bem  disse ela, baixinho, o sarcasmo pingando de cada palavra.  Eu entendo. Eu agora vejo que o
que aconteceu foi eu estar no lugar errado na hora errada. Nada pessoal. Qualquer mulher teria servido naquele momento.
   O queixo dele caiu.
    No! Eu no disse isso! Eu no queria
    No mesmo?  Ela lanou o cabelo para trs com uma das mos.  Ser que tenho a palavra fcil estampada na
fronte? Ou ser que  o meu jeito de andar, de falar?
    Pare com isso. Voc sabe que no  isso. Eu nunca disse
    Vamos deixar as coisas bem claras, Adam! Voc quer dormir comigo!
   A acusao bateu-lhe em cheio no rosto. Ainda assim ele no podia neg-lo.
    Voc  uma mulher muito bonita, Laura. Naturalmente eu penso sobre Eu no posso impedir de pensar que ns 
Fechou os olhos.  Ns combinaramos bem, sabe.
   Quando abriu novamente os olhos, ela voltara as costas para ele. Ele avanou e colocou a mo em seu ombro.
    Laura
    No me toque!
    Eu s queria Sinto muito. No queria ofend-la. E voc est errada sobre qualquer mulher Voc  muito especial,
Laura. Eu at diria que ningum poderia tomar o seu lugar.  por isso que eu me sinto to mal em relao ao que aconteceu,
por isso que eu quero muito apagar tudo isso e recomear, pelo menos por causa das crianas.
    Oh, isso  demais para voc  ela retrucou, limpando os olhos com movimentos curtos e convulsivos.  Bastante
liberal, voc no acha, confiando o cuidado de seus filhos  mesma mulher que voc deseja?
   Ele ergueu a cabea.
    No realmente. Um dia eu senti algo bem parecido em relao  me deles, e deseja no , definitivamente, a palavra
exata.
   Ela baixou os olhos.
    Eu no sou a me deles.
   Ele suspirou.
    Sim Parece que eu me esqueci disso.
    O que isso quer dizer?
   Ele lambeu os lbios, procurando desesperadamente as palavras certas.
    O que eu quero dizer  que eu confio em voc para cuidar deles exatamente tanto quanto eu confiava em Diana, tanto
que eu, evidentemente coloquei voc nesse papel. Isso, combinado com minha bvia atrao por voc, me confundiu.
Instintivamente eu me aproximei de voc como o faria com minha esposa.
    Eu lhe agradeceria se no cometesse esse erro novamente.
    Est bem. Agora ser que poderamos voltar ao normal por aqui?
    Se com isso voc quiser dizer nada sexual
   Ele nem mesmo ouviu o resto do que ela dizia. A raiva zumbia em seus ouvidos. Como ela poderia dizer isso, depois de
tudo o que ele dissera?
    Pare de me tratar como um estuprador condenado!
    Eu no fiz isso!
    Voc no fala comigo em um tom civilizado h dias. Voc no fica sozinha comigo, voc
    Eu no!
    Eu vim aqui para me desculpar, e voc est querendo briga!
    Oh, eu deveria ser toda doura e luz depois de voc invadir meu quarto?
    Eu no invadi! Bati na porta, e quando voc no respondeu, eu avisei que estava entrando!
    Querendo eu ou no!
    Algum precisava fazer alguma coisa! Voc espera que eu aceite simplesmente ser persona non grata em minha prpria
casa?
    Bem, se voc no esperava que eu me jogasse em sua cama
    Foi um beijo, pelo amor de Deus! Um simples beijo!
    Dois!  gritou ela em resposta.  E no houve nada simples em nenhum deles!
    Bem, pode ter certeza de que no haver o nmero trs!
     melhor que no haja mesmo!
    Pode contar com isso! Eu no cometerei esse erro novamente!
   Ela se levantou, as mos nas cadeiras, e inclinou-se para frente para meter o nariz em sua cara.
    Eu estou comeando a pensar que fui eu que cometi o erro quando vim para c. Eu tinha um trabalho perfeitamente
bom antes de voc aparecer.
   Ele ficou com tanta raiva que se tornou incoerente.
    Pelo amor de Deus, aquele retardado a despediu porque pensou que voc estava flertando comigo!
    Eu no estava flertando com voc!
    O que eu fiz para merecer isso?  Adam perguntou ao teto.
    Voc me beijou!
    Deus, perdoe-me, eu a beijei! Eu na realidade, at mesmo pensei que voc gostou! Obviamente, eu devo ser punido.
    Deixe-me sozinha,  s isso  murmurou.
    Uma ova que eu deixo! Ns moramos juntos
    No!
    Na mesma casa, e eu nunca andarei na ponta dos ps como um condenado fugitivo em minha prpria casa!
    Ningum lhe pediu para fazer isso.
    No, mas  exatamente como voc me tratou. Bem, chega. Acabou. Voc est me ouvindo?
    Oh, eu estou ouvindo  ela disse, levantando o nariz com arrogncia.  E voc parece estar esquecendo de novo que
no  meu marido!
   Ele teve vontade de sacudi-la, e antes de notar que o desejo se traduzira em ao, estava fazendo exatamente isso.
    No, mas sou seu patro e, por Deus, voc far exatamente o que eu digo, ou ento
    O qu? Ou voc me beijar? E quando eu me recusar a deixar a coisa ir alm disso, o qu, Adam? Voc vai me
despedir, ou coisa pior?
    Pare com isso!  Ele a sacudiu de novo, mais forte dessa vez.  Obviamente, voc no est em condies de ser
razovel.
    Razovel? Saia do meu quarto, e a pode ser que eu seja razovel.
   Ele saiu batendo a porta com todas as foras que foi capaz de reunir. Estava na outra extremidade do corredor, quando
ouviu pequenos ps se arrastando atrs dele. Olhou para baixo e viu o rosto perturbado de sua filha.
    O que est acontecendo, papai? Ele forou um sorriso e a acariciou.
    Nada importante, docinho. No se preocupe com isso.
    Voc est zangado com Laura?
    Sim E ela tambm no est satisfeita comigo.
    Como assim? Ele fez uma careta.
    Coisa de adultos, Wendy, o que quer dizer que no faz nenhum sentido.
   Ela mordeu os lbios, claramente preocupada, e seu corao disparou. Ele a tomou nos braos.
    Est tudo bem, docinho, eu prometo. Agora,  melhor voc voltar para a cama, ou no estar de p a tempo de ir para a
escola de manh.
   Desligou a luz do corredor e dirigiu-se ao seu quarto, fazendo uma pausa ao passar em frente  porta dela. Ouviu um
soluo e sua mo pousou na maaneta. Desistiu.


   Captulo 7

    Terminem seu caf, meninos. Wendy, est na hora de se aprontar para a escola. Despea-se de seu pai.
   Wendy engoliu um ltimo pedao de torrada com gelia e levantou o rosto para o beijo de seu pai. Ele sabiamente a beijou
na testa, e depois repetiu o gesto com os meninos. Parou ao lado de Laura, e por um momento ela pensou que ele a beijaria
tambm! Mas ele simplesmente sorriu e saiu. Laura se levantou, o nimo consideravelmente aliviado, o pulso acelerado.
   Mas isso no durou. Wendy estava lenta como uma lesma naquela manh e atrasada de novo para a escola. Laura levou o
dobro do tempo habitual para afivelar os meninos nas cadeirinhas do carro. Para coroar uma manh j difcil, eles se soltaram
na entrada da cidade e comearam a escalar suas cadeiras para sarem, rindo e se debatendo selvagemente. Enquanto procurava
um lugar seguro para parar, uma sirene coroou o caos. O olhar de Laura voou para o retrovisor. Luzes coloridas piscavam do
teto do carro azul da polcia atrs dela.
    Oh, no!
   No limite do pnico, Laura continuou por um pouco at encontrar um espao largo e plano na lateral da estrada.
Imediatamente abriu sua pequena bolsa, tirou a carteira e a colocou embaixo do assento. No ousaria deixar que aquele
policial visse sua carteira do Colorado. Era prtica rotineira em algumas localidades verificar no sistema cada carteira de outro
estado, e isso poderia ser desastroso se Doyal ou qualquer outro tivesse denunciado seu desaparecimento.
   Laura apertou as mos na direo enquanto esperava que o policial chegasse at a sua janela. Somente quando ele se
debruou, empurrou o rosto encapotado em sua direo e bateu na janela  que ela abaixou o vidro. Para sua surpresa, ele
puxou para baixo o cachecol enrolado na parte inferior do rosto, tirou seus culos de sol espelhados e enfiou a cabea para
dentro do carro, ordenando s crianas que se acalmassem.
    Eu acho que sei por que voc estava ziguezagueando ali atrs  disse o oficial.
   Laura mordeu o lbio e lentamente se voltou para encar-lo. Ela se forou a sorrir, apesar de seu corao bater como um
tambor.
    Eu sinto muito, seu guarda. Foi uma manh difcil. Ele era surpreendentemente jovem e bonito, e o sorriso que ele lhe
deu, extremamente sedutor.
    Parece que voc tem muito o que fazer.
     verdade
    Eles so seus?
   Laura balanou a cabea. O sorriso dele dessa vez foi verdadeiramente caloroso.
   Laura sentiu uma pitada de esperana, que se diluiu no momento seguinte.
    Posso ver sua carteira, por favor?
   Ela pegou a bolsa e fingiu procurar a carteira. Finalmente, quando qualquer idiota podia ver claramente que no a
encontraria, virou-se para a janela.
    Oh, meu Deus! Eu acho que deixei minha carteira em casa.
    E onde  a sua casa, senhora?
   Laura comeou a relaxar. Ela aprendera nas ltimas semanas que o nome Fortune significava algo nessa cidadezinha, e por
uma vez, no se sentiu culpada por us-lo,
    Esses so os filhos do senhor Adam Fortune. Eu sou a bab e moro na casa deles.
   O nome Fortune funcionou com sua mgica aliciadora.
    Eu suponho que o senhor Fortune confirmar isso.
    Claro.
     melhor me dar o seu nome ento.
    Laura Beaumont.
    E o senhor Fortune pode ser encontrado em Laura forneceu o nmero de telefone do escritrio e da casa. O policial
anotou e, para sua surpresa, estendeu a mo.
    Eu sou o oficial Raymond Cooper. Prazer em conhec-la, senhorita Beaumont.  senhorita Beaumont, no?
    Sim.
    Bem, senhorita Beaumont, tente ser um pouco mais cuidadosa com a direo.
    Claro. Obrigada.
   Ele enfiou a cabea para dentro do carro novamente.
    E quanto a vocs trs  Dividiu um olhar severo entre as crianas.  Parem de dar trabalho a esta linda moa.
Esto colocando em perigo as suas vidas quando comeam a fazer baguna assim dentro de um carro. A partir de agora,
fiquem em seus lugares e mantenham esses cintos apertados. Ouviram?
   Trs rostos com olhos esbugalhados balanaram para cima e para baixo.

   Laura e as crianas estavam colocando a mesa do jantar quando Adam apareceu e se apoiou na moldura da ampla porta.
    Oi, famlia!
   Ele abraou Wendy e depois caminhou em volta da mesa para pegar os meninos. Cada um no cncavo de um brao, ele
beijou suas testas antes de olhar diretamente dentro de cada par de olhos.
    Ento, vocs foram especialmente bonzinhos com Laura hoje?
   Ambos assentiram vigorosamente, mas o erguer das sobrancelhas de Adam, mostrando que sabia do acontecido, roubou-
lhes o entusiasmo inicial.
    No  isso que eu fiquei sabendo O policial Cooper me disse que vocs estavam criando problemas para Laura,
saindo de seus assentos e pulando dentro do carro. De fato, eu soube que Laura estava to perturbada que perdeu a carteira.
   Seu olhar se voltou para ela, e ela prendeu a respirao.
   Aquele maldito policial realmente verificara sua identidade! Ser que o fizera pelos canais policiais tambm? Oh, Deus, o
que ele poderia ter dito a Adam? Subitamente seu corao pulava tanto que parecia que iria desmaiar. Nem mesmo ouviu
Adam fazer a pergunta da primeira vez.
    Laura!
   Ela hesitou.
    O qu?
    Eu perguntei se voc j achou sua carteira.
   Ela abriu a boca, mas antes de decidir o que dizer para evitar problemas, Wendy a empurrou para dentro do problema at o
pescoo.
    Laura no perdeu sua carteira, papai  disse, querendo ajudar.  Ela a escondeu debaixo do assento.
   O olhar de Adam mostrou incredulidade.
    Escondeu?
   Laura sentiu seu rosto empalidecer e depois uma onda de calor.
    Eu estava
   Adam deixou os meninos escorregarem para o cho.
    Voc a escondeu, Laura? Voc escondeu sua carteira da polcia?
   Laura sentiu-se perigosamente perto das lgrimas.
    Eu estava com medo.
    Medo? Por qu?
    Ela est vencida!
    Voc deixou-a expirar. Mas tudo acabou bem, afinal.
    Sim, tudo acabou bem.
   Laura mordeu os lbios, assaltada pela culpa e o arrependimento.
    Bem  disse ele, subitamente.  Voc precisa renov-la. No podemos deixar que voc dirija por a sem a licena
    Eu cuidarei disso. Sinto muito por voc ter sido importunado com isso.
    No se preocupe. Hum O policial Cooper Ele no saiu da linha, ou algo assim, saiu?
   A pergunta foi to inesperada que ela precisou pensar.
    No, no, ele foi muito educado e atencioso. Ela cruzou os braos e olhou em volta.
    Com certeza ele colocou essas criaturinhas em seus lugares.
    Bom.
   Ele balanou o dedo para os trs rostinhos.
    Que isso seja o fim de baguna no carro ou a polcia ser a menor de suas preocupaes. Entenderam?
   Todos concordaram solenemente.
    Agora, quando vamos comer?
   Laura fechou os olhos em um momento de alvio intenso, depois reforou o sorriso.
    Eu vou perguntar a Beverly  disse, saindo rapidamente.

   Adam rolou para o lado e suspirou, resistindo ao impulso de abrir os olhos. Ele realmente necessitava de uma boa noite de
sono. Laura mentira para ele  no tinha dvida. Ela mentira, e ele deixara que o fizesse. E ele continuaria a deixar, pois
encost-la na parede poderia significar acabar com tudo. E ele no estava pronto para faz-lo. De fato, quando aquele jovem
policial impetuoso ficara de p diante de sua escrivaninha naquela manh, rindo de orelha a orelha aps verificar a histria da
senhorita Beaumont, Adam no pensara em outra coisa a no ser socar aqueles dentes sorridentes para dentro da boca. Fora
preciso todo o autocontrole adquirido em anos de servio militar para se manter sentado e responder educadamente s
perguntas de Cooper. Sim, Laura Beaumont era bab de seus filhos. No, ele no podia pensar em nenhuma razo pela qual ela
no quisesse mostrar a carteira para a autoridade apropriada. Sim, era bem provvel que ela tivesse simplesmente esquecido a
carteira em sua pressa de levar Wendy  escola pontualmente. S que no era isso.
    Laura no perdeu a carteira, papai. Ela a escondeu embaixo do assento.
    Eu estava com medo. Com medo.
    De que voc tem medo, Laura?  murmurou no escuro. Ele gostaria de saber.
   E ele, o que temia? Temia nunca encontrar um negcio em que pudesse se dar bem, uma carreira que lhe deixasse
satisfeito, uma vida prpria. Ele temia nunca mais se sentir contente ou  vontade, nunca mais conhecer uma noite de paz,
temia ficar acordado noite aps noite pensando em como seria se Laura Beaumont o amasse. Temia o que quer que Laura
temesse, bem como suas ambies, e o que quer, quem quer que ela amasse. Ele temia o policial Cooper e todo homem que
pudesse ganhar o corao de Laura.
   De algum modo soubera desde o incio por que Cooper fora ao seu escritrio naquela tarde. No demorou muito para que
Cooper abordasse o assunto.
    Eu imaginei que tudo estivesse certo com ela, j que trabalha para o senhor. Deduzi que qualquer um que trabalhe para
os Fortune j deve ter sido investigado.
   Adam precisou olhar para o outro lado. Por que no a investigara? Perguntou a si mesmo. Mas ele ja sabia a resposta. No
verificara sua identidade porque no queria saber, caso ela no fosse quem dizia que era ou parecia ser.
   O policial continuou.
    O fato  Francamente, eu considero uma questo de honra no pisar nos calos de um outro homem quando uma
mulher est envolvida. Ento eu decidi vir at aqui s para ter certeza
   Adam no o ajudou. No disse o que qualquer homem honesto e respeitvel diria: que Laura era dona de si mesma, livre
como um pssaro, sem nenhum vnculo, disponvel.
    Eu quero dizer, ela sendo uma mulher to linda e tudo O senhor um homem sozinho Ela mora em sua casa, no?
   Adam sorriu.
    Sim.
   Mas por quanto tempo? At o fim do semestre? At o final do vero? Ou at que algum homem como o policial Cooper
virasse a sua cabea? Adam olhara o jovem alto e bem apessoado  sua frente, belo segundo todos os padres, confiante,
saudvel, e convencera-se de que no ficaria parado, a lngua presa, enquanto um homem assim se colocava entre ele e Laura.
    Voc  uma raridade nesses dias, policial Cooper. A maioria dos homens teria pressionado a moa para conseguir um
encontro, mesmo se soubesse que outro homem est envolvido com ela.
   Ele sentiu pena do policial depois disso, pela maneira pela qual sua expresso entristeceu.
    Ento o senhor e ela so
   Sentiu pena do jovem, mas no era um idiota.
    Ela , como voc diz, uma mulher muito bonita e meus filhos a adoram. Fez uma diferena enorme em minha casa, eu
posso garantir. Estaramos perdidos sem ela.
   O policial Cooper olhava para o cho e seu desapontamento era visvel.
    Sim, bem Quanto s crianas Elas estavam lhe causando bastantes problemas essa manh. Os menininhos haviam
sado de suas cadeiras e estavam agitados. Isso fez com que ela ziguezagueasse ligeiramente em sua faixa, e foi o que me
levou a faz-la parar. Ela disse que esquecera a carteira por causa da pressa em levar a menininha para a escola.
   Adam concordou.
    Eles podem ser bem difceis. Desde que sua me morreu h um ano e meio atrs, eu venho tendo alguma dificuldade
em lidar com eles, mas Laura mudou tudo isso. Juntos, estamos tomando o controle da situao. Obrigado por trazer isso ao
meu conhecimento. Voc pode ter certeza de que tomarei providncias.
   Mas no o fizera. No realmente. Ele falara com os meninos sobre sua m-criao no carro somente como um modo de
abordar o assunto com Laura. Queria avaliar sua reao em relao ao jovem policial e, em vez disso, se perdera no olhar de
puro terror que pairava por trs de um sorriso demasiado claro e um olhar demasiado direto. De que ela tinha medo? Mesmo se
sua carteira tivesse expirado, por que ela a esconderia, em vez de simplesmente encarar a questo? No era uma contraveno
criminal. Nada fazia sentido. As peas do quebra-cabea no se juntavam. De fato, agora que pensava nisso, nada do que sabia
sobre ela, por menor que fosse, fazia sentido. Tinha perguntas em relao a ela, perguntas cujas respostas temia. Ser que no
seria melhor esclarecer tudo? Fosse o que fosse, eles poderiam ento lidar com isso. Sim, encarar, essa era a nica maneira de
tratar um problema.
   Ele jogou as cobertas para longe, pegou o roupo e logo estava de p em frente  porta de Laura, o punho suspenso, o
corao batendo como uma mquina a vapor, e s conseguia pensar, E sei E se a verdade os separasse mais? E se ela
escolhesse deix-los, em vez de enfrent-la? E se ele no pudesse suportar isso? E se no pudesse aceitar o que quer que fosse?
E se ela o odiasse por for-la a encar-la?
   Encostou a testa na porta, querendo Laura Beaumont mais do que podia se lembrar de jamais ter querido algum ou
alguma coisa.
   Ele desistiu e voltou para seu quarto. Passou muito tempo at que pudesse dormir, muito tempo, mas quando o fez, foi
pensando que Laura ao menos estaria l na manh seguinte  ao menos por enquanto.


   Captulo 8

   Adam recostou-se em sua cadeira de couro negro que fazia par com a escrivaninha e esfregou os olhos, o telefone no
ouvido. Bocejou silenciosamente, enquanto ouvia o comentrio de sua irm e esperava para falar.
    Sim, eu sei. Eu falei com a mame ontem Ela est preocupada que Rocky esteja zangada porque a famlia no
recebeu Luke formalmente, mas tem medo de reunir todos, por causa de papai.
    Bem, voc no pode culp-la  Caroline replicou com sua voz macia.  Nathaniel est tentando armar um golpe por
causa daquele negcio das aes. Eu continuo a dizer a todos que ns deveramos estar menos preocupados em questionar
papai, e mais com as intenes de Mnica, agora que ela tem as aes Honestamente, no sei o que Mike e Kyle e Kristina
esto pensando
    Eu no imagino que saibam o que pensar mais do que o resto de ns.
   A reao de Caroline era previsvel.
    Adam! Voc sabe que papai nunca faz nada que no seja do interesse das companhias Fortune. Eu admito que o
silncio sobre suas razes  inquietante, mas ns devemos confiar em seu julgamento e intenes.
    Ningum est discutindo esse ponto, irmzinha. Papai e eu podemos no ver muitas coisas do mesmo modo, mas essa
dedicao ao negcio de famlia nunca esteve em questo. Eu poderia gostar um pouco mais dele se estivesse.
    Adam!
    Sim, eu sei, sacrilgio, segundo seu ponto de vista.
    Pode surpreend-lo saber, Adam, que at recentemente sua dedicao ao exrcito era bem parecida com a de Jake.
   Adam sorriu sem alegria.
    Na verdade, outra pessoa me mostrou exatamente isso.
    Realmente? Quem?
   A voz de Adam amaciou-se sem querer.
    Kate.
    Eu suponho que voc esteja se referindo  herana
    Sim
    Eu nunca entendi bem por que ela lhe deixou um par de lbuns fotogrficos  Caroline disse.
   Adam sorriu para si mesmo.
    Ela era muito sbia, foi por isso. Na realidade, uma outra pessoa descobriu isso antes de mim.
    Quem?
    Isso  tudo o que direi sobre o assunto.
    Essa outra pessoa  alta e elegante, anda como uma danarina e tem cabelo louro e comprido, no?
   Adam franziu o cenho.
    Quem lhe falou sobre Laura? Caroline riu.
    Papai a elogiou muito.
    E exatamente o que ele disse? Isso soava preocupado demais, possessivo demais?
    Que a nova bab era bem diferente das suas antecessoras. Pelo que sei, ele aprova.
   Uma resposta sarcstica estava na ponta de sua lngua, mas por alguma razo Adam a engoliu, preferindo mudar de
assunto.
    Como esto Nick e o beb Kate?
   A risada de Caroline assinalou que ela sabia exatamente o que ele estava fazendo e que o permitiria.
    Nick est trabalhando duro e Kate est tirando uma soneca.
    E voc?
    Oh, eu estou bem, Adam. Melhor do que nunca.
    A maternidade obviamente combina com voc  observou Adam docemente.
    Sim.
   A quantidade de bem-estar e felicidade nessa nica palavra fez com que a garganta de Adam se fechasse, e subitamente ele
foi tomado por um feroz desejo de algo que nem mesmo conseguia identificar. Por um momento, teve dificuldade em se
concentrar na fala de Caroline.
     sobre papai E Mnica. Foi por isso que liguei para voc, meu irmo. Voc  mais imparcial do que eu. Seu ponto
de vista deve ser mais objetivo. O que voc acha que a Mnica quer?
   Adam passou a mo sobre o rosto, tentando organizar os pensamentos.
    Bem, talvez ela queira somente uma fatia do bolo. Ela foi a porta-voz da Cosmticos Fortune por tanto tempo, talvez
ache que tem direito.
    Mnica Malone nunca me pareceu uma mulher que se contentaria em ter s uma fatia de alguma coisa.
     verdade. Ento ela est atrs da companhia
    A companhia de Kate  Caroline completou.
    Voc acha que faz sentido?  perguntou Adam.
    De certo modo.
   Adam pensou por um momento, depois deu de ombros.
    Eu no vejo por que especular sobre isso.
    Precisamos estar preparados  argumentou Caroline.
    Voc deve estar preparada. A verdade  que eu tenho mais em que pensar do que em Mnica Malone e nas companhias
Fortune. Tenho uma famlia para cuidar, e ainda no tenho a menor idia de como farei para sustent-la.
    Voc sabe que s precisa falar uma palavra e a porta do escritrio de sua escolha na Fortune se abrir
    E voc sabe que no farei isso. Veja, maninha, obrigado por ligar. Sinto muito no poder ajudar, mas, como eu disse,
tenho muito em que pensar.
    Pobre Adam  disse Caroline, baixinho.  No se preocupe. Voc encontrar seu lugar no mundo.
   Mas ser que encontraria? Adam perguntava a si mesmo. Ele no parecia mais perto agora do que estivera no dia em que
Diana morreu. Inclinou-se para frente em sua cadeira, incerto quanto  razo por que queria tanto desligar o telefone. No era
como se tivesse algo realmente produtivo para fazer. Apesar disso, mal podia esperar para terminar a conversa. Tentou parecer
cuidadoso e ocupado.
    D minhas lembranas ao Nick.
    Est bem, obrigado. Diga, por que voc e as crianas no vm para c passar um fim de semana? Faz sculos que no
vejo meus sobrinhos e minha sobrinha.
    Com certeza. Eu telefono.
    No, voc no vai telefonar. Talvez eu devesse ligar e combinar com a Laura.
    No!  Adam passou a mo pelo rosto, consciente de que essa exploso fora reveladora.  Laura no  a me aqui, eu
sou o pai, e eu cuidarei disso assim que puder.
    timo. Estou ansiosa por ver vocs.
    Em breve  prometeu Adam, e desligou.
   Estava de pssimo humor. Nada parecia dar certo naqueles dias, e ele estava impaciente por se estabilizar em algum
trabalho seguro. Ainda assim, no conseguia se concentrar  no que tivesse encontrado uma maldita coisa na qual quisesse
se concentrar. Nada, nada mesmo, o atraa, e estava cansado de procurar. Estava cansado de sua prpria companhia, mas no
queria ningum, exceto Fez uma carranca ao pensar em Laura. No se entregaria s fantasias com a bab, pelo amor de
Deus. J era suficientemente mau que no conseguisse controlar os sonhos, que acordasse noite aps noite, duro como uma
pedra, pensando em Laura dormindo do outro lado do corredor.
   Ela mentira para ele: estava escondendo coisas dele. Apesar do que ela dissera, ele sabia que no renovara sua carteira, e
sabia que havia uma razo para isso. Ela tinha medo, medo de ser seguida, de ser encontrada  mas por quem? Pela lei? Ele
rezava para que no fosse a lei, mas como poderia saber? E, sem saber, como podia continuar a confiar seus filhos a ela? Mas
confiava nela, apesar de tudo. Porque a queria.
   Isso era o cmulo de tudo. Ele queria Laura Beaumont com uma paixo que ultrapassava de longe qualquer coisa que
tivesse sentido por qualquer outra pessoa, e esse desejo o estava enlouquecendo. Estava destruindo sua concentrao, minando
sua busca por um negcio e uma carreira, confundindo seu humor e emoes. Ser que tambm estava comprometendo seu
julgamento? Estaria cometendo um erro ao mant-la? Tudo o que queria era saber a resposta.
   Laura o viu e colocou o livro de lado. Ele estava preocupado, perdido em seus pensamentos, a revista cada em seu colo.
Enquanto o observava, ele fechou os olhos e deixou cair a cabea para trs. Ela se perguntou novamente o que o perturbava, e
por que ele no falava sobre isso. Parecia to tenso ultimamente, to preocupado.
   Ela se levantou silenciosamente e caminhou at a cozinha, pegou um copo no armrio, serviu uma dose de conhaque e
voltou para o escritrio de leitura.
    Tome.
   Adam abriu os olhos, concentrando o olhar no copo de conhaque.
    Pensei que voc pudesse querer um drinque
    Obrigado.
   Ele sorveu metade do lquido mbar em um nico gole. Laura cruzou as mos no colo.
    Como foi o seu dia?
    Sem graa.
    Nada ainda?
   Ele balanou a cabea.
    Eu no sei, talvez o exrcito seja a nica coisa para a qual eu sirva.
    Por que voc diz isso?
    Talvez eu precise de algum para me dar ordens. Ela riu com isso, a voz clara e radiante.
    Eu diria que voc  definitivamente melhor ao dar ordens que ao receb-las.
   Ele sorriu.
    Talvez sim. Eu tive alguns oficiais superiores que concordariam
    Eu acho que voc poderia fazer um sem nmero de coisas.
   Ele pareceu contente.
    No  que eu no saiba fazer nada.  que eu no encontrei ainda nada que me atraia. Eu quero estar apaixonado pelo
que fizer. Eu quero ficar ansioso para ir ao trabalho a cada dia. Eu quero Demais, evidentemente  ele suspirou e deixou a
cabea cair para trs mais uma vez.
    Talvez voc esteja encarando isso da maneira errada. Pelo que voc se interessa? Quero dizer, quais so os seus
hobbiesl
   Ele fez uma careta.
    Eu no tenho hobbies.
    Bem, quais so suas coisas favoritas?
    Eu no sei
   Por um momento, ela se exasperou com ele, mas ento teve uma idia. Movendo-se para a borda de sua cadeira, disse:
    Voc gosta de histria. Ao menos voc prefere temas histricos na televiso e nas revistas.
     verdade, mas todos gostam de histria.  fascinante.
    Nem todos.
    Bem, eles devem. Histria  Bem, somos ns. Ao menos  o que nos faz sermos o que somos.
    Eu concordo.
    Talvez todas as viagens que fiz tenham me dado uma perspectiva especial da Histria. Eu quero dizer, esse  um jovem
pas, socialmente. Agora, pegue a Europa ou o Oriente, aquelas sociedades tm milhares e milhares de anos! O que 
realmente fascinante para mim, porm,  como as mudanas aconteceram devagar at os tempos modernos. Por exemplo, as
pessoas simplesmente no tm conscincia de quo pouco o estilo de vida americano mudou, digamos, no sculo que
compreendeu a revoluo americana e a guerra civil. Honestamente,  s andar por Washington, Mont Vernon, depois descer
para as manses de antes da guerra na River Road, entre Baton Rouge e New Orleans. Voc ver que no houve muita
diferena na qualidade do estilo de vida nesses dois perodos.
    Fascinante  Laura murmurou, sorrindo para si mesma enquanto ele se lanava em outro monlogo.
    Voc no pode comear a compreender como a sociedade mudou at conscientizar-se de onde ela veio ao mudar.
Agora pegue toda a nfase nas questes de sade atuais. No passado, ningum realmente se preocupava com cncer ou presso
alta ou qualquer dessas doenas nas quais agora ns vemos tanto cuidado preventivo focalizado. Por um lado, eles no tinham
idia do que fazer para combat-las. Por outro, muito poucas pessoas viviam o suficiente para sofrerem delas. Voc sabe qual
era a maior causa de morte acidental feminina at esse sculo?
   Laura balanou a cabea. Podia ter apostado em parto, mas ele no lhe deu essa chance.
    Fogo. Pense nisso. Fogo aberto era o nico mtodo de se cozinhar at o advento do fogo  lenha de ferro, e esse, no
melhor dos casos, era ineficiente. Alm disso, precisava ser munido de lenha. Agora pense nas roupas que as mulheres usavam
at depois da virada do sculo. Voc se vira rpido demais em uma cozinha pequena e entulhada. Sua saia longa varre uma
brasa viva em um fogo quente. Puf! Voc pega fogo. O perigo do fogo era a razo para tantas cozinhas serem construdas
separadas da casa  e quem trabalhava nessas cozinhas?
    Mulheres, naturalmente
    Pode crer que sim. E quando isso comeou a mudar? Comeou a mudar com o advento dos servios pblicos. Agora,
veja os conflitos armados. Voc no tem idia da brutalidade dos conflitos armados antes do rifle de repetio aparecer.
Nesses dias
   Laura recostou-se em uma posio confortvel. Ela amava v-lo assim, gesticulando e falando pelos cotovelos, todo
animado e envolvido. Se ele pudesse ver o prprio rosto agora, ela pensou, saberia o quo apaixonado pode ser em relao
a um assunto. Irracionalmente ela se perguntava se ele poderia um dia ser to apaixonado assim por uma mulher, e ento se
lembrou do toque de seus braos, de sua boca, de suas mos.
   Instantaneamente a lembrana da sensao a varreu, aguando seus sentidos e evocando uma sbita sensao de perda.
Repentinamente a tristeza a inundou, as lgrimas queimando o fundo de seus olhos.
    Hei! O que est errado? A histria dos conflitos armados pode no ser o seu tema favorito, mas eu nunca levei algum
s lgrimas com ele antes.
   Laura notou que seus olhos estavam encharcados e rapidamente os enxugou, forando uma risada.
    Eu acho que no estava ouvindo.
    Diga-me o que est errado, Laura.
    Oh,  idiota. Eu estava pensando que provavelmente nunca saberei que carreira voc escolher Eu no vou saber do
progresso das crianas ou se a famlia gosta do novo marido de sua irm, ou como seu pai vai indo Eu acho que no
esperava me envolver tanto.
    Voc no precisa ir  Adam disse docemente.  Voc pode ficar.
    Eu sei que poderia ficar ao menos enquanto as crianas precisarem de mim. Mas e meus planos? Meus sonhos?
    Deve haver um modo de conciliar tanto o seu desejo de ir  universidade quanto o de ficar aqui.
    As crianas merecem mais ateno do que eu poderia lhes dar se fosse para a universidade.
   De repente, ele agarrou seus braos e a puxou para a borda do sof, de maneira que seus joelhos se tocaram.
    Eu no quero que voc v, eu preciso de voc aqui. Ser que isso no significa
   Ela pressionou os dedos trmulos contra a boca dele, interrompendo o fluxo de palavras antes que elas se tornassem
insuportveis.
    No  sussurrou.  Por favor, no torne isso mais difcil do que deve ser.
   Ele levantou o queixo dela e empurrou sua mo, puxando-a ainda mais para perto.
    Laura
   Era em parte uma splica e em parte uma exigncia.
   Ela escorregou da borda do sof e caiu de joelhos no momento em que as suas bocas se encontraram. Ele a puxou ao seu
encontro, os braos fechados em suas costas, as coxas prendendo-a firmemente. Ela apertou sua camiseta nas mos, querendo
tudo o que o momento pudesse lhe dar, se alegrando com o conhecimento de que ele estava tentando se ligar a ela, mesmo se
apenas pelo desejo.
   Quando a mo dele deslizou por baixa do seu suter, ela sabia onde pretendia ir. Ele no podia saber o quanto ela queria
realmente pertencer a ele, o quanto queria se dar a ele, somente a ele. Ele no poderia saber, e ela no poderia lhe dizer. Foi
essa triste conscincia que trouxe lgrimas a seus olhos.
    Diga-me que voc no vai embora, Laura, querida, diga-me que vai ficar. Eu estou lhe pedindo para ficar. Por favor,
diga que vai ficar!
   Ela s pode fit-lo tristemente nos olhos e sussurrar:
    Eu sinto muito, eu sinto tanto.
   Ele se desvencilhou, como se ela o tivesse esbofeteado, e sua respirao ficou repentinamente ofegante e irregular. Laura
abaixou a cabea e reprimiu a vontade de dizer o quanto desejava ficar.
    Eu acredito que no haver acusaes amanh  ele disse, a voz cheia de amargura.
    Sem acusaes, sem fingir que eu no queria que voc me beijasse dessa vez.
    Por que voc fez isso? Por que tentou fazer ns dois acreditarmos que no queria isso?
    Nenhuma mulher quer admitir que  uma idiota, nem mesmo para si mesma.
    Por que querer estar comigo faria de voc uma idiota?
     o que eu quero. Voc sabe que  o que eu quero! No faz diferena, Adam, eu no posso ficar. Eu preciso ir.
    Eu ligarei para a agncia amanh.
    Est bem. Obrigada.  Ela saiu em seguida, forando seus ps a manter um ritmo tranqilo, apesar das lgrimas que
rolavam por suas faces.

    Uma senhorita Wilton est aqui para v-lo, Adam. A voz dela era suave como seda e despida de emoo.
   Ele sentiu uma onda de irritao, mas ento olhou para cima e captou um espasmo de dor em seu rosto. Ela o dominou
rapidamente, erguendo o queixo. Apesar disso, ele sentiu um raio de esperana. Ele se perguntara qual seria a sua reao
quando marcasse a entrevista intencionalmente no lugar e na hora em que Laura estivesse por perto. Agora sabia. Ela no
queria ir embora. No importa o que dizia, ela no queria partir. Por que, ento, estava fazendo isso? Ele afastou a pergunta,
levantando-se para receber a mulher pequena, delicada, quase infantil que estava ao lado de Laura. Estendeu a mo,
cordialmente. Avaliou a sua idade em aproximadamente trinta anos, agora que olhara mais detalhadamente.
    Oi. Eu sou Adam Fortune. Por favor, sente-se no sof.
   A pequena mulher se moveu rapidamente para se sentar. Laura voltou-se para ir embora, mas Adam a impediu.
    No, Laura, fique. J que  para a sua funo que a senhorita Wilton est se candidatando, ela pode ter algumas
perguntas a lhe fazer.
    Eu Eu ajudarei, se puder.
    Bem, h s uma pergunta  a senhorita Wilton disse, afetadamente  se voc no se importar
    Absolutamente.
    Eu queria saber por que voc est indo embora.
    O emprego da senhorita Beaumont foi temporrio desde o incio  Adam interveio.  Eu lhe asseguro que a sua sada
nada tem a ver com insatisfao de qualquer uma das partes.
   A senhorita Wilton pareceu satisfeita.
    Eu suponho que o senhor queira ver isso antes de continuarmos  disse, tirando um envelope da bolsa.
   Adam pegou o envelope e puxou vrias folhas de papel, pelas quais passou rapidamente os olhos.
    A senhorita parece ter muita experincia.
   Por vrios minutos, a senhorita Wilton exps orgulhosamente a Adam sua experincia.
    Eu gostaria de ver as crianas, por favor  disse, finalmente.
   Adam ficou confuso. Forou um sorriso, a impacincia mal contida, e tranqilamente replicou que decidira no envolver
as crianas no assunto at que tivesse se decidido.
    Bem, eu compreendo. Mas no posso aceitar nenhuma oferta at ver as crianas.
   Adam sorriu.
    Claro. De qualquer modo, obrigado por ter vindo. Quando Adam voltou ao escritrio, Laura estava na janela, olhando a
neve. Depois de um instante de hesitao, ele passou os braos em torno dela e a puxou contra o peito.
    Laura, voc no pode mais fingir que deseja ir embora daqui. O que quer que a esteja motivando a partir, eu sei que no
 ambio. Por favor, me diga qual  o problema.
    Eu no posso, e no faria diferena se pudesse.
    Laura  tentou beij-la, mas ela virou o rosto.
    Por favor, no, Adam J di demais assim.
   Ele no sabia o que dizer, no sabia como convenc-la a mudar de idia. Parecia que ele podia somente abra-la, e jurou a
si mesmo faz-lo por tanto tempo quanto pudesse.
   Laura fechou os olhos e entregou-se  sensao de segurana, mas foi algo que no ousou sentir por muito tempo. No
tinha coragem de acreditar que se estenderia alm daquele momento; bem pior, porm, que o pensamento da partida, era o de
Doyal a encontrando ali. No podia deixar que isso acontecesse. No momento em que Adam achasse uma substituta, iria
embora. Prometeu a si mesma que iria, e mantinha suas promessas. Sempre mantinha suas promessas. No importava o quanto
doesse.


   Captulo 9

   Quando passou da sala de jantar para a cozinha, o som de riso atraiu sua ateno. Era o riso de um casal, a harmonia entre
a voz masculina e a feminina em um concerto ntimo. Falava de compreenso e aprovao, de familiaridade e afinidade, e a
voz masculina era a de Adam. A curiosidade e o terror a atraram para o escritrio. Ela parou na porta, o corao batendo
enlouquecido.
   Adam e uma mulher pequena e atraente com aproximadamente a sua idade estavam sentados no sof, voltados um para o
outro, os olhos iluminados de animao. Quando ele se adiantou e colocou a mo da mulher na sua, apoiando ambas
casualmente sobre o joelho elegante dela, Laura sentiu o golpe do cime em seu ventre. Era to feroz que seu estmago se
revoltou e ela quase vomitou. Apertou a barriga com uma das mos, literalmente doente. Foi nesse exato momento que Adam
pareceu not-la.
    Oh, Laura, voc est a! Esta  Jane. Jane, Laura.
   A mulher ao seu lado deu um sorriso em direo  Laura.
   Era bem bonita, com olhos azuis ardsia, grandes e inteligentes, cabelos castanhos, longos e lisos, com mechas ruivas que
se cacheavam suavemente em torno de um rosto elegantemente talhado.
    Oi, Laura. Eu fiquei sabendo que voc domou os selvagens.
    O qu?
   Adam deu uma risada.
    As crianas, onde esto elas? Jane quer v-las.
   O corao de Laura se transformou em pedra. Ento era isso.
    Vou busc-las.
    Obrigado  Adam disse, e depois se voltou para Jane.
   Laura cambaleou at ao banheiro. Ouviu o som de gua corrente e de risadas. Abriu a porta. Os trs estavam em dois
banquinhos, debruados sobre a mesma pia, brincando.
    Seu pai quer vocs no escritrio. Vocs tm visita.
    Visita?  Wendy gritou, deliciada.
    Quem ?  perguntou Robbie.
    Uma moa, algum de quem vocs vo gostar.
   Uma tristeza incomparvel a envolveu. Sufocou o choro e foi para o quarto. Era assim que devia ser, e ela tinha uma
promessa a cumprir. Sabia no ntimo que Jane era uma mulher que reconheceria a preciosidade daquelas crianas. Adam
estava certo em escolh-la. Seria uma excelente bab. No seria detida nem enganada pelo mau comportamento de seus
pupilos. Seria amorosa e firme, mas tambm riria com eles e os beijaria quando se machucassem e os manteria prximos ao
seu pai.
   Seu pai. Esse era o verdadeiro problema. Laura vira nos olhos de Jane uma profunda e compreensiva admirao por Adam
Fortune  e isso era mtuo. Laura sentou-se em sua cama e chorou com uma dor silenciosa e feroz.
   Em total desespero, comeou a dizer a si mesma que Jane podia ser bem casada ou noiva, apesar de no ser provvel. As
babs so uma raa solitria, dedicadas a morar na casa de outras pessoas e a educar os filhos dos outros. Uma mulher
comprometida ou casada no procuraria um emprego novo. Talvez fosse melhor se estivesse disponvel. Laura no queria
pensar em Adam sozinho para sempre. Era bem melhor que ele ficasse com algum como Jane. Queria pensar nele feliz e bem.
Foi nesse momento que soube que o amava. Subitamente, tudo que ela acreditava ter sentido por Doyal Moody foi revelado,
no somente como ignorncia, mas tambm como imaturidade, e, para sua vergonha, desespero.
   Era difcil admitir o quanto ela fora carente  e talvez ainda fosse. No ter ningum, nenhum parente, nenhum amigo
verdadeiro, nenhum amante, era algo desesperador. Ela se perguntara algumas vezes, aps a morte da Irm Agnes, se ela
realmente existia. Se uma rvore casse na floresta e no houvesse ningum em volta para ouvir, ser que realmente provocaria
um som? Se uma pessoa vivesse, mas ningum reconhecesse esse fato, ser que realmente existia? Desde que comeara a fugir
de Doyal, nunca permanecendo muito tempo em um s lugar, tentando esconder-se em plena luz do dia, ela muitas vezes havia
sentido essa sensao perturbadora, mas no desde que viera para a casa dos Fortune. Aqui ela era real, querida e substancial.
Aqui ela era parte de algo, era necessria  vida dos outros. At agora.
   Fechou os olhos e esperou que no demorasse muito. Ela no queria a partida arrastada, a ferida remexida. Com isso em
mente, levantou-se, tirou a bolsa de viagem de nilon do armrio e comeou a arrumar suas roupas sistematicamente. Havia
mais, notou, sombria, do que quando chegara. De algum modo Adam sempre achava coisas de que ela precisava. Fez um
trabalho detalhado, organizando, dobrando, empilhando. Sua cama estava coberta de pilhas de roupa alinhadas quando algum
bateu  porta,
    Laura?
   Ela gelou. Ele viera lhe dizer ento Apesar das lgrimas brotando em seus olhos, estava verdadeiramente feliz. Quanto
mais cedo, melhor para todos os envolvidos.
    Entre.
   Adam abriu a porta e entrou. Estava sorrindo.
    Ns estamos esperando voc para o almoo. As crianas esto com tanta fome que esto ameaando comer seus
guardanapos. Elas  Ele parou e olhou para a cama, o sorriso desaparecendo.  O que voc est fazendo?
    Estou arrumando as minhas coisas.
    Por qu?
    No vamos fingir, Adam. Ela  absolutamente perfeita. Eu a vi por dois minutos e soube que  a pessoa certa. Jane vai
dar certo, tenho certeza.
    Sua pequena idiota  ele disse baixinho e a puxou para si.  Eu liguei para a agncia e disse para eles esquecerem o
assunto.
    Ento voc concorda que Jane  a pessoa ideal para me substituir.
   Ele agarrou seus ombros e os sacudiu. Suas mos deslizaram pelos ombros e seguraram seu rosto.
    Jane  minha prima. Ela est indo embora de Minnesota. A vov lhe deixou uma casa no Maine, e ela decidiu se mudar
para l com seu filho, Cody, antes que o novo ano letivo comece. Ela veio se despedir.
   Uma trgua. O alvio enfraqueceu seus joelhos e lhe fez soltar o ar com fora.
    Sua prima?  repetiu, baixinho.
    Minha prima  ele confirmou, parecendo feliz com isso.
   Ela fechou os olhos e apoiou a cabea em seu ombro, perguntando como seus braos de repente haviam ido parar em torno
da cintura dele. Sentiu seus lbios no seu cabelo e a fora de seu abrao. Ele a abraou por um longo, doce momento, e ento
deu a volta e a virou para a porta, o brao prendendo firmemente seus ombros.
    Venha comer. Depois, mais tarde, voc pode guardar essa maldita baguna. Voc no vai a lugar nenhum.
   Eles normalmente almoavam na cozinha, mas na mesa s cabiam confortavelmente quatro pessoas. Enquanto os gmeos
fossem suficientemente pequenos para dividirem um lado da mesa, era mais aconchegante comer na cozinha, mas visitas
ditavam que usasse a mesa maior da sala de jantar.
   Laura forou um sorriso e desvencilhou-se do abrao de Adam, acenando amistosamente com a cabea para Jane, prima
Jane.
    Sinto muito t-la feito esperar  disse, enquanto Adam puxava sua cadeira e ela se sentava.
    No faz mal. Eu estava conversando com as crianas, Ela sorriu para as crianas e voltou-se para Laura.  Eu ouvi
muitas coisas sobre voc, sabe.
    Oh?  Laura lanou um olhar inquisidor a cada uma das crianas, e depois a Adam.
   Jane sorriu suavemente.
    S falaram bem.
   Laura sentiu-se enrubescer.
    Bem, eu amo crianas, e  to fcil trabalhar para Adam.
    Adam?  Jane gargalhou, lanando uma mo esbelta de encontro ao peito.  Primo Adam?  Ela riu.  Adam-O-
Militar-Suave-Demais-Fortune?
    Muito engraado  disse Adam secamente.  Eu preferiria pegar Saddam Hussein com uma mo s a tentar dominar
esses trs sozinho. Eu me dobro  estratgia superior de Laura. Para resumir, ela  o general nessa operao. E eu sou o
capito.
    Estou impressionada  Jane disse.  Mas o almoo est esfriando enquanto ns estamos tendo essa conversa boba 
disse ela, baixinho, pegando sua colher.
   Foi a deixa que as crianas precisavam. Caram sobre a comida como soldados famintos, o que fez Adam rir e Jane
balanar a cabea, sorrindo. Vinte minutos mais tarde, Adam empurrou o prato e disse a Laura:
    Jane me deu muito que pensar. Eu gostaria de sua opinio sobre isso.
   Laura deu de ombros, se sentindo ao mesmo tempo desconfortvel e importante.
    Lembra-se do que estvamos falando na outra noite? Voc sabe, voc me perguntou o que me interessava mais.
    Histria!
    ! Agora, pense nisso: Jane herdou uma casa no Maine.
    Uma casa antiga muito interessante  Jane acrescentou.
    Ela e Cody decidiram viver l.
    Cody  meu filho. Ele tem seis anos. Como voc bem sabe, Adam e eu somos as ovelhas negras da famlia
   Bem, isso explica a camaradagem, pensou Laura. Dois Fortune que optaram por trilhar seu prprio caminho. Adam
deu a Jane um olhar irritado antes de se voltar para Laura.
     o seguinte: Jane tem um negcio aqui, seu prprio negcio, independente da famlia.
    Eu quero vend-lo. Ser o modo mais fcil. Eu simplesmente abrirei uma nova loja no Maine.
    Uma loja de antigidades  explicou Adam. Antigidades. Histria! Laura pegou na mo de Adam.
     perfeito!
   Adam deu a ela um sorriso brilhante.
    Eu na realidade no sei nada sobre antigidades.
    Voc sabe mais do que pensa, Adam  Laura insistiu entusiasticamente.  Lembra-se do que estava me contando
sobre os estilos de vida nos sculos dezoito e dezenove?
    Com certeza voc  bem viajado  acrescentou Jane.  Deve ter aprendido algo de valor na Europa.
    E voc pode estudar
    No se esquea dos cursos da universidade  Jane emendou.  E nunca subestime Hollis. Aquele velho cavalheiro
me ensinou tudo o que sei, Adam, e eu o considero um patrimnio primordial da loja. Estou absolutamente certa de que ele
ficar com voc.
   Adam recostou-se na poltrona, obviamente repensando tudo.
    Precisaremos de avaliaes  murmurou.  Propriedades, inventrio.
    J esto sendo feitas. Voc vai querer uma auditoria contbil tambm. Por que no fala com seu contador sobre isso?
Vamos deixar que ele faa uma avaliao.
   Adam balanou a cabea.
    Oh, eu no creio que tenhamos que nos preocupar com isso.
    Eu insisto, Adam. Farei disso uma condio para a venda.
   Adam passou a mo no queixo e depois balanou a cabea.
    Deixe-me remoer isso um dia ou dois.
   Jane sorriu e se inclinou para Laura, dizendo em tom de conspirao:
    Eu o peguei!
    Eu disse que pensaria sobre isso,  tudo.
    Eu o conheo. Ele sempre toma uma deciso, depois pensa duas vezes, depois se convence de que esteve certo o tempo
todo. Voc ver.
    O que voc acha?  perguntou Adam, depois de levar Jane at a porta.
   Laura ergueu uma sobrancelha.
    Se voc quer dizer o que eu acho de Jane, eu a acho encantadora.
   Ele sorriu.
    Concordo. Mas eu estava perguntando o que voc acha da idia do antiqurio.
    Ah!  Laura cruzou os braos.  Bem, realmente no  da minha conta.
   Ele deu-lhe um olhar cortante.
    No me faa tirar do ba a atitude militar, Beaumont. Quando eu der uma ordem, eu espero que ela seja cumprida.
Agora me diga o que pensa.
    Eu pensei que voc era o general.
    Eu valorizo sua opinio.
   Laura sorriu, amolecendo toda por dentro.
    At onde eu vejo, nada mais o interessou tanto quanto a possibilidade de ter um antiqurio, Adam. Estou certa?
    Eu acho que sim. O problema  que eu entraria no negcio sem saber nada.
    No, no realmente. H o seu amor pela Histria. Voc disse que queria fazer algo pelo qual pudesse se apaixonar.
    Ento?
    Ento, eu acho que voc deveria seguir seu corao. E onde a paixo verdadeira comea, no ?
    Voc acha que eu deveria seguir meu corao? Seguir o corao pode ser perigoso  ele sussurrou e passou a boca
pela de Laura.
   Ela engoliu em seco.
    Sim, mas tudo o que vale
    Voc sabe que voc vale a pena, Laura? Voc tem alguma idia de como eu a valorizo?
   Ela emitiu um pequeno gemido de desespero e entrega quando a mo dele se apoiou na curva entre seu maxilar e pescoo.
Ser valorizada. Ser querida. Ela levantou a mo em direo ao seu brao, como se fosse rejeit-lo, mas no teve a fora nem o
desejo. Ento ele comeou a beij-la, e era tarde demais.
   Seus braos a puxaram para mais perto, e ele mergulhou repetidamente a lngua em sua boca, a mo deslizando por seu
pescoo e por seu colo at os seios.
    Eu preciso toc-la Oh, Deus, Laura, eu preciso Sua mo se convulsionou em torno do seio dela, depois o deixou
para viajar mais para baixo.
   Ela se afastou depressa quando os dedos dele pressionaram por baixo do elstico de suas calas, mas ele tomou sua boca,
emudecendo qualquer protesto com o mergulho de sua lngua. Ela enterrou os dedos no alto de seu ombro, incerta se queria
empurr-lo ou pux-lo para mais perto. Ele tremia ainda mais do que ela. Ele mergulhou a mo entre suas pernas e a tocou. Ela
gritou, sentindo o prprio calor mido. Ele captou o som dentro da prpria boca, estremecendo enquanto a abria com a ponta
de um dedo e o introduzia nela.
   Foi demais. Laura virou o rosto, ofegando com a invaso. Ele recuou instantaneamente. Pressionando sua face contra a
dela, ele retirou sua mo trmula, sussurrando:
    Eu precisava toc-la, Laura Laura, olhe para mim. Ela virou a cabea timidamente e levantou os olhos devagar,
respirando ofegante.
    Eu a quero tanto
   Ela fechou os olhos, incapaz de suportar a maneira pela qual o desejo adoava sua expresso e aquecia seus olhos. Se ela
olhasse novamente dentro daqueles olhos, entregaria tudo, e isso seria o cmulo do egosmo. Ainda assim no conseguia
suprimir o mpeto crescente de alegria que a preenchia. Ele apoiou a testa na dela, e ela o envolveu com seus braos. Ele
beijou suas plpebras e seu nariz.
    Voc guardou suas coisas?  perguntou carinhosamente.
   Ela balanou a cabea. Ele recuou.
    Faa isso agora. V e guarde tudo.
   Ela deslizou para fora de seu abrao e passou para o canto extremo do sof. No queria diz-lo, mas era necessrio.
Mordeu o lbio trmulo.
    Adam Isso no muda nada. Eu terei que ir, mais cedo ou mais tarde.
    Mais tarde, ento.

   Captulo 10

     Eu insisto.
   Laura olhou para Adam, chocada pelo tom de ao em sua voz.
    Mas  um assunto de famlia.
    Eu sei muito bem disso.
    Uma visita de famlia no  o meu lugar.
    Eu discordo. Eu quero que voc v. Por isso,  o seu lugar. Agora v se trocar, ou chegaremos atrasados.
   Ela se levantou, intrigada com sua insistncia implacvel. Bem, no jogaria o jogo dele.
    Eu no vou, e voc no pode me obrigar.
   Para sua irritao, ele gargalhou e balanou a cabea.
    Laura, voc est comeando a agir e a falar como as crianas. No h nada a temer, sabe? Minha me  uma dama. Ela
no morde.
    Eu no estou com medo!  s que eu prefiro ficar em casa sozinha. Eu quase nunca tenho tempo para mim. Esta  uma
oportunidade perfeita.
    Voc pode ter folga a noite inteira de amanh. V aonde quiser, faa o que quiser.
    No! Voc no entende. Eu quero ficar em casa sozinha. Enquanto voc e as crianas esto em casa, eu estarei Bem,
eu no No estarei sozinha.
    Ento eu levarei as crianas para sair amanh  noite. Voc pode ter a casa toda para voc. Satisfeita?
    Adam, sua me no quer me ver. Sua me quer ver seu filho e os netos
    Oh, mas ela quer ver voc, sim. De fato, ela quer muito ver voc.
   Laura jogou as mos para o alto.
    Isso  absurdo!
    Eu no vejo por qu. Voc cuida de seus netos.  bem natural que ela queira conhec-la, no acha?
   Laura cruzou os braos e apertou os olhos.
    Eu acho que voc no est sendo razovel e no posso evitar me perguntar por qu.
   Adam passou a mo sobre os olhos.
    Est bem. Se voc quiser pensar que eu no estou sendo razovel, que seja. Mas esteja pronta para sair em dez minutos.
Eu mesmo vou cuidar das crianas.
    Adam  ela implorou. Ele ergueu o olhar.
    Dez minutos. Contados.
    Est bem  disse com um ar de tdio.
    Mame vai estar de vestido, mas ela lhe perdoar se usar calas

   Erica sorriu para seu filho. Ele lhe acenou levemente, limpou o joelho esfolado de Ryan, deu uns tapinhas no ombro do
menino, depois observou enquanto ele desaparecia no verde exuberante do jardim da estufa de Erica, seu ltimo ferimento
esquecido no calor do desafio gritado por seu irmo:
    Venha me pegar!
   Adam endireitou-se e voltou para a cadeira posicionada ao lado da espreguiadeira de Erica.
    Crianas so to engraadas  disse ela  ainda assim, eu no o vejo rir tanto h anos.
    As crianas esto em uma idade em que nos divertem muito
    Eu estou surpresa de que voc tenha notado isso. Eu suponho que a encantadora Laura tenha algo a ver com isso.
    Ela mudou completamente a minha vida. Agora eu s preciso achar um jeito de mant-la.
   Erica abriu a boca, mas antes que pudesse comentar algo, o objeto de sua conversa apareceu e foi at  mesa, um sorriso
nervoso na face, para pegar um copo d'gua. Tomou um grande gole, se abanando com a mo.
    Essa estufa  tima! Eu quase j tinha esquecido como  se sentir realmente aquecido.
    Esse lugar  o meu refugio no inverno  Erica disse  e quanto mais velha eu fico, mais eu o aprecio.
   Laura olhou em volta, ainda ligeiramente espantada.
     to incrvel encontrar plantas tropicais crescendo no meio de toda essa neve.
   A neve, de fato, estava empilhada em montes de quase um metro e meio de altura contra o vidro da parede da estufa, mas
em seu interior a temperatura era de 25 graus. Com isso, a casa quente da vov sempre fora o local favorito para as crianas
brincarem. Os gmeos ziguezagueavam entre os vasos de samambaia, enquanto Wendy brincava de cozinha com uma coleo
de vasilhas de plstico e vrias ferramentas do barraco. Laura acabara de voltar de l, onde inspecionara as poes
imaginrias de Wendy. No exato momento em que se sentou na cadeira  frente de Adam, Ryan enfiou a cabea para fora de
uma abertura nas folhas e berrou:
    Uaura! Uaura, vem ver!
   Laura imediatamente saltou da cadeira, mas Adam se inclinou para frente e agarrou sua mo e a puxou de volta.
    Vocs vo acabar com a Laura! Vo brincar um pouco sozinhos!
   Ryan saiu curvado de seu esconderijo, os braos rgidos ao lado do corpo.
    Ah, papai!  reclamou.
    Nada de ah, papai Simplesmente v brincar. Laura vai ficar bem aqui comigo.
    Qual deles a senhora diria que se parece mais com o pai?  Laura perguntou.
   Erica sorriu.
    Wendy Consciente demais do que a cerca, rapidamente ofendida, rancorosa, mas muito, muito amorosa.
    Eu no guardo rancor  Adam objetou.
    No? Talvez devssemos perguntar a seu pai. Adam franziu o cenho.  Como est papai? Erica olhou-o fixamente.
    No sei. Estamos separados, lembra? Adam suspirou.
    Quando ser que essa besteira vai acabar? Voc e papai pertencem um ao outro. O lugar de papai  na liderana dos
negcios dos Fortune. Rocky e Luke merecem uma recepo de famlia, e, j que eu estou arrumando o mundo, Kate deveria
estar aqui. Se Kate estivesse aqui, nada disso estaria acontecendo. Voc sabe disso, no?
   Erica deu um sorriso abatido.
    Na realidade, sim. Kate tinha um modo de colocar sua famlia em ordem Eu gostaria que voc a tivesse conhecido,
Laura querida.
    Eu tenho certeza de que era uma mulher muito sbia. S a herana que deixou para Adam foi suficiente para me
mostrar isso.
    A herana?  Erica perguntou, dando um olhar oblquo para seu filho.
    Eu sempre me questionei sobre aquele par de lbuns Com o olhar abatido, Adam brevemente explicou sobre os
lbuns, nos quais no havia nenhuma foto de um pai com seus filhos.
    Laura descobriu isso  acrescentou.  Eu no tenho dvidas de que Kate queria me mostrar o quanto eu me arriscava
a fazer exatamente a mesma coisa pela qual eu me ressentia com papai.
    Bem a cara da Kate  cismou Erica, e ento voltou um olhar pensativo para Laura.
   Adam sentou-se ereto, subitamente captando o pensamento de sua me.
    Sim, bem a cara da Kate.
   Laura pareceu no entender a concluso deles. Estava ocupada com seus prprios pensamentos, e Adam no precisou se
perguntar por muito tempo sobre o que estava em sua mente.
    Sabe  disse ela, subitamente inclinando-se para frente  no  insolvel. O que vocs precisam  pensar e fazer o
que Kate teria feito. Algum deve falar com o seu pai, algum cujas palavras e opinies importem muito para ele, algum
como voc, Adam.
   Adam recuou.
    Eu? Eu sou a ltima pessoa a quem papai ouviria. Erica o interrompeu.
    Oh, no, pois com todas as suas diferenas, voc pensa que seu pai o pressionaria a entrar na companhia se no
confiasse em voc?
   Adam sentiu um golpe perto do corao.
    Mas, me, o fato  que eu no tenho a inteno de me envolver no negcio de famlia, e voc sabe que papai sempre
seguiu sua prpria opinio.
    Eu no estou sugerindo que voc d a ele aconselhamento sobre negcios  retrucou Laura.  Somente lhe diga que
se importa, que a famlia est com medo, de um modo ou de outro, que o estejamos perdendo.  o que Kate teria feito.
    Eu vou ligar para papai e convid-lo para o almoo amanh.

   Fragmentos de conversa flutuavam no ar, mas Adam os ignorou, procurando seu pai. Seu olhar prendeu-se em uma figura
vestida de preto sentada em uma mesa afastada atrs de uma coluna perto do centro da sala. Algo na mulher to pesadamente
vestida e usando vu lhe parecia familiar, mas antes que pudesse analisar o fato, um movimento no canto de seus olhos o
distraiu. Ele reconheceu o aceno de Jake e comeou a abrir caminho entre as mesas e cadeiras.
   Seu pai estava adiantado  uma mostra de sua ansiedade quanto a esse encontro. Adam sentiu uma alegria e um golpe de
culpa simultneos. Ele reconhecera a felicidade na voz de seu pai quando lhe telefonara marcando o encontro, e isso lhe
mostrou que algo simples como um convite seu para o almoo podia agradar tanto a seu pai  lhe mostrou e o envergonhou,
pois era algo absurdamente fcil de fazer, uma vez a deciso tomada.
   Enquanto se aproximava da mesa, ele desabotoou o terno e sorriu. Jake ficou de p, os dois braos estendidos. Adam se
entregou a um aperto de mos e a um abrao calorosos. Ocorreu-lhe que recebera mais desses ao longo dos anos do que tinha
conscincia. Talvez seu pai no fosse to fechado quanto imaginara.
    Eu temo at tentar adivinhar por que voc me convidou a vir aqui  Jake falou logo que sentaram.  Ser que eu
ousaria sugerir que voc est interessado nas companhias Fortune afinal?
   Adam gargalhou, espantado de ver que sua clera no se acendera  sua reao usual. Balanou a cabea.
    Sinto muito, papai. As companhias Fortune tero que lutar sem mim. O fato  que eu tenho um trabalho, ou ao menos
terei, assim que a venda for concretizada.
   Jake recebeu a notcia com animao inusitada.
    De que tipo de negcio estamos falando? Adam sorriu consigo mesmo.
    Eu descobri recentemente meu talento e paixo por antiguidades  e continuou explicando como decidira comprar o
negcio de Jane, e por que o faria. Para sua surpresa, Jake pareceu aceitar, at mesmo aprovar, sua deciso.
    Eu nunca vi voc to entusiasmado. De fato, eu me aventuraria a dizer que voc est realmente feliz. Voc parece
inteiro, Adam. Eu sei que a morte de Diana o abalou, mas eu sei, tambm, que voc nunca foi feliz com ela. Eu sempre pensei
que o exrcito fosse sua maneira de escapar do casamento.
   Adam estava petrificado.
    Isso  pura insensatez.
   Jack deu de ombros.
    Eu no acho, eu sei do que estou falando, filho. Sei como um homem apaixonado fica, como ele se comporta, quais so
suas prioridades. E o seu casamento no era sua prioridade. Voc fez tudo o que Diana esperava de voc, mas nenhum dos
dois se esforou muito nesse casamento. Eu at mesmo disse uma vez a Diana que ela no deveria deixar voc escapar to
facilmente.
    E o que disse Diana a isso?  Adam perguntou, fingindo pouco interesse.
   Jake suspirou.
    Diana disse que gostava muito da prpria vida, e que se algum estava escapando de algo, esse algum era eu.
   Adam conseguiu dar algo parecido com um sorriso, mas sua voz estava tingida de amargura.
    Bem, eu fico feliz de que ela estivesse satisfeita. Quanto  noo de que eu estava escapando atravs do exrcito
    Voc no precisa justificar nada para mim. Eu s estava tentando provar algo
    E esse algo 
    Voc no estava apaixonado por Diana, mas est por algum agora.
   Adam no poderia ter ficado mais chocado.
    Por que afinal voc me diz esse absurdo?
    Eu reconheo esse olhar.
   Adam ergueu uma sobrancelha ctica.
    Como assim?
    Por causa de sua me,  claro. Adam agarrou a chance de virar a mesa.
    Ento voc est apaixonado pela mame? Voc tem um jeito bem estranho de mostr-lo, voltando para a casa da vov.
   A expresso de Jake era de resignao.
    Meus sentimentos por sua me nada tm a ver com minha separao.
    Ento por que voc foi embora?
   Jake balanou a cabea, e parecia que o peso do mundo repousava em seus ombros.
    Eu no posso lhe explicar, no mais que poderia explicar a ela.
    Voc pode tentar.
   Jake pareceu achar isso quase divertido.
    Voc no confia que eu esteja fazendo o melhor para todos, no mais do que ela, aparentemente.
   Adam soube instintivamente que chegara a hora de mudar o curso de seu relacionamento com o pai. As palavras que ele
teria dito ontem estavam na ponta de sua lngua. Ele estava pronto para avanar, ansioso pela batalha, mas de algum modo um
esprito diferente pouco a pouco tomara posse dele. Adam no queria mais brigar. Ele no mais se sentia compelido a competir
por uma posio. No queria escapar. Ele s queria paz.
   Inclinou-se impulsivamente e agarrou o pulso de seu pai. Sentiu que de algum modo as palavras seriam suficientes.
    Eu confio em voc, papai  disse, devagar, no mesmo tom.  No tenho dvidas de que voc far o que pensa ser o
melhor para todos. Eu acho que foi para dizer isso que vim aqui, e
   Ele limpou a garganta embargada e continuou:
    E que eu Eu o amo.
   Jake Fortune o olhou emocionado.
    Cl Claro que sim! Assim como eu amo voc  ele soltou rpido essas duas ltimas palavras, como se temendo
que elas se perdessem pelo caminho. Aliviado por t-las dominado, ele adotou uma languidez estudada, finalmente largando o
pulso de Adam e balanando negligentemente a mo.
    Isso nunca foi questionado  ele abaixou a cabea, brincando com seu guardanapo e tentando no chorar.
   Adam sentiu uma queimao suspeita no fundo dos olhos e um n subindo garganta acima, mas se forou a engolir tal
amostra de emoo e respirou calmamente.
    Agora que isso j foi dito, ser que eu posso meter meu nariz o suficiente para sugerir que voc volte para casa, ou ao
menos ligue para mame e fale com ela?
   Jake fez uma careta.
    Eu no tenho nada a dizer a ela, Adam. Quero dizer, nada mudou.
    Voc pode lhe dizer o que acabou de me falar. E depois voc poderia ajud-la a planejar a recepo para Rocky e Luke.
   Jake fez outra careta, mas Adam insistiu.
    Luke merece boas-vindas oficiais de nossa famlia, pai, e Rocky merece nossa bno. Alm disso, eu tenho pensado
que poderia ser uma boa oportunidade para que a famlia mostre ao cl nossa confiana em voc.
   Jake olhou longamente nos olhos de seu filho. Sua voz se arrastava reveladoramente quando disse:
    Voc faria isso por mim? Adam sorriu o seu melhor sorriso.
    Todos ns faramos. Eu falei com Caroline sobre isso ainda outro dia. Ela e Nick esto do seu lado, e ela me disse que
Allie tambm. Tenho certeza de que Nathalie e Rachel se sentem do mesmo modo. E se voc pensa que ajudar, eu posso at
chamar a tia Lindsay e a tia Rebeca, tambm. No pode fazer mal dizer a elas que esperamos que nos apiem.
   Jake concordou com a cabea, mas sua expresso continuava solene.
    Eu no sei o que far diferena, Adam. Nathaniel realmente conseguiu abocanhar um pedao dessa vez. Mas voc no
imagina o quanto eu aprecio  interrompeu o que dizia e abaixou os olhos, mas no era necessrio dizer mais nada.
    Voc vai ligar para a mame e dizer-lhe que a recepo est de p, ou quer que eu faa isso?
    Eu o farei  Jake disse, depois de um longo momento.  Mas Adam, voc precisa me dizer algo. O que o
transformou? De onde vem essa nova atitude?
   O garom chegou exatamente naquele momento, inclinando-se, partindo e preparando a comida para servi-los. Adam
sentiu o desejo totalmente estranho de olhar novamente para aquela mulher com o vu. Ele deslizou um olhar por sobre os
ombros, mas a cadeira dela estava vazia.
   Adam balanou a cabea, sorrindo consigo mesmo, e simplesmente disse:
    Coma o seu almoo, pai, e eu lhe direi o que seus netos tm feito.
   Uma meia hora agradvel passou. Quando o garom trouxe a conta, uma batalha positiva se seguiu, que Adam  pela
primeira vez  venceu. Quando eles se separaram um momento mais tarde, Jake parecia estar tendo um pouco de dificuldade
em conter suas emoes.
   Adam estava abrindo caminho novamente entre as mesas para sair, rindo de orelha a orelha, quando um sentimento
estranho subiu por sua espinha. Parou e colocou uma mo na nuca, olhando em volta, confuso. Ele espiou a mulher toda de
negro, de p contra a parede atrs de um vaso com uma planta enorme. Ela estava usando um vu pesado preso a um chapu
de feltro bastante grande que ocultava totalmente seu rosto e cabelo, e ainda assim Adam sentiu um formigamento de
familiaridade. Ela parecia chorar. O leno branco estava em sua mo coberta com uma luva negra que fazia viagens freqentes
para detrs do vu pesado. Ele no podia evitar olhar, mas quando ela fungou, viu que a fazia se sentir desconfortvel e se
adiantou. Se algum compreendia o luto, era ele. Foi somente quando fez um sinal com a cabea para o maitre em sua sada
que descobriu quem essa mulher lhe lembrava. Algo nela, a maneira como se portava, como movia suas mos, se parecia com
Kate.
   Kate. Ele balanou a cabea. Alm de estar com o corao mole demais, ainda por cima estava ficando caduco. Deveria
ser um dos efeitos da vida civil. Ou talvez somente porque Kate deveria ter ficado feliz com o que acontecera ali, naquele dia.
De certo modo, ela comeara tudo com aqueles lbuns de fotos. Ele esperava que ela soubesse como estava resolvendo sua
vida. Esperava que estivesse olhando l de cima para eles, observando e aprovando, feliz de que seu legado de amor estivesse
sobrevivendo a ela. Se Deus quisesse, sobreviveria a todos eles.

   Laura estava nervosa. Mesmo  distncia ela reconheceu o barulho da porta da garagem se abrindo e no suportou esperar
que Adam chegasse ao escritrio. Com os meninos tirando uma soneca e Wendy absorvida em um livro, Laura levantou-se
depressa e quase correu pelo corredor, chegando ao vestbulo no momento em que Adam abria a porta. O rosto dele se
acendeu ao v-la.
    Mal pode esperar para saber o resultado de sua intromisso, hein?
    Eu no me intrometi! Eu simplesmente dei uma sugesto Como foi?
   Para a consternao dela, Adam enfiou a cabea no corredor e primeiro olhou em uma direo, depois na outra.
Aparentemente satisfeito, entrou no vestbulo, esfregando as mos. Laura estava impaciente, mas Adam adiantou-se e a puxou
para si.
    Voc estava certa  disse ele, suavemente, levantando a mo livre para pegar seu queixo e inclin-lo.  Foi
maravilhoso. Obrigada.
   Laura exalou um suspiro, subitamente consciente de como seus seios se amassavam contra o peito dele.
    Eu estou incrivelmente feliz de que tudo tenha acabado bem, Adam. De certo modo eu sabia
    Oh, fique quieta  ele disse ele, enquanto a sua boca descia em direo  dela.
   Laura sabia que devia rejeit-lo, mas no conseguia faz-lo. Suas mos subiram para o peito de Adam, depois continuaram
at envolverem seu pescoo e invadirem o cabelo eriado em sua nuca.
    Papai?  A pequena voz quebrou o clima. Adam e Laura se afastaram rapidamente. Wendy cruzou os braos e bateu o
p com impacincia.
    Papai, o que voc est fazendo com a Laura? Adam deu uma olhada para Laura. Ele sorria, com uma expresso
maldosa em seus olhos.
    Adam, no ouse!
   Ele a ignorou e se aproximou do rosto da filha.
    Eu a estava beijando  disse, simplesmente. Ento, se endireitando, deu um puxo no brao de Laura. Ela gritou e caiu
contra ele. Ele a envolveu com ambos os braos e deu um slido beijo em sua boca, antes de voltar o olhar para Wendy.
    E fazendo isso muito bem, tambm. Agora v embora. Para o espanto eterno de Laura, Wendy deu de ombros e sorriu
maliciosamente:
    Est bem  e desapareceu, cantando. Adam deixou cair a cabea para trs e riu.
    Eu acho que ela aprova  disse a uma Laura estupefata. E antes que ela pudesse fechar a boca, ele a cobriu com a dele.
    Adam, Adam, ns no devemos. Logo eu terei Ele a segurou pelos braos e a sacudiu, s uma vez,
    No! No agora. Apenas me deixe ser feliz. Pelo amor de Deus, s uma vez, me faa feliz!
   Nem mesmo a deciso mais frrea teria resistido a essa splica, e a de Laura no era muito firme. Pela primeira vez em
muito tempo o medo a deixou. Ela o abraou fortemente, deixando a paixo lev-la onde quisesse por uma vez. Um
pensamento que nunca ousara ter antes comeou a se formar. Talvez no tivesse que ir embora, afinal. Doyal podia no
encontr-la. Talvez ele tivesse se cansado de procur-la. Ela podia estar desistindo de tudo que sempre quisera ao sair dali, e
por nada. Como podia desistir de Adam e das crianas, pela mera possibilidade de que Doyal a encontrasse? Como poderia ela
abrir mo deles?


   Captulo 11

    Meus queridos!  Erica parou  porta da sala de jantar e sorriu para os netos. Suas feies clssicas estavam to
compostas e serenas como sempre, mas Laura sentiu uma excitao mal controlada nos olhos verdes brilhantes. Adam ergueu-
se e levantou um brao em sinal de boas-vindas, indicando uma cadeira perto dele.
    Voc gostaria de jantar conosco, me?
    No obrigada, querido. Eu s vim para dizer que seu plano funcionou. Seu pai concordou com a recepo.
   Os olhos de Adam brilharam.
    Sim, eu sei.
    E eu queria lhe agradecer, Laura.
   Ela ficou um pouco confusa. No fizera nada.
    Por que, exatamente?
   Erica sorriu, seu olhar bastante extico dirigindo-se ao filho.
    Oh, por muita coisa Mas especialmente por ter convencido meu filho a fazer as pazes com o pai.
   Seu olhar dirigiu-se a Adam novamente.
    Eu nunca o vi to Emotivo. Voc o ajudou muito. Adam abaixou a cabea e pigarreou.
   Erica juntou as mos em um gesto gracioso que assinalou a mudana de assunto.
    Agora, em relao  recepo De toda a famlia, Adam, voc  quem conhece Luke melhor para me aconselhar
sobre o que fazer
   Adam deu de ombros.
    Eu no penso que faa diferena, me. Luke  um homem de origem negra e com um profundo sentido de
responsabilidade social. Francamente, eu acho que ele vai se sentir desconfortvel, no importa o que voc sirva.
    Entendi  Erica mordeu o lbio, pensativa.  Bem, talvez seja melhor ficar simplesmente nos canaps, ento. Nada
que ostente demais,  claro.
    Bem, se eu a conheo  Adam beijou sua cabea  ser algo bem elegante.
    Elegante, mas descontrado. Agora sente-se e coma o seu jantar. Eu s quero abraar meus netos antes de ir embora.
   Adam se sentou enquanto sua me se debruava para envolver Ryan em seus braos e beij-lo. Depois fez o mesmo com
Robbie. O abrao de Wendy incluiu um sussurro no ouvido da av. Uma sobrancelha se ergueu, enquanto o olhar de Erica
passava de Adam a Laura.
    Oh, ele fez isso?  Ela deu uma risada e sussurrou algo no ouvido da neta.
   Laura sentiu o rosto brilhar de calor. Ela tinha poucas dvidas em relao a que segredo Wendy acabara de contar, e s o
pensamento daquele pequeno interldio no vestbulo trouxe de volta cada sensao dos beijos de Adam, intensificando seu
rubor. Erica beijou Wendy e dirigiu-se para Laura, os olhos verdes brilhando de aprovao.
    Jake diz que voc faz milagres  disse a Laura, gentilmente.  Eu acho que ele tem razo  e, para sua profunda
surpresa, ela se inclinou e a abraou com ternura. Laura pode somente olhar, pasma, para Adam, que sorria reservadamente.
Erica retirou-se como uma rainha.
    Bem, eu realmente preciso ir. Aproveitem o jantar, queridos.
   Ela deu uns tapinhas no ombro de Adam.
    Mantenham suas agendas abertas. Eu ligarei em breve com uma data marcada.
    Com certeza  prometeu Adam, comeando a se levantar novamente.  Eu a levarei at a porta.
    Oh, no  protestou Erica, movendo-se em direo  porta.  Comam os seus jantares. Eu sei o caminho  ela
soprou um beijo e saiu rapidamente de vista, com uma ltima piscada para Wendy.
   Laura olhou para Adam.
    Voc a fez muito feliz.
    Eu? Voc  quem faz milagres.
    No seja bobo.
    Quem est sendo bobo? Ningum sabe melhor do que eu a diferena que voc fez nessa famlia.
   Laura balanou a cabea.
    Adam, voc  o
   Ele colocou o dedo sobre seus lbios.
    E quem voc acha que fez a diferena em mim? Quem me salvou do completo caos?
    Voc no est se dando o devido crdito
   Ele sorriu e voltou sua ateno para o jantar, mudando de assunto.
    Eu estou realmente muito ansioso em relao a essa recepo. Ns vamos nos divertir muito.
    Tenho certeza que vocs vo  murmurou Laura.
    No, ns vamos.
    Ns?
    Voc no acha que eu iria sem voc, acha? Laura ficou atordoada.
    Oh, mas Adam,  uma reunio familiar. Tenho certeza que sua me no tem a inteno de me incluir, e no tem
problema, eu entendo perfeitamente.
     claro que ela tem a inteno de incluir voc, e se por algum subterfgio de lgica ela no o fizesse, eu a incluiria.
    Mas Adam, eu no posso
    Voc pode e voc vai. Certamente no vai desapont-la aps ter me feito reconciliar com papai. Eu o convenci a fazer
essa recepo, se voc se lembra, por sua influncia.
    Bem, claro que voc deve ir. Mas eu no sou da famlia, Adam. A festa de gala da famlia Fortune no  o meu lugar.
    Voc vai assim mesmo, porque eu no vou sem voc.
    Mas, Adam
    Eu no vou discutir com voc sobre isso, eu a quero comigo, e minha me espera v-la l. Eu tenho certeza de que
papai tambm. Sua pequena fazedora de milagres
   Laura no pode evitar um sorriso. Ele a queria consigo, e se seus pais no estavam chocados nem o desaprovavam, bem,
ento s havia um problema, e ela odiava tocar no assunto. Ainda assim Mordeu o lbio e disse suavemente:
    Adam, eu no tenho nada para vestir. Ele balanou a mo negligentemente.
    Oh,  isso. No se preocupe com nada. Ns vamos fazer compras.
   Para ele, o problema estava resolvido, mas no para Laura. Ela gostava da sensao de casamento que ele parecia
estimular, mas ela no o envergonharia diante de sua famlia, e ela no gostava da idia de gastar o dinheiro dele com algo to
frvolo quanto um vestido de festa. Ela se perguntou se havia economizado o suficiente para comprar algo apropriado.
    Eu acho que posso fazer isso  Ocorreu-lhe que poderia ligar para Jane ou mesmo para Erica e pedir um conselho
sobre o que deveria usar. Sem dvida teria que ir at a cidade para achar alguma coisa. O velho medo de ser vista por Doyal
rosnou dentro dela, mas Laura lutou contra ele. A rea de Minneapolis/ Saint Paul era suficientemente grande para que ela no
encontrasse Doyal.
   A mo de Adam encontrou a sua e a arrancou de seu devaneio.
    Hei, est tudo bem. Ningum vai morder voc A no ser eu.
   Ele levantou a mo de Laura e, brincando, a mordeu. Eletricidade passou por ela. Os olhos presos nos seus, ele deu um
beijo no lugar exato que tocara com os dentes, e ela estremeceu de paixo reprimida.
   Nesse momento Wendy gritou, de seu lugar na mesa:
    D um beijo nela de novo, papai!
   Adam subitamente deixou cair a mo de Laura, cujo rosto foi inundado de rubor. Ryan colocou ambas as mos sobre a
boca, como se temesse que o beijo de Adam de algum modo fosse atingi-lo, enquanto Robbie gritou e caiu na gargalhada,
fazendo sons de beijo com a boca. Adam lanou um olhar de desculpas a Laura, a mo descendo por baixo da mesa para tocar
seu joelho, antes de olhar as crianas com censura.
    Comam seu jantar!  ordenou diretamente, depois piscou. Trs olhares se voltaram novamente para trs pratos mal
tocados. Adam inclinou-se para Laura, levantou sua mo livre para esconder a boca e sussurrou em seu ouvido:
    Os beijos ficam para depois.
   A ansiedade passou por seus terminais nervosos e a fez mais uma vez enrubescer. Sua boca se abriu em um sorriso
cmplice, apesar do olhar direcionado de maneira estudada ao seu prato. Ela sentia que no importava o quanto ela tentasse,
no podia evitar de amar Adam Fortune, e seria necessrio um verdadeiro milagre para que seu corao no se partisse caso
tentasse.


   Captulo 12

   A vida era boa.
   Laura folheava uma revista no sof, escutando Wendy murmurar baixinho consigo mesma, enquanto brincava de colorir
um novo livro. Ela era o retrato de uma criana contente, e Laura sentiu um brilho quente de orgulho por isso.
   Adam entrou na sala. Andava s cegas, o nariz enfiado em um livro que prometia ser o estudo definitivo sobre moblia do
Imprio Americano. Bateu com a canela na quina da mesa de caf, mas simplesmente resmungou e mudou de direo,
finalmente deixando-se cair cuidadosamente na poltrona. Nem bem havia sentado, cruzou as pernas e virou a pgina.
   Laura sorriu consigo mesma. Ela no ousaria dizer que ele estava satisfeito, pois uma tenso sexual se erguera entre eles,
uma paixo crescente que ela temia explodisse a qualquer momento, mas ele era paciente, amoroso e gentil com ela. Ela o
observava com uma expresso amorosa de onde estava sentada, e ele abaixou o livro e voltou o olhar como se tivesse sentido o
dela. Ela abaixou a cabea, sorrindo consigo mesma, e perguntou se ele vira os meninos. Ele apertou os olhos em sinal de
cumplicidade e respondeu que, acreditasse ou no, eles estavam brincando calmamente no quarto.
   Oh, sim, a vida era boa, muito boa.
   Seus olhos estavam midos e brilhantes quando Wendy se levantou.
    Isso  para voc, papai.
   Adam ps o livro de lado e estudou com interesse genuno o desenho simples que ela colorira, antes de elogi-lo. Wendy
ficou radiante e visivelmente tocada. Deitou-se em seu colo e apontou um ponto definido no papel.
    Eu sa um pouco das linhas aqui.
   Adam virou a cabea, como se procurando um ngulo diferente.
    Humm, sim, voc saiu, mas sabe de uma coisa? Ficou bom. Eu acho que precisvamos desse toque de cor extra aqui.
   Ela levantou e jogou os braos em volta do pescoo de Adam.
    Eu o amo, papai.
    Eu a amo tambm, querida. Oua. Eu tive uma boa idia!
   Com um olhar na direo de Laura, ele colocou a mo em copa e sussurrou algo no ouvido de Wendy.
   Ela desceu de seu colo e deitou-se de bruos, abrindo o livro novamente e olhando ansiosa na direo de Laura, que teve
poucas dvidas de que logo receberia um quadro esmeradamente colorido.
   Nem um minuto depois, uns sons abafados, seguidos de um grito de terror, estraalharam o silncio. Laura e Adam
saltaram ao mesmo tempo e correram para o quarto dos meninos. Adam chegou l somente um instante antes dela e
escancarou a porta. Laura arfou  vista do pequeno corpo encolhido sem naturalidade no cho, ao p da cama, rodeado de
estilhaos de vidro leitoso.
    Robbie!  Adam caiu de joelhos ao lado do filho.  O que, pelo amor de Deus, voc estava fazendo? Voc tem um
galo do tamanho de uma bola de golfe aqui atrs!
   De repente ele puxou o menino, que chorava, para um abrao rude. Foi nesse ponto que Ryan espiou cuidadosamente por
sobre a borda da cama, os olhos enormes de medo. Laura o ergueu cuidadosamente para longe dos vidros e o levou para o
corredor. Adam levantou-se e a seguiu, com Robbie no colo.
    Eu tenho uma bolsa de gelo em meu quarto! Laura colocou Ryan de p, mas o manteve de mos dadas com ela. Juntos,
eles foram atrs de Adam at a sute principal, onde ele colocou Robbie ao lado da cama. Ele apontou um dedo para Ryan,
depois para o local perto de Robbie. Ryan obedientemente subiu para a cadeira perto de seu irmo, enquanto Adam foi pegar a
bolsa de gelo, que deu a Laura, pedindo que a enchesse enquanto ele conversava com os meninos. Quando ela voltou da
cozinha, Adam j conseguira montar a histria.
   Os garotos comearam a jogar blocos de madeira um no outro. Um deles atingiu e quebrou o lustre. Robbie se assustou e
caiu da cama. Adam colocou os dois de castigo por uma semana e sentou-se ao lado de Robbie para lhe aplicar gelo no seu
galo.
   No passou muito tempo e os dois, j refeitos do susto, saram para se juntar  irm no escritrio. Adam aproveitou para se
deitar ao lado de Laura.
    Eu acho que perdi dez anos de minha vida, quando abri a porta e o vi cado ali
   Laura fez meno de se levantar.
     melhor eu limpar esse vidro.
   Os olhos dele tomaram os seus, e ele balanou levemente a cabea, colocando o brao suavemente em torno dela e a
puxando para si. Ele se deitou sobre ela e a beijou, enquanto a mo escorregou pelos quadris at sua coxa para dobrar seu
joelho e entreabrir suas pernas. Ao parar de beij-la, ele comeou a se mexer ritmicamente sobre ela.
   Laura levantou os braos e envolveu seu pescoo. Sua cabea estava nas nuvens, e cada vez que ele se esfregava contra
ela, girava um pouco mais rpido. Em segundos, ela estava em xtase. Esqueceu das crianas. Esqueceu a possibilidade de
estar sendo injusta com ele, de o colocar em perigo, de isso no ser certo, de partir seu corao. Esqueceu de tudo e de todos,
exceto desse homem em seus braos, de sua fora, da potncia reprimida pela gentileza, do desejo que emanava dele, do calor
que a derretia. Simplesmente se entregou totalmente, pela primeira vez, ao amor por Adam Fortune. Tudo dizia isso, cada
gemido que ele emitia, cada movimento, o bater de seu corao contra o peito dela, a rapidez e a intensidade de sua respirao,
a inclinao de seus lbios e o varrer de sua lngua. Ele lhe disse de todas as maneiras possveis como ela era boa em am-lo.
    Meu Deus! Como sonhei com voc nesta cama! Ele se ergueu nos cotovelos, as mos tirando-lhe os cabelos do rosto.
    Eu quero fazer amor com voc  ele disse  quando for o momento certo, quando puder ser perfeito. S no sei
quanto tempo ainda poderei esperar
    Eu sei  ela suspirou.  Minhas noites tm sido
    O qu?
   Mas o bom senso estava voltando, e com ele a vergonha. Suas faces ruborizaram. Ele riu, deliciado.
    Voc  preciosa! Eu no posso dizer-lhe o quanto eu
     Papaaaaiiii!
    Oh, cus! As crianas!  Laura comeou a se desvencilhar dele, querendo ficar de p, mas seu corao batia
desenfreado.
   Adam xingou baixinho e rolou para longe dela, sentando-se na borda da cama, passando as mos nos cabelos.
    Papai! Wendy no quer deixar a gente colorir o livro dela!
    Sim! Wendy no quer deixar a gente colorir o livro dela!
   Adam inclinou-se para frente, desconfortvel.
    Bem, Wendy est trabalhando em um projeto especial
    Mas ns queremos colorir!
    Sim, ns queremos colorir!
   Laura saiu da cama, estendendo as mos para os meninos.
    Talvez ns possamos achar outra coisa para colorir. Vamos ver, est bem?
   Adam olhou para Laura, uma sobrancelha erguida.
    Que tal parar para jantar?
   A reao das crianas no deixava margem para dvida.

   Laura se perguntou o que ela estava pensando quando viu o pequeno restaurante onde eles se encontraram naquele dia, h
muitas semanas, atrs. Wendy o reconheceu, tambm.
    Olhem!  Ela esticou o brao, apontando.
    Ali  onde ns pegamos Laura!
    Ali  onde ns conhecemos Laura  corrigiu Adam.  O que voc acha, querida? Quer parar para um lanchinho? 
ele no acrescentou que gostaria muito de abaixar alguns narizes.
   Laura mordeu o lbio, depois deu de ombros.
    Por mim tudo bem.
   Adam sorriu para si mesmo. Talvez fosse maldade de sua parte, mas no podia evitar querer exibi-la um pouco. Queria
que vissem que ela estava feliz e era amada, para no dizer que fizera milagres com sua famlia. Achou que tinha esse direito,
j que deixara Laura convenc-lo a no delatar o gerente para o proprietrio. Ele enfiou o carro em uma vaga e se virou para as
crianas.
    Agora me escutem. Se vocs no se comportarem o melhor que puderem neste lugar, Laura vai ficar envergonhada, e
eu vou ficar zangado. Entenderam?
   A expresso obstinada no rosto de Wendy lhe disse que ela entendera perfeitamente.
    Aquele homem nojento est l?  perguntou.  Aquele que ficou zangado com Laura?
    Eu no sei, querida, mas se ele estiver, ns o faremos ficar bonzinho.
   Uma das garonetes reconheceu Laura imediatamente. Deu uma cotovelada na companheira, e um sussurro na orelha
alertou outra, que saiu correndo, aparentemente para espalhar a notcia. Laura olhou para Adam, insegura. Encontraram uma
mesa e se acomodaram, depois de despir as crianas de seus pesados casacos de inverno.
    O que vocs desejam?  perguntou a garonete. Adam passou um brao distraidamente pelos ombros de Laura.
    O que voc quer, querida? Eu acho que vou comear com caf.
    Caf est bem. Crianas, vocs querem chocolate?
   Ryan e Wendy quiseram chocolate quente imediatamente, mas Robbie preferiu um refrigerante. Adam insistiu que estava
frio demais para isso, depois negociou um compromisso na forma de um copo de leite.
    No faa o chocolate quente demais  Laura avisou  garonete.  Coloque um pouco de leite frio antes de traz-lo,
por favor.
   A mulher deu a ela um olhar desconcertado, mas o cacau veio bebvel, a uma temperatura segura. Naquele momento eles
tinham cardpios espalhados diante deles.
    Ns queremos pedir  informou Adam, sem olhar para cima. A mo de Laura passou por seu joelho e apertou-o em
um aviso. Ele olhou para cima e encontrou o gerente de p.
    Como vai?  disse, cheio de gentileza.  Voc se lembra de mim? Meu nome  Fortune, Adam Fortune. Voc ainda
deve estar precisando de uma ou duas garonetes, pois est servindo s mesas  mas ainda est empregado, afinal.
   A mo de Laura se apertou convulsivamente com o ataque sutil. Todos ali sabiam que Adam poderia ter conseguido que
ele fosse demitido. Um simples telefonema de um membro da famlia Fortune expondo uma queixa teria sido suficiente. Adam
estava somente lhe informando que isso ainda era possvel, se ele sasse da linha novamente. Voltou sua ateno para Laura.
    O que voc gostaria de comer, querida?
    Qual  a sopa do dia?
    Ervilhas.
    Est bem. Eu gostaria de sopa de ervilhas com uma poro de po de alho, por favor. Ah, e um prato grande de batatas
fritas para ns todos dividirmos.
    Eu tambm gostaria da sopa e de um sanduche.
   Quando o pedido chegou, o gerente nervoso comeou a se virar, mas Adam o impediu erguendo negligentemente sua mo.
    O senhor no vai cumprimentar uma ex-empregada? O rosto plido do homem enrubesceu, e ele inclinou a cabea para
Laura.
    Lau ah, madame. A senhora est bem, eu imagino? Laura sorriu inocentemente.
    Muito bem, obrigada.
   Adam colocou para trs um cacho sedoso de seu cabelo.
    Uma declarao branda, se eu j ouvi alguma. Ela fez maravilhas com essa famlia. No fez, crianas?
   Wendy olhou para o homem, os olhos se apertando perigosamente. Adam quase riu, pensando, no pela primeira vez, que
ela seria exatamente to formidvel quanto Kate fora um dia.
    Ns amamos Laura  disse, quase beligerante.
    Realmente ns amamos  Adam acrescentou suavemente, s para os ouvidos de Laura.
    E ela nos ama!  anunciou Ryan alto.
   Laura sorriu e levantou o dedo para os lbios em sinal de silncio. Ryan calou-se imediatamente. Ela deu um olhar
conciliatrio ao seu antigo patro por um dia.
    Tudo terminou da melhor maneira  disse ela.
     bom ouvir isso. Eu senti pela maneira pela qual tudo aconteceu naquele dia.
    Eu no  disse Laura, baixinho, o olhar indo para o rosto de Adam.
   Quarenta minutos mais tarde, eles se espalharam pela calada. Laura sentia-se abafada e quente, por dentro e por fora. A
sobremesa viera por conta da casa e ela gostara imensamente disso. Adam tambm, ela pensava. As crianas teriam sorte se
no tivessem dor de barriga, mas ela estava quase feliz demais para se preocupar com isso. Eles estavam no carro quando
Wendy colocou a mo na boca, rindo.
    O que  to engraado?  Adam perguntou.
    Aquele velho mau. Ele foi bem bonzinho dessa vez.
    Ele  mais inteligente do que parece  Adam falou.  Todos vocs me deixaram muito orgulhoso l. Obrigado. Agora
vamos para casa.
    Eu  que deveria estar dizendo obrigada  disse Laura. Casa, pensou Laura. Essa palavra nunca deixava de aquec-la,
e ainda assim um certo desconforto passou por sua espinha. Instintivamente ela olhou para o restaurante. A mesma garonete
que sara correndo quando ela aparecera estava l, com os braos cruzados, olhando para ela. Laura nem mesmo lembrava seu
nome, e ainda assim seu interesse parecia intenso. Por qu? Talvez fosse simplesmente inveja. Afinal, Adam era um homem
extremamente bonito, e ainda por cima um Fortune. Laura afastou a incmoda sensao de alarme e entrou no carro, dizendo a
si mesma o quanto era feliz.


   Captulo 13

   Laura olhou para seu reflexo no espelho da cmoda. Ela parecia  e se sentia  uma outra pessoa, desde o coque
elegante de seu cabelo preso para o alto at o tecido pintado de seus sapatos. Ento isso era ser uma Fortune. No pensou que
conseguiria suport-lo todos os dias, mas podia ser divertido de vez em quando, e naquela noite ela tinha a inteno de se
divertir. Naquela noite, ela era Cinderela no baile. Seu prncipe encantado a esperava no corredor. Laura inspirou
profundamente e saiu do quarto.
   O prncipe encantado havia enfiado os principezinhos em seus casacos e agora estava de joelhos, tentando faz-los ficarem
quietos o tempo suficiente para aboto-los. No momento em que viu Laura, Wendy suspirou e correu para ela.
    Laura! Voc est to linda!
   Adam parou o que estava fazendo e se levantou. Voltou-se, e Laura o viu observ-la, boquiaberto. Ela sentiu uma onda de
orgulho e depois puro amor enquanto ele caminhava em sua direo, os braos abertos.
    Meu Deus!  ele tomou suas mos.  Voc parece uma rainha, minha rainha  fez uma reverncia galante.
    Voc tambm no est to mal. Na verdade, voc est estonteante.
   Ele riu, passando a mo por uma lapela brilhante, depois ajeitou a gravata.
    Por aqui. Hoje ns vamos viajar com estilo. Mame insistiu.
   Ele abriu a porta da frente e permitiu que as crianas corressem pela entrada em direo  limusine que os esperava na
entrada de carros. Laura suspirou enquanto o motorista saa e abria a porta para as crianas, curvando-se em deferncia.
   Enquanto a ajudava a entrar no carro, Adam se inclinou e lhe sussurrou no ouvido:
    Relaxe, amor. Voc vai se sentir perfeitamente  vontade.
   A viso da manso Fortune apagou qualquer outro pensamento de sua cabea. Era magnfica, parecia um palcio e
brilhava suavemente  luz de inmeros holofotes, a ampla escadaria subindo graciosamente at um conjunto de colunas que
protegia portas duplas de bronze e janelas pesadas cobertas de chumbo, moldadas como pedras de diamantes. Erica insistira
em usar a casa da famlia para a recepo, dizendo que a queria rodeada pela memria de Kate.
   Laura estremeceu, no de frio, mas com a estranha sensao de que algum a observava. Doyal? Ser que ele a achara,
afinal? Seus pensamentos voltaram-se  garonete do restaurante. Ser que ela alertara Doyal? Mas isso era absurdo. Enquanto
Adam ajudava as crianas a sarem do carro, Laura deixou o olhar passear vagarosamente pela fachada da grande casa. Em
uma gua-furtada abaixo do beiral do andar superior, ela viu o movimento de cortinas contra a luz, e o n de medo em seu
peito comeou a se desfazer. Uma criada, algum que meramente queria ver os Fortune chegando em toda pompa, deveria
estar observando. Quando Adam passou o brao por sua cintura e a levou adiante, ela lhe deu um sorriso genuno, mais uma
vez ansiosa por aquela noite de magia.
   Erica apareceu de uma porta cncava larga e aberta  esquerda da sala.
    Estamos aqui, queridos, no salo grande  Erica parou e abriu os braos, a boca ligeiramente entreaberta enquanto os
levava para dentro.
    Vocs esto magnficos, todos vocs  Adam a beijou.  Eu nunca o vi to lindo!  pegou sua face com uma das
mos, voltando-se em seguida para Laura.
    Meu querido, voc est muito lindo, mas ela..!  virou-se novamente para Adam.  Ela poderia ser uma modelo da
Fortune.
    Oh, no!  Adam passou um brao pela cintura de Laura e a puxou contra ele, rindo.  Tire logo isso da sua cabea.
O nico Fortune para o qual ela ser modelo sou eu!
   Laura deu um suspiro embaraado. Mas Erica parecia simplesmente divertida.
    Eu deveria ter adivinhado que voc diria isso  franziu o nariz para Laura.  Laura querida, se voc tiver qualquer
ambio secreta de ser modelo, ns passaremos por cima dele, eu prometo.
    Oh, no! No, eu no poderia. Simplesmente no tem nada a ver comigo.
    Essa  a minha garota  Adam disse, e depois, para sua vergonha, a beijou suavemente na boca. Erica voltara a
ateno para as crianas, mas Laura no teve realmente muita esperana de que ela no o tivesse notado! E ainda assim ela no
piscara ao ver seu nico filho explicitamente beijando a bab de suas crianas.
   Adam a levou para a sala que sua me identificara como o salo grande. Foi ali, na entrada, que ele finalmente tirou seu
casaco e o deu a um criado que esperava. Logo suas mos se moveram para os ombros de Laura. Ela desafivelou o fino cinto e
esperou. Subitamente foi como se todos os olhos da sala estivessem sobre eles, e s ento Adam tirou o casaco dos ombros
dela, fazendo-o deslizar pelos braos. Laura sabia que o zumbido resultante de comentrios era exatamente a inteno dele,
mas ela s podia se perguntar por que, lanando-lhe um olhar intrigado por sobre seus ombros.
   Ele cobriu os braos nus com as mos e inclinou-se para perto dela, para sussurrar.
    Quando a mulher  to bela como voc, o homem no pode resistir ao desejo de exibi-la.
    Eu o amo  as palavras jorraram de sua boca em uma pressa sussurrada. Ela nem mesmo as sentira em sua lngua
antes de terem deslizado para fora.
   Adam a abraou e a beijou profundamente na boca. O brilho de seus olhos dourados era agora uma chama.
   Assim que entraram na sala foram rodeados por membros da famlia Fortune.
    Al, Adam.
    Michael, bom ver voc. Julia. Ah, Caroline. Nick! Como vai voc? Est bem, est bem, todo mundo. Aqui est ela.
Permitam-me lhes apresentar minha mulher, Laura Beaumont. Laura, essa  a minha famlia, a maior parte dela, ao menos.
   Comeou mostrando as irms, primos e esposas, mas Laura simplesmente no conseguia absorver tudo. No ouvira
nenhuma palavra aps Permitam-me apresentar-lhes minha mulher. No a bab ou minha amiga ou simplesmente
Laura, mas minha mulher.
    Eu acho que ns estamos sendo chamados  Adam murmurou a certa hora, balanando a cabea afirmativamente para
uma mulher alta, magra, terrivelmente graciosa que abria caminho na direo deles.
    Querida, eu quero que voc conhea minha tia. Doutora Lindsay Fortune Todd, Laura Beaumont.
    Como vai, Doutora Todd.
    Oh, no, chame-me de Lindsay.
    Ento, por favor, me chame de Laura.
    Claro. As crianas parecem maravilhosas, Laura. Eu no penso que j tenha visto Wendy brilhar tanto. Mas vocs esto
perdendo o grande momento.
   Abriram caminho at Erica e as crianas.
   Elas estavam com Rachel Fortune Greywolf e seu marido, um negro alto e de beleza rude, Luke Greywolf. Ela estava
obviamente grvida, apesar de sua elegncia, o cabelo cor de vinho cortado na altura do queixo, ondeando em torno de seu
rosto magro, com grandes olhos marrons. O casal era a razo de ser de toda aquela festa.
    Luke  um mdico  Lindsay disse para Laura, enquanto se aproximavam.
   Luke levantou-se para acolher Adam e Laura. Adam o cumprimentou com alegria.
    Voc parece timo! O casamento com a minha irmzinha deve ser bem menos perigoso que o namoro.
   Rocky deu um soco em seu brao.
    No seja chato, irmozinho  com um movimento da cabea, tirou o cabelo do rosto e voltou os olhos grandes e
escuros para Laura. Sorriu.  Voc deve ser a fazedora de milagres.
    Rocky, comporte-se!  disse Adam.
    Eu no estava sendo m  que tenho ouvido tanto sobre a maneira como voc amansou meu irmo
    Papai ama Laura  anunciou Wendy diretamente, como se o desafiando a neg-lo.
   Laura ficou boquiaberta, mas Adam simplesmente deu uns tapinhas na cabea da filha. Depois Ryan gritou:
    Ele a beija!
   Laura queria que o solo se abrisse e a engolisse antes que seu rosto ruborizasse, e Adam sinalizou para o menino abaixar o
tom de voz. Mas foi Wendy quem tapou a boca de Ryan quando ele ameaou falar novamente.
     melhor vocs ficarem bonzinhos e pararem de fazer Laura ficar vermelha!
   Houve gargalhadas, conversas precipitadas e murmrios em volta deles, e ento a voz de Jake Fortune soou acima de
todas:
    Eu suspeito que cumprimentos sero dados aqui logo, logo.
   Jake Fortune se aproximou de Laura sorrindo agradavelmente.
    Obrigado, Laura. Voc me permite cham-la de Laura, no ? Considerando como voc fez meu filho feliz, parece tolo
trat-la de outro modo.
    Claro
   Com um tapa nas costas de Adam, Jake passou por eles. De repente, ficaram sozinhos no meio de todas aquelas pessoas.
    Adam, todas essas pessoas Sua famlia parece pensar que vamos
   Ele sorriu para ela e a abraou.
    Uma suposio natural, eu diria, perfeitamente razovel, muito correta.
   Todo o seu corpo formigava de um modo como nunca sentira antes. Ele tinha a inteno de se casar com ela. Era o que
aquela noite significava para eles. Estava lhe mostrando que queria se casar com ela e que sua famlia aceitava perfeitamente a
idia. Seus olhos se encheram de lgrimas.
    Oh, Adam
   Ele encostou a testa na dela.
    Se voc vai partir meu corao, pelo amor de Deus, no o faa agora.
   Ela no sabia o que fazer, somente o que sentia. Deixou os braos deslizarem pelo torso dele e se permitiu buscar abrigo
em seu amplo trax.
    Eu o amo  sussurrou.
    Eu estou contando com isso  ele respondeu, e ento pareceu perceber algo interessante logo atrs dela.
    Ah  disse, estendendo as mos para pegar um par de taas de champanhe da bandeja que flutuava, passando por eles,
na mo de um garom vestido de branco.
    E exatamente o que esse momento festivo pede Colocou uma delicada taa de cristal na mo de Laura e depois
brindou.
    A ns  e seus olhos prometiam o mundo e muito mais.
   Ele ficou ao seu lado por toda a noite, ignorando as conversas sobre Mnica Malone que os cercavam e sussurrando
sugestivamente algo sobre mostrar-lhe o resto da casa, tantos quartos de dormir, ou sobre ir embora mais cedo.
    Mame ficar com as crianas.
   Esse comentrio parecia proftico, j que primeiro Ryan, depois Robbie, e finalmente Wendy desanimaram, bocejaram e
se aconchegaram em um colo ou em um canto de um dos vrios divs espalhados por toda parte da sala luxuosa.
    Deixe que durmam aqui  instava Erica.  Amanh de manh eu os levo para casa.
   Adam riu maliciosamente, ignorando a sugesto sussurrada por Laura de que eles poderiam simplesmente ir embora.
    Obrigado, mame.
   Foi ento que Caroline se aproximou e deu um tapinha no ombro de seu irmo, sussurrando algo em seu ouvido. Adam fez
uma careta, mas concordou.
   Caroline dirigiu-se a um canto da sala, onde Nathaniel Fortune reinava. Adam pegou a mo de Laura e a levou com ele
atrs de sua irm, murmurando algo sobre apoio moral. Laura notou que Caroline estava buscando outro apoio, tambm. Allie
estava l. A irm gmea de Rocky e seu lindo marido, Rafe. Sua irm Natalie se juntou a eles, assim como a irm de Jake,
Rebecca, e, surpreendentemente, Jane. Foi Caroline que pegou o leo em sua toca, com Nick s costas dela. Ela tomou posio
diante do tio que estava pronto, os braos cruzados, o olhar severo e forte.
    Nate, ns queremos dar uma palavrinha com voc enquanto papai est fora da sala.
   Nate mostrou clara surpresa, mas foi s um instante at que discernisse o propsito dessa confrontao.
    Voc me surpreende, Caroline  disse, amargo.  Voc, mais do que todos, deveria saber em que posio precria ele
nos colocou!
    Essa  a sua interpretao  ela devolveu suavemente.  Ns estamos aqui para inform-lo de que no vamos ficar
indiferentes enquanto voc empurra papai para fora da companhia!
   Nate lanou um olhar depreciativo a todos eles.
    Adam  disse  , Natalie, vocs no sabem o suficiente sobre o negcio Fortune para julgar, e voc, Jane
   Adam adiantou-se para interromp-lo.
    Eu conheo meu pai  disse, direto.  E eu sei de sua dedicao a essa famlia e a esse negcio.
    Eu s quero dizer  acrescentou Jane gentilmente  que este  um momento em que a famlia deve se unir.
   Nathaniel fez uma careta.
    Voc no v que o negcio est em risco por causa Foi um rudo externo que fez Nathaniel abaixar o tom desta vez:
vozes elevadas em clara confrontao no vestbulo. Subitamente a confrontao passou para o salo, na figura de um homem
desajeitadamente magro, muito alto, de cabelos louros alisados e aparncia quase cadavrica. Puxou uma mulher para dentro
da sala com ele, se desviando das mos do mordomo.
   Deixando Erica de p na porta, Jake abriu caminho e postou-se diante do criado perturbado.
    O que voc pensa que est fazendo?
    Jake?  A voz da mulher, arrastada e trmula, atravessou a confuso.   voc, no ?
   Jake olhou para ela.
    Eu a conheo?
    Um irmo deve conhecer a prpria irm  disse o homem alto com cara de bandido e com ar de escrnio.
   O queixo de Jake caiu. Um trinado de riso desconfortvel passou em volta da sala. Erica subitamente apareceu ao lado de
Jake, parecendo traz-lo de volta ao controle.
    Saia daqui  ele ordenou  antes que eu chame a polcia.
   A mulher, que era alta e magra, jogou o cabelo marrom escuro para trs dos ombros, olhando ansiosamente em torno da
sala. Vestia uma jaqueta amarela com uma saia curta preta e saltos muito altos. Seus olhos estavam sombreados com
maquiagem bastante pesada verde-musgo, e os lbios pintados de vermelho brilhante. Vestia-se de modo jovem demais para
os seus quarenta e poucos anos.
    Se voc somente nos deixar explicar  o homem louro dizia, mas de repente a mulher brandiu o dedo apontado para
outra pessoa.
    Ali!  gritou, e um momento mais tarde correu para Lindsay, que compreensivelmente retrucou, afastando a invasora.
    Voc no v?  Voltou-se para Jake, e se aproximou mais de Lindsay.
    Voc no v?
   Foi Erica quem gritou:
    Meu Deus, elas poderiam ser gmeas!
    Mas ns somos gmeas!  a mulher exclamou, atirando os braos em volta da mulher atnita de quem dizia ser a irm.
    Eu no posso acreditar  disse Laura, balanando a cabea enquanto descia os degraus. Adam, ao seu lado, concordou,
passando o cachecol em volta do pescoo.
    Nada como o aparecimento sbito de uma gmea perdida h muito para estragar uma festa.
    Coitada da Lindsay  Laura suspirou.  Qual era o nome daquele homem? Potts?
    Wayne Potts  Adam confirmou  e a mulher  Deus, ser que aquela pode ser realmente minha tia?  disse se
chamar Tracey Ducet.
    De Nova Orleans  murmurou Laura.
   Adam deu a mo  Laura para que ela entrasse na limusine, e entrou em seguida. Colocou o brao em volta dos ombros de
Laura e a puxou para si, suspirando.
    Nunca deixe dizerem que uma reunio da famlia Fortune  desinteressante.
    Bem, isso chega a ser um eufemismo. Uma gmea perdida! Oh, e no podemos nos esquecer, tambm houve a
confrontao com o querido tio Nathaniel!
   Adam rangeu os dentes.
    No posso dizer que esteja desapontado por isso ter ficado em segundo plano.
    Mas uma irm gmea perdida!  exclamou Laura, encostando a cabea em seu brao. Ela tomara champanhe
suficiente para faz-la se sentir bem leve e quente por dentro.
   Adam mordiscou sua orelha, dizendo:
    Eu no quero pensar nisso, em nada disso.
    Mas, Adam, toda sua famlia est em polvorosa. Ele se afastou um pouco para olh-la nos olhos, a mo livre
descansando em sua cintura.
    Polvorosa  o modo da famlia Fortune. Ela deu uma gargalhada. Ele beijou seu nariz.
    Eu quase tenho inveja de Jane por sua mudana para o Maine.
    Oh, Adam, no. Sua famlia  importante para voc. Ele a envolveu em seus braos.
    Escute, Laura. Eu no posso fazer nada em relao a Tracey Ducet ou Mnica Malone. O que quero dizer  que desejo
me concentrar em algo um pouco mais perto, em casa  aqui, de fato, se voc me entende
    Eu entendo
   Ele inclinou a cabea e a beijou. Foi um apelo longo, completo, lnguido, que parecia comear e recomear e comear
novamente, mas nunca terminar de verdade, at que a limusine parou e o motorista bateu no vidro. Ele saiu do carro e a
ajudou, a mantendo junto dele. Ela apoiou a cabea em seu ombro e caminharam at a porta da frente. Entraram e ele foi se
desfazendo das roupas enquanto seguiam para o quarto.
    Esta noite voc  minha, toda minha.
   Ela no teve nem coragem nem vontade de discutir o assunto quando finalmente chegaram.
    Espere  sussurrou.  Eu quero acender a lareira. Adam se ajoelhou e mexeu as brasas com uma p antes de colocar
um punhado de gravetos e algumas toras. As chamas pegaram e danaram alegremente, quando ele se levantou, Laura j
estava nua.
   Ele caminhou at ela, se desfazendo do resto de suas roupas. Envolveu-a em seus braos, passou as mos em suas costas
nuas, suspirando com o prazer da carne contra carne. Seu beijo era furiosamente apaixonado, embriagante.
   Ele colocou uma das mos entre as pernas dela. Ela gritou e deixou a cabea cair para trs, os olhos bem fechados,
enquanto ele explorava a fenda mida que dava acesso ao corpo dela. Ele estava de p, esfregando o corpo no dela enquanto
sua mo fazia mgicas. Ele passou o brao livre em torno de seus ombros e tomou sua boca em um beijo de lbios, dentes e
lngua, sedutor e cheio de promessas, investindo, sugando e mordiscando no mesmo ritmo de sua mo.
   O toque de Adam era mais potente e seu beijo mais excitante do que o melhor champanhe. Quase sem avisar, os joelhos de
Laura se dobraram, mas ele estava ali e a pegou no colo. Ele a deitou sobre as cobertas e se estirou ao seu lado, as mos
passeando vidas por seu corpo, dos seios s coxas. Moveu-se entre as pernas de Laura at se encaixar em cima dela. A
sensao de tanta pele e msculos rijos fez com que Laura fechasse ainda mais os olhos. Ento ela sentiu as mos dele entre as
coxas, posicionando seu membro liso e quente.  agora, disse ela a si mesma.  agora. Sentiu seu corpo se abrir para ele,
esperando, ansioso. Mas ento as mos dele passaram por seu cabelo e tmporas, o peso do corpo apoiado nos braos.
    Olhe para mim  ele sussurrou. Moveu a bacia, e a dureza lisa rompeu a abertura macia do corpo dela. Laura parou de
respirar, a cabea girando.
    Olhe para mim, Laura  ele ordenou novamente, e somente ento ela notou que no o fizera. Abriu os olhos, sentindo
as pestanas pesadas e quentes. O rosto dele estava burilado pela luz do fogo. Os dedos de Adam tocaram a pele de suas
tmporas, mantendo seus olhos abertos, enquanto flexionava a bacia contra ela. Um olhar de puro xtase passou pelos
msculos de seu rosto.
    Eu a amo.
   Ela passou os braos e as pernas em volta dele e chorou, enquanto ele continuava, fundindo suas prprias almas.


   Captulo 14

   Laura cantarolava enquanto colocava a loua suja do caf da manh na pia. Adam estava  mesa, debruado sobre um
livro de Histria. Um tomo de estilos de carpintaria norueguesa, sueca e dinamarquesa esperavam ao seu lado.
    Adam, so quinze para as oito.
    Nesse caso, eu j estou indo  colocou os livros no canto da mesa, se levantou rpido e a agarrou pela cintura.
    Eu pensei que voc estivesse com pressa  ela disse, passando os braos por seu pescoo.
   Ele mordiscou sua orelha, sussurrando:
    Eu nunca estou apressado demais para voc.
    No foi o que voc disse a noite passada.
    Eu pensei que eles nunca mais dormiriam
    Eram seis e meia, Adam. Ele suspirou.
    Voc tem razo. Eu sou um pai terrvel.
    Voc  um pai maravilhoso  ela lhe disse, e foi beijada por isso. As coisas j estavam esquentando
consideravelmente quando uma vozinha jogou gua fria na fervura.
    Papai, quando Laura vai me levar para a escola?
    Agora mesmo, querida. Corra e pegue seu casaco. No momento em que ela desapareceu pela porta, Adam gemeu e
puxou Laura novamente para seus braos e a beijou rapidamente.
    Pode ser que eu chegue tarde. Ns teremos que verificar todo o inventrio, todas as avaliaes e a auditoria antes da
concluso do negcio amanh.
    Eu guardarei seu jantar. Ele a beijou, sussurrando.
    Eu vou sentir saudades. Volto para casa assim que puder.
    Dirija com cuidado.
    Voc tambm  parou na porta e virou-se novamente.  Laura, voc j renovou sua carteira de motorista?
   Ela sentiu as cores fugirem de seu rosto. Esforou-se por dar um tom despreocupado  sua voz.
    Eu me esqueci completamente.
    Bem, cuide disso, por favor. Antes de receber uma multa.
   Ela tentou no pensar na mentira com a qual precisava viver, mas sabia que logo precisaria lhe contar. Ser que ficaria
desapontado com ela se soubesse com que tipo de homem se envolvera antes dele? Ser que preferiria mand-la embora em
prol da segurana de seus filhos? No queria pensar que poderia os estar colocando em perigo. Queria crer que Doyal desistira
de procurar por ela, que podia ficar em segurana ao lado de Adam pelo resto de sua vida.
   Wendy bateu com o p, impaciente.
    Laura, vamos!
   Laura afastou as preocupaes e correu para fora da cozinha. Concentrou-se na direo, consciente demais de que no
podia correr o risco de outro encontro com o guarda de trnsito. Parou junto ao meio-fio em frente  escola de Wendy
exatamente na hora. Inclinando-se, alisou o cabelo da menina e ajeitou seu pregador, antes de beijar sua bochecha e levantar o
seu capuz.
    Tenha uma boa manh, querida. Eu a verei ao meio-dia.
   Wendy deu um impulso e abriu caminho para fora do carro, depois correu pela entrada, a pequena mochila batendo em
suas costas. Laura no pode evitar pensar no quanto mais feliz a menina parecia nos ltimos dias. Ser que ela havia feito isso?
Seria, orgulho demais de sua parte creditar a si mesma um pouco da felicidade de Wendy?
   Olhou para os meninos, que brincavam tranqilamente com os carrinhos que ela colocara nos bolsos de seus casacos.
Tomou nota mentalmente disso, enquanto entrava com a perua na faixa de trnsito. Talvez devesse manter uma bolsa com
pequenos brinquedos no carro. Quando parou o carro no sinal da esquina, decidiu que falaria sobre a idia dos brinquedos com
Adam, para ver o que ele pensava disso.
   Estava sorrindo consigo mesma quando olhou para a direita, verificando o trnsito. Depois voltou-se para a esquerda, e o
seu mundo de sonhos de amor eterno desabou. L, na faixa de pedestres, usando uma jaqueta arruinada aberta sobre uma
camisa de flanela e jeans, estava ningum mais, ningum menos que Doyal Moody.
   Por um momento ela se sentou, imvel, incapaz de acreditar no que seus olhos viam, mas que o seu corao j lhe gritava
ser verdade. Era estpido, terrivelmente estpido, pois no momento seguinte o olhar de Doyal fixou-se no carro que ficara
parado por tempo demais no sinal. Ele saiu correndo, o rosto contorcido em um riso selvagem que parecia imobiliz-la. Ela
pisou no acelerador sem nem mesmo olhar o trnsito. Os pneus cantaram. Cabeas se voltaram enquanto acelerava, No estava
certa, mas pensou que mais de um carro freou bruscamente, quase se chocando com o dela.
    Laura!
    Uau!
   Ela girou o volante e deu a volta na esquina na direo oposta  que normalmente iria. Mas isso no enganaria Doyal por
muito tempo. Os Fortune eram os cidados mais visveis da cidade. Ele poderia encontr-la em questo de minutos se somente
fizesse as perguntas certas s pessoas certas. Tinha no mximo algumas horas. Os meninos. De algum modo precisava
proteger os meninos. Para onde os levaria? Em casa no estariam seguros por muito mais tempo.
   O pnico a tomou. Estava dirigindo rpido demais pelas ruas adormecidas da cidade, mas no registrou o fato. S
conseguia pensar em fugir, em colocar toda a distncia humanamente possvel entre ela e Doyal. Quando o carro de polcia
apareceu, vindo em sua direo, seu primeiro pensamento foi jogar-se em seu caminho e dizer tudo o que sabia. Mas e Adam e
as crianas? Se Doyal soubesse sobre eles, ele os usaria para puni-la, e ainda assim, naquele momento, a polcia representava
segurana. Ela praticamente se ps de p nos freios. O carro da polcia freou violentamente e derrapou at parar ao seu lado.
Ela deu um olhar rpido para o rosto do policial Raymond Cooper e lgrimas de gratido escorreram pelo seu rosto. Depois,
uma onda de nusea a invadiu, e ela soube o que precisava fazer. Saiu do carro e inclinou-se, vomitando o caf da manh no
cho. Ele estava ao seu lado em um instante.
    Laura, querida, voc est doente?
   Ela fechou bem os olhos e comeou a falar rpido.
    Terrivelmente, terrivelmente doente. Eu estava com medo de no conseguir chegar em casa. Foi algo repentino. Meu
estmago e E minha cabea. Oohh
    Eu vou chamar uma ambulncia.
    No! Eu Eu quero dizer Eu s preciso me deitar, e.. e os meninos Se Se voc pudesse nos levar para casa. Eu
vou ligar para a me de Adam. A senhora Fortune saber o que fazer e E ela levar os meninos.
   Cooper balanou a cabea.
    Eu no sei, Laura.
   Ela recorreu  splica desavergonhada.
    Por favor! Oh, por favor! Eu s quero ir para casa! As lgrimas pareceram confundi-lo. Ele deu uns tapinhas
desajeitados em seu ombro.
    OK. S espere eu avisar.
    Obrigada. Oh, obrigada. Ele caminhou at o carro.
    Voc acha que pode estacionar perto do meio-fio?
    Sim, mas rpido. Por favor, rpido!
    Est bem, no vai levar nem um segundo.
   Ela apoiou a cabea na direo enquanto ele voltava ao seu veculo, mas no havia tempo para alvio. Doyal podia
aparecer a qualquer momento e reconhecer o carro. Ela dirigiu depressa a perua at o meio-fio, fora da faixa de trnsito. Os
meninos estavam balbuciando perguntas, mas ela os ignorou at que o carro estivesse estacionado. Ento simplesmente disse a
eles que fariam um passeio no carro da polcia. Eles deram vivas. Felizmente, tudo aquilo era uma grande aventura para eles.
Cooper chegou e a ajudou a transferir os meninos e suas cadeirinhas para o banco traseiro de seu carro. Ela teve o cuidado de
manter seu olhar afastado e um brao dobrado sobre o estmago. Em alguns instantes, eles estavam voltando pelo caminho
que fizeram. Laura encolheu-se, abaixando-se no assento, tremendo com os efeitos do choque.
    Voc est com calafrios  disse Cooper. Ele se inclinou atrs do assento e tirou um cobertor verde grosseiro. 
Cubra-se com isso.
   Laura pegou o cobertor agradecida e envolveu sua cabea e ombros com ele, como um xale. Se encontrassem Doyal
novamente, talvez ele no a reconhecesse.
   Eles chegaram em casa, que ficava fora da cidade, sem outro incidente. Nunca ela parecera to querida a Laura. Raymond
Cooper a ajudou a colocar os meninos para dentro, depois insistiu em chamar a me de Adam pessoalmente. Laura lhe
agradeceu profusamente e saiu para o banheiro, para fingir que estava vomitando. Aps o que pareceu uma eternidade, Erica
Fortune bateu na porta.
    Laura? Querida, venha aqui para eu dar uma olhada em voc.
   Laura no duvidava de que seu rosto abatido confirmaria a histria da doena. Deixou um brao cruzado por cima do
estmago e se apoiou na parede do corredor.
    Graas a Deus  disse, mantendo distncia de Erica, como se com medo de contagiar a mulher mais velha com a
doena.
    O policial Cooper ainda est aqui?
    No, eu mandei aquele jovem gentil embora. Ela suspirou aliviada, apesar da culpa por t-lo usado to
vergonhosamente.
    Ser que a senhora poderia levar os meninos para sua casa?
    Claro, mas
    E pegar Wendy ao meio-dia. Erica emitiu um rudo de impacincia.
    Sim, querida, no se preocupe com as crianas. Mas, e voc? No pode ficar aqui sozinha assim.
   Laura gemeu.
    Oh, Erica, por favor. Eu s quero ir para cama e puxar as cobertas para cima da cabea. O pior j passou, e agora eu s
preciso de sono. Alm disso, eu no posso expor toda a famlia a esse vrus.
    Eu acho que voc deveria chamar Adam.
    No! Hoje no. Este dia  importante demais para ele. Alm disso, o que ele poderia fazer, a no ser me ver dormir?
   Erica pareceu considerar a resposta, uma unha perfeitamente pintada pressionando o queixo.
    Bem, a cozinheira chegar logo. Se ela quiser dar uma olhada em voc de vez em quando
    Eu tenho certeza de que Beverly no se importar  Laura lhe disse, aproveitando a afirmao.  Provavelmente ela
vai querer me fazer um de seus chazinhos quentes tambm, e  exatamente disso que eu preciso. Agora v, e leve esses
meninos com voc. Por favor.
   Erica concordou e abriu seus braos em um gesto de impotncia.
    Eu sinto muito que voc no esteja bem.
    Obrigada, somente cuide de meus meninos.  Ocorreu-lhe subitamente que nunca mais os veria, e lgrimas se
juntaram em seus olhos vermelhos.
    V direto para a cama  ordenou Erica.
    Est bem.
   Os gmeos se foram sem olhar para trs, deliciados com essa mudana em sua rotina. Laura arrastou-se at a porta e
observou pelo olho-mgico at eles estarem seguros dentro do carro de luxo da av. Depois apoiou a testa na porta e chorou
por tudo o que estava perdendo.
   Finalmente ela se controlou e foi para o telefone. Primeiro ligou para Beverly, dizendo que no viesse de jeito nenhum e
usou sua falsa doena como razo. Depois ligou para um pequeno hotel no lado mais longnquo de Minneapolis e reservou um
quarto. Finalmente chamou um txi e foi fazer as malas. No levou muito tempo para jogar seus pertences na mala. No viera
com muito, e no pretendia partir com nada alm disso. Em um mpeto de sentimentalismo, colocou seu vestido rosa e seu
casaco na cama, os sapatos ao lado deles e as bijuterias no travesseiro. S levou as roupas ntimas. Aps ter molhado as roupas
na cama com suas lgrimas, carregou a mala para o corredor e retesou os ombros para enfrentar a provao que viria.
   Pegou todo o dinheiro que guardara e, em seguida, escreveu um breve bilhete e o deixou na gaveta onde guardava o
dinheiro. Percorreu o quarto pela ltima vez com o olhar. Ali, naquela cama, Adam fizera amor com ela. A luz e o calor
daquela lareira havia brilhado em sua pele. Suas roupas haviam ficado espalhadas por aqui, ali e ali. Sua cabea descansara
naquele travesseiro. Seu corao conhecera a verdadeira alegria exatamente naquele lugar.
   Com lgrimas rolando pelo rosto, voltou-se e deixou tudo para trs. Era seu maior e final presente para aqueles que amava.
Segurana. Era tudo o que lhe restara para dar.

   Adam entrou na casa pela garagem, se perguntando por que o carro no estava ali naquela hora da noite. Eram quase dez
horas. As crianas no deviam estar acordadas, mas assim mesmo com certeza Laura no as deixara sozinhas. Com certeza
tivera algum problema mecnico e chamara algum para ajudar. Ele sentiu um baque de culpa por no ter estado perto e 
disposio, mas sorriu maliciosamente. Pediria desculpas de uma maneira deliciosa.
   Colocou o casaco e a pasta no armrio do vestbulo e correu para o escritrio. Soube antes de chegar l que ela no o
estaria esperando. A sala estava escura, a televiso desligada. Uma pequena luz brilhava na cozinha. Ele passou pela porta
basculante. A luz acima do fogo estava ligada, mas nada mais. As louas do caf da manh ainda estavam empilhadas na pia.
O que acontecera a Beverly? O que acontecera ao almoo e ao jantar? Seus cabelos se eriaram na nuca. Ele precipitou-se para
fora do cmodo e voou pelo corredor.
   O treinamento venceu o medo ao se aproximar do quarto de Wendy. Ele parou e se apoiou na parede por um momento.
Era loucura. Nada poderia ter acontecido com sua famlia no curto espao de um dia. Ainda assim Ele se controlou e foi, na
ponta dos ps, at o quarto de sua filha, ligando o abajur ao lado da cama. Ela estava por fazer, mas Wendy no se encontrava
l. Saiu correndo daquele quarto para o outro. O quarto dos meninos estava em condies idnticas, camas por fazer, porm
vazias. Algo estava errado.
   Ele precipitou-se para o corredor e depois para a porta de Laura, e a escancarou.
    Laura, Laura, me responda!
   Soube pela prpria sensao, na escurido, que ela no estava l, e, assim mesmo, precisou ver. Atrapalhou-se com o
interruptor da luz do teto. A claridade inundou o quarto. A cama de Laura estava quase feita, seu vestido, casaco e sapatos
arrumados sobre ela. A porta do armrio estava aberta, mostrando cabides vazios.
    Deus, no! Laura, no!
   Ele abriu as gavetas da penteadeira. Vazia. Vazia. Todas vazias. Fechou-as novamente. Uma por uma. Ela se fora! Como
ousava deix-lo agora? Devia saber o quanto ele a amava, o quanto precisava dela. E seus filhos? Deixara que a amassem.
Deixara que precisassem dela. Como podia partir sem avisar? Ele no conseguia acreditar. Por um momento, a raiva
sobrepujou suas emoes. Ele saltou a distncia de dois passos at a cama dela, agarrou o abajur na mesa de cabeceira e o
jogou violentamente na parede. A cpula saiu. A base de vidro se estilhaou, mas isso no melhorou as coisas. Ele se inclinou
e puxou as roupas espalhadas sobre a cama. Rasgou o vestido com raiva e o perfume nico de Laura tomou o ar, enchendo sua
cabea e depois seu corao.
   Precisava pensar. Precisava raciocinar. Mas nada fazia sentido. Ainda naquela manh ela prometera estar l quando ele
voltasse para casa. Ainda naquela manh E ela no teria levado as crianas consigo. No partiria sem lhe deixar nada. Onde
estavam seus filhos? Levantou-se e se forou a ir para seu prprio quarto, arrastando o vestido em sua mo. Por um momento,
no conseguia pensar por que razo viera ao quarto, mas ento se voltou e percebeu a secretria eletrnica em sua
escrivaninha. A luz vermelha estava acesa, indicando que uma mensagem fora deixada. Ele rebobinou a fita com as mos
trmulas e a ouviu. A voz de sua me o saudou.
    Aqui  Erica. Estou ligando para saber de Laura. Espero que voc esteja dormindo, querida, e que esteja se sentindo
melhor agora. As crianas parecem bem, sem sinal de doena. Ligue-me para informar se voc est bem, querida. At logo.
   As crianas. As crianas estavam com sua me. Nenhum sinal de doena Ser que Laura estava doente? Parecia
absurdo. A fita emitiu um bip, indicando outra mensagem. Sua me novamente.
    Laura, eu estou ficando realmente preocupada. Wendy disse que algumas crianas na escola viram um homem correndo
atrs de seu carro no cruzamento. Por favor, me ligue imediatamente.
   Um homem? Um homem na escola perseguira seu carro? Ele balanou a cabea. No acreditava que Laura o tivesse
deixado por causa de outro homem. No podia acreditar nisso. Quem, ento, a perseguira? E por qu?
   A terceira mensagem era de Beverly.
    Laura, senhor Fortune, eu estava pensando se devo vir amanh. Voc no disse nada sobre isso quando ligou mais cedo
hoje, Laura. Espero que esteja melhor. Algum, por favor, me ligue. Obrigada.
   Ento Laura ligara para Beverly e lhe dissera que no viesse naquele dia, supostamente porque ela, Laura, estava doente.
Mas, se Laura adoecera, onde estava? Por que teria partido e levado todas as suas roupas?
   A mensagem final fez seu sangue congelar.
    Adam  dizia a voz de seu pai  sua me est muito preocupada. Ela mandou um homem at sua casa para ver como
Laura estava, mas no havia ningum l. Disse que Laura havia passado mal mais cedo hoje, e ligou para todos os hospitais na
rea e para a polcia. Sua perua est abandonada na rua. Um policial aparentemente trouxe Laura para casa mais cedo, mas
agora ela se foi, desapareceu. Enfim, est tudo confuso.  melhor voc nos ligar, filho, ou, melhor ainda, vir para c
imediatamente.
   Adam largou o vestido no cho e comeou a se dirigir para a porta, mas de repente parou e se voltou. Se Laura se fora e
no pretendia voltar nunca, precisaria de dinheiro. Abriu a gaveta da escrivaninha onde sabia que ela guardava tudo que
economizara trabalhando. Nada. O dinheiro no estava l, e em seu lugar havia um pequeno pedao de papel branco. Ele o
tirou cuidadosamente, os dedos tremendo tanto que teve que recomear duas vezes at conseguir desdobr-lo.

   Eu lhe devo mais do que poderei jamais pagar. Eu sinto muito, meu amor. Tentei ficar. Esperava ficar. Mas no era
para ser. O passado me encontrou, e eu preciso ir embora por causa de vocs. Por favor, no tente me achar. Eu sei que voc
far o que puder para fazer com que as crianas entendam. Fique em segurana e feliz.
   Laura

   Feliz? Ele pensou. Ser que ela no sabia que no podia ser feliz sem ela? Mas a palavra reveladora era em segurana.
Por que ele no estaria em segurana? Releu alto uma parte da carta. O passado me encontrou, e eu preciso ir embora por
causa de vocs. Passou a mo pelo cabelo e andou lentamente pelo quarto at se sentar na borda da cama. O que isso
significava? Quem era o homem do cruzamento? Por que no confiara nele o suficiente para lhe contar o que a ameaava em
seu passado?
   Oh, Deus! Ele sentia que Laura estava em perigo, perigo terrvel, muito terrvel, do qual tentava proteg-lo e s crianas.
No importava o que tivesse escrito, ele precisava encontr-la. Precisava encontr-la e traz-la para casa. Antes que fosse tarde
demais.

    Voc viu o homem, Rob? Robbie deu de ombros, sonolento.  Num sei.
    Tente pensar sobre isso, filho. Voc viu algum na rua?
    Oh, aquele homem  Ryan disse, se sentando um pouco mais reto na cama.  Ele apontou para nosso carro.
    Laura correu muito!  contou Robbie, ansioso.  Ns fomos uuuu eeee!  Ele imitou a curva na esquina.
    Quando Laura passou mal?  perguntou Adam, incisivamente.
   Os meninos se entreolharam e ergueram os ombros.
    Quando o policial nos parou  comeou Ryan.
    Ela saiu e vomitou!  Robbie terminou.
    E foi a que o policial levou vocs para casa? Ambos concordaram vigorosamente. Adam olhou para sua me, que
estava de p atrs dele.
    Voc sabe o nome dele?
    Humm Crocker. No, Cooper.
   Raymond Cooper. Sim, isso fazia sentido. Se Laura pudesse ter convencido qualquer um a lev-los para casa, esse algum
s podia mesmo ser Cooper. Mas o que a fizera correr pela cidade assim? O que a fizera ficar doente? Medo. Medo por sua
vida. Fora isso o tempo todo. Ela no estivera economizando para ir  universidade. Estivera economizando para o caso de
precisar fugir. Fora por isso que no prometera ficar. No tinha nada a ver com ambio. Tinha a ver com a vontade de ficar
viva  e de proteger sua famlia. Ela devia ter passado mal de medo, mas tivera a presena de esprito de se livrar do carro no
qual o seu perseguidor a vira, e encontrar um outro modo de voltar para casa. Primeiro ela afastara as crianas para segurana
delas, depois se assegurara de que Beverly no estaria na casa, caso ele a seguisse at l.
   Adam se levantou e distraidamente passou a mo na cabea de seus meninos gmeos, depois os colocou na cama e os
beijou.
    Eu vou colocar a sua irm na cama  ele disse, sorrindo.  Depois eu vou pegar Laura e traz-la para casa.
Aproveitem a estada com sua av, est bem?
   Ryan assentiu com a cabea e rolou para o lado, dobrando as mos por baixo da bochecha, mas Robbie olhou para seu pai
com olhos bem abertos e preocupados.
    Onde est Laura?
   Adam alisou novamente o cabelo desarrumado de seu filho.
    Eu acho que ela foi embora para nos proteger do que a estava fazendo passar mal  disse, cuidadosamente. Robbie
pareceu satisfeito com isso. Voltou as costas para seu irmo e fechou os olhos.
    Eu no gosto disso  disse, sonolento.  Diga para ela no fazer isso de novo.
   Adam sorriu um sorriso torto. Ele lhe diria. De algum modo, a encontraria e lhe diria. Faria com que compreendesse que,
no importa o que ou quem ela temia, no poderia deix-los novamente. Nunca mais poderia deix-los.

   Adam se levantou com as mos nos quadris e disse a seu pai.
    A polcia no far nada at que ela esteja desaparecida por 24 horas. Nem mesmo uma ocorrncia. O policial Cooper
disse que ela estava realmente doente, mas acho que estava aterrorizada. Acho que por causa daquele homem que a perseguiu
no cruzamento. Acho que ela tem fugido dele, e quando ele a encontrou, ela fugiu para proteger a mim e s crianas. Acho que
ele representa perigo para ela. Ela no teria ido embora por nenhuma outra razo.
   Jake concordou, pensativo.
    Eu compreendo seu raciocnio, mas voc tem certeza de que deve ir atrs dela? Se o perigo for real,  real para voc e
as crianas, tambm. Se no for o que voc pensa, ento bem
   Adam suspirou. Eram duas da madrugada, e ele estava exausto. Mas mentalmente, no havia como descansar. Inspirou
profundamente e se sentou na cadeira junto de seu pai. Inclinou-se para frente, os cotovelos nos joelhos.
    Ela me ama, papai. Eu sei que ela ama a mim e aos meus filhos. E eu sei que ela est em perigo. Voc no pode esperar
que eu simplesmente fique sentado aqui parado, pensando.
   Jake balanou a cabea.
    No, no, claro que no. O que voc quer fazer?
    O policial Cooper e eu concordamos que se ela estiver fugindo de algum, vai tentar se esconder na multido. Eu acho
que ela foi para a cidade. Agora mesmo, ao menos, deve estar escondida em algum motel isolado, ou algo assim. Eu temo que,
se esperarmos, ela fuja novamente, ou se mude para um apartamento, onde seria infinitamente mais difcil encontr-la  ou
pior. Ns precisamos ach-la agora.
   Jake levantou a cabea.
    Ser preciso um exrcito para encontr-la assim.
    Se os Fortune no puderem levantar um exrcito, ningum mais pode. Se os Fortune no podem exercer suficiente
influncia para que a polcia aja, ento a polcia no pode ser movida.
   O sorriso de Jake tinha um toque de ironia:
    Ser que  meu filho finalmente pedindo para usar o poder dos Fortune?
   Adam engoliu em seco. As lgrimas lhe subiram aos olhos.
    Eu nunca fiquei to feliz por ser um Fortune em minha vida! Eu nunca mais vou desdenhar do poder da minha famlia
novamente. Foi para isso que Kate e vov trabalharam. Foi para isso que voc deu sua vida. Eu vejo isso agora. Eu entendo,
finalmente, por que o poder  almejado, por que precisamos dele. E Laura me deu esse entendimento. Por favor, papai, voc
precisa me ajudar a encontr-la.
   Jake levantou-se e endireitou os ombros. A fora emanou subitamente de seus olhos e de sua postura cansada. Deixou cair
a mo nos ombros de Adam.
    Ns a encontraremos, filho, e quem quer que seja esse canalha que est atrs dela, ns o esmagaremos como a um
inseto. H somente um problema.
    Sim?
    Case-se com ela depois disso, sim? Ser mais fcil proteg-la uma vez que a tivermos trazido para dentro do redil. Ser
parte de ns, ento, famlia, e o que tivermos, ela ter tambm. Ns devemos isso a ela, eu devo isso a ela.
   A mo dele apertou o ombro de Adam.
    Droga, eu devo mais a ela do que posso dizer, e nunca esquecerei disso, dou minha palavra de Fortune.
   Jake riu e jogou seu brao em tornou das costas de seu filho. Eles saram, lado a lado, ambos Fortune, e pela primeira vez
compreenderam exatamente o que isso representava.


   Eplogo

    Foi uma busca to bem coordenada quanto a invaso da Normandia. Uma equipe de investigadores particulares armados
com descries e muito dinheiro passou a rea a pente fino. Companhias de txi foram contatadas. Motis foram revistados. O
prprio Adam acompanhou o investigador, que arrancou o antigo patro de Laura e seus ex-colegas de suas camas. Enquanto
isso, uma busca computadorizada comeou. Antes do meio-dia do dia seguinte, eles haviam comeado a montar a histria e
tinham em mos uma cpia da carteira de motorista do Colorado de Laura, que era vlida, tornando ainda mais plausvel p
medo de Adam de que o perigo fosse srio. Ele s podia pensar em uma razo para Laura ter mentido ao dizer que sua carteira
tinha expirado: no queria que ela passasse pelo computador de ningum. Estava se escondendo de algum, algum com o
poder de feri-la. Uma equipe de investigadores j estava a caminho de Denver, no esforo de descobrir quem poderia ser essa
pessoa. Ainda assim, Adam no podia afastar a sensao de que o tempo estava se esgotando. Bebia caf, acompanhava o
trabalho e exigia respostas de cada um que chegava ao alcance de sua voz. S podia rezar para que isso fosse suficiente.

   Laura ensopara o travesseiro com suas lgrimas, e muito tempo antes do amanhecer j abandonara a esperana. Qual era a
razo? Sem Adam e as crianas, sua vida no fazia sentido, afinal. Ela no tinha a energia emocional de fugir para lugar
nenhum. Se tivesse, teria pensado melhor e no teria tomado um nico txi at esse motel mal conservado. Teria usado outro
nome, e no Laura Fortune  como se isso fosse enganar algum por muito tempo. Teria tomado um avio para o Taiti, Nova
Iorque ou Miami, qualquer lugar, exceto ali, onde o prprio frio a lembrava de que no teria mais Adam para aquec-la. E
ainda assim estaria perdida se deixasse Doyal Moody acabar com sua vida e ir embora sem pagar por isso.
   Levantou da cama maltrapilha e manchada de lgrimas e pegou um envelope amarelado da mesa diante da janela. Rasgou
as pginas em branco da frente e da parte de trs da velha Bblia sobre o criado-mudo e tirou uma caneta da bolsa. Sentou-se e
comeou a escrever com letras cuidadosamente pequenas e legveis toda e qualquer informao que conseguira juntar sobre
Doyal Moody e suas operaes com o trfico. As lgrimas marcaram as pginas em vrios lugares, mas ela colocou tudo,
obstinadamente, terminando com uma mensagem de amor e gratido para Adam e seus filhos. Os filhos dele. Ela sentia que
tinha o direito de pensar neles como dela tambm. Nenhuma me poderia am-los mais. Nenhuma me poderia fazer mais por
eles. Ela colocou as pginas dobradas no envelope e escreveu o nome do policial Raymond Cooper na frente. Depois pegou
sua bolsa e seu casaco e saiu do quarto.
   Comprou um selo numa mquina na loja de convenincias da esquina, depois correu para o telefone pblico do outro lado
da rua. Discou o servio de informaes de Saint Cloud e esperou. A telefonista no tinha o endereo da polcia de Saint
Cloud, mas lhe deu o nmero do servio de informaes. A princpio, a pessoa que atendeu ao telefone no parecia ser de
muita ajuda, mas Laura insistiu at conseguir a caixa postal de Raymond Cooper. Ela desligou o telefone, escreveu o endereo
no envelope, depois deu uma caminhada longa e nervosa at a caixa de correio. Quando a carta desapareceu dentro da fenda,
ela suspirou, aliviada, e voltou para o seu quarto pelas ruas solitrias de antes do pr-do-sol.
   Depois disso, ela finalmente conseguiu dormir. O quarto cheirava a fumaa de cigarros e a mofo. A cama era cheia de
buracos e as paredes estavam sujas e descascadas. Ela suspeitou de que os lenis no tinham sido trocados, por isso se deitou
de casaco, fechou os olhos e apagou.
   Acordou sobressaltada horas mais tarde. A luz passava pelas cortinas reforadas por plstico barato que protegiam a nica
janela do pequeno quarto. Um movimento na periferia de seu campo de viso atraiu seu olhar e ela viu o rosto afetado e
sorridente de Doyal Moody.

   Adam cerrou os punhos enquanto o investigador tagarelava.
    O nome do cara  Moody. Os tiras em Denver dizem que ele cabe no perfil de traficante, mas no tm provas
suficientes para conden-lo. Parece que todos os que poderiam lig-lo ao trfico terminam mortos em lugares estranhos.
   Adam engoliu em seco.
    Continue.
    Eles namoraram por alguns meses, depois ela foi morar com ele. Todos os seus amigos dizem que ela esperava se casar
com ele, mas ningum parecia acreditar nisso alm dela mesma. Eles na realidade no pareciam to prximos dela, mas todos
concordam que ela no tinha muita experincia. Moody foi seu primeiro relacionamento srio. Ela pode ser perdoada por ter
sido envolvida. O que no bate  por que desapareceu sem dizer nenhuma palavra a ningum que a conhecia. O prprio
Moody registrou uma ocorrncia de desaparecimento. O policial responsvel pelo registro disse que ele parecia arrasado, mas
isso no ajudou muito. Segundo Moody, eles eram deliciosamente felizes. Ento por que ela fugiu? Os amigos dizem que ela
suspeitava que ele a traa. Os tiras dizem que uma mulher com a descrio dela foi vista entrando em um nibus para o Novo
Mxico. Parecia nervosa, mas estava sozinha.
   Sozinha. Adam passou a mo pelo rosto.
    Quando foi isso?
   O investigador olhou suas anotaes.
    H mais de dez meses atrs. Moody verificava de vez em quando se os tiras tinham alguma informao sobre ela. Eles
no teriam, a no ser que pegassem a sua carteira de motorista, caso ela fosse parada em algum lugar.
   Isso era exatamente o que Adam esperara, e o que ela temera, evidentemente. Adam chamou pelo interfone a secretria de
seu pai e pediu que desse ao investigador uma xcara de caf e sanduches. Quando o homem foi embora, Adam se recostou na
cadeira da escrivaninha e fechou os olhos, depois se levantou rpido e ficou olhando para a cpia da carteira de motorista de
Laura. Ela parecia uma adolescente sorridente, com seu rabo de cavalo. E ela estava sozinha. Sem famlia, sem ningum para
proteg-la ou gui-la. Kate teria compreendido isso. Kate teria admirado sua coragem.
   Adam fechou os olhos.
    Por Deus, Laura, onde voc est?
   Era s mais uma pergunta sem resposta, uma das muitas. Ser que ela se desapontara com o amor? O que ela soubera
sobre Doyal Moody que a fizera fugir? O que ficara sabendo que a colocara em perigo? Ele estava comeando a duvidar que a
encontrasse a tempo. At mesmo os Fortune tinham limites. Seus olhos se encheram de lgrimas.
   Naquele exato momento a porta se escancarou e Jake entrou correndo na sala.
    Ns a pegamos! Eu mandei um carro vir e enviei um investigador e um advogado para a delegacia local. Ns os
encontraremos no caminho.
   Adam se levantou e tirou o casaco das costas da cadeira. Era cedo demais para se sentir aliviado, mas a possibilidade de
finalmente reencontrar Laura o encheu de foras.
    Vamos! E chamem Raymond Cooper!

    Voc chegou tarde demais  disse Laura, apoiando-se nos cotovelos.
   Doyal balanou a cabea, o longo cabelo negro preso na nuca. Seus olhos azuis claros tinham um brilho quase demonaco.
Os dentes brancos e alinhados irradiavam um sorriso sem alegria. Laura se perguntou como algum de to boa aparncia podia
ser to mau.
    Eu acho que no. Voc no estaria aqui seja tivesse suspeitado de mim.
    Eu escrevi uma carta  disse, tranqilamente  e a enviei a um amigo.
   De repente ele se lanou sobre a cama. Ela ergueu as mos para desvi-lo, mas ele a pegou pelos cabelos e sacudiu sua
cabea para todos os lados, trazendo seu rosto para perto do dele.
    Que amigo? Diga-me! Diga-me ou quebrarei seu lindo pescoo!
   Ela quase riu. Como se ele no fosse fazer isso de qualquer jeito. Como se ela estivesse fugindo todo esse tempo apenas
porque ele queria se sentar e conversar com ela. Ele deve ter visto o riso nos olhos dela, pois sua mo se soltou e deslizou para
a garganta de Laura. O estmago dela deu se revirou de medo.
    Diga quem , Laura  ele disse, suavemente.  Diga para quem voc mandou a carta, e eu irei busc-la. Depois a
levarei para casa, em Denver, e ns recomearemos de onde paramos. Est bem? Voc gostaria disso, no ? Lembra-se de
como era quando estvamos juntos, Laura? Voc lembra?  deslizou a mo para seu seio e o apertou.
   A bile subiu para a garganta de Laura.
   Ele inclinou a cabea para beij-la, mas ela afastou violentamente o rosto, ignorando a dor dos cabelos presos na mo de
Doyal. Ele murmurou algo obsceno e puxou seus cabelos com mais fora. A mo dele apertou seu seio to dolorosamente que
ela gemeu.
    Diga-me quem   ele gritou em seu ouvido  ou eu farei voc sentir tanta dor que pedir para morrer.

   O carro parou. Adam saltou antes da poeira ter se assentado e olhou para as luzes piscando dos veculos que fechavam a
estrada.
    O que  isso? Ns devemos ter uma escolta, no um bloqueio rodovirio!
   O investigador que estava ao volante abaixou a janela e deu uma olhada para Adam.
    Ns estamos a mais ou menos seis minutos agora. Eu tenho um homem no local. Gostaria que voc providenciasse para
que a polcia no o confunda com o bandido.
   Adam inclinou-se e apontou Raymond Cooper, que imediatamente saiu do carro e caminhou para o veculo policial mais
prximo. Adam esperava, mal controlando o pnico e a raiva, enquanto via Cooper agir. Com o escudo reluzindo, o grande
policial se dobrou para falar dentro da janela do motorista. Aps alguns segundos, ele recuou e correu para o carro de Adam,
enquanto o veculo policial fazia meia-volta e saa na direo oposta. Adam reprimiu sua impacincia, controlando o impulso
de gritar com Cooper. Raymond era um homem bom. Estava to preocupado com Laura quanto Adam. Mas Laura era sua.
Ponto final. Se ele a encontrasse a tempo. Olhou nos olhos do investigador pelo retrovisor enquanto se acomodava no assento
traseiro do carro mais uma vez.
    Voc tem quatro minutos  disse, direto, e fechou a porta.

   Laura tentou fazer com que o ar entrasse em seus pulmes, a cabea para trs em um ngulo desagradvel, enquanto a dor
em seu seio se espalhava pelo trax. Doyal colocou o peso no brao atravessado em seu externo. Ela conseguiu um sorriso
satisfeito.
    O nome dele  Raymond Cooper  disse, sem flego  policial Raymond Cooper, responsvel pelo departamento de
polcia de Saint Cloud.
   Enraivecido, Doyal tirou sua mo do peito de Laura e prendeu as mos dela nas costas. Mas ela resistiu. De mos
fechadas, bateu violentamente em seu rosto e conseguiu for-lo a soltar seu cabelo para se defender. Laura sentiu uma onda
de animao, mas ele passou uma perna sobre ela e colocou o todo o peso sobre seus quadris. Ela ainda tentou lutar, mas
finalmente ele conseguiu pegar seus dois pulsos com a mo forte. Ela virou a cabea e o mordeu. Ele gritou, mas no a soltou.
Puxou com violncia suas mos acima de sua cabea e a esbofeteou.
     Eu tenho que acabar com voc agora. Mas uma morte rpida  boa demais para uma delatora espi como voc. Eu
confiei em voc, Laura. Voc era minha mulher, e agora voc me traiu. Voc est em dvida comigo.
   No limite do pnico, ela deu um impulso para cima, esperando desequilibr-lo, mas ele era pesado demais, e o movimento
apenas o fez rir.
    Agora voc conseguiu me esquentar. Nada  to sexy quanto uma mulher indefesa.
   Ela se debatia desesperadamente, mas ele sentou-se sobre suas pernas e tirou do bolso um objeto prateado que ela sabia ser
um canivete. Ele apertou um boto e a lmina saltou. Laura gelou, os olhos colados no objeto que se moveu em sua direo e
parou em sua garganta. Ela fechou os olhos e comeou a rezar.

   Adam afastou o tremor que passava por seus ombros, depois sentiu o cabelo se eriar em sua nuca. Ele no podia afastar a
sensao de que Laura precisava dele naquele momento, naquele exato minuto. Ela estava aterrorizada. Ele no parou para
perguntar como o sabia, somente aceitou que o sabia. Agente firme, meu amor, ele murmurou. Eu estou a caminho.
    Rpido, rpido!
   Ele se inclinou para frente e deixou cair a mo no ombro do motorista. Com um gesto da cabea, indicou o carro da polcia
 sua frente, as luzes piscando.
    Ultrapasse!
   O motorista lanou um olhar a Raymond Cooper, que ocupava o assento ao seu lado. Cooper hesitou por um dcimo de
segundo e depois concordou com um gesto de cabea. O motorista bateu no pisca-pisca, passou para a faixa de ultrapassagem
e apertou o acelerador.
   Adam recostou-se, o medo contraindo os msculos da face, e rezou em silncio.

   Doyal passou a faca pela garganta de Laura e riu quando um fio de sangue escorreu, descendo para dentro da suter de
Laura. Ele foi descendo com a faca e cortou a l grossa. A lmina voltou para sua garganta, desceu de novo, desta vez para
cortar a frente da camiseta de nylon. Laura tremeu quando o ar frio tocou a pele quente do esforo de lutar. Doyal riu
maliciosamente e se inclinou para ela, aproximando seu rosto do dela, a faca na barriga de Laura.
    D-me bastante prazer, linda Laura  sussurrou  e eu a matarei mais depressa. Eu no a farei sofrer como voc
merece.
   Ela riu em silncio. Como se dar prazer a ele no fosse o mais desprezvel de todos os destino que ele lhe pudesse
oferecer.
   Doyal passou a lmina do canivete por sob o elstico da cintura de suas calas.
   Sbito, um novo nimo tomou conta do corpo de Laura. Ele gostava de mulheres indefesas, no? Pior para ele. Sua mente
tornou-se fria e seus msculos ganharam uma fora calma e inesperada. Ele ria, vitorioso, e a luxria brilhava como
fragmentos de gelo em seu olhar de um azul lindssimo. Laura cuspiu naqueles olhos azuis e se jogou com toda a fora para
cima, arqueando as costas. Ela sentiu a faca subir e ouviu o seu berro de raiva e dor. Algo quente e espesso esguichou em sua
pele. Ela o cortara. Esperava t-lo cortado onde doa mais. Ela ainda sorria, exultante, quando o canivete subiu, brilhando no
ar, ameaador. E ela sabia que no instante em que chegasse no alto, ele desceria novamente, com toda a fora do dio que
resplandecia nos olhos de Doyal, direto em seu corao. Pensou em Adam, enviando seus pensamentos de amor para ele, e seu
sorriso se abriu mais.
   Eu sempre o amarei.
   As palavras passaram pela mente de Adam com uma terrvel sensao de despedida. O carro fez uma curva violenta e
parou em um estacionamento de cascalho. Um homem apareceu na janela do carro, o brao levantado para apontar uma fileira
de quartos de motel com aparncia de uma construo dos anos cinqenta. Disse o nmero de um quarto, mas Adam no quis
ouvi-lo. Jogou-se para fora do carro e correu.
    Ele est l dentro com ela!  algum gritou.
   Adam dirigiu-se direto para uma porta. No questionou como sabia que era a porta certa. Somente foi. E nem sequer
tentou abri-la, jogou-se contra ela com toda fora de seu corpo musculoso. A porta cedeu um pouco ao impacto, mas ficou no
lugar. Ele recuou um passo e lanou-se contra ela novamente. Desta vez, Cooper estava a seu lado, e juntos se lanaram contra
porta que no resistiu e cedeu num estrondo.
   Adam gelou de horror com o que viu. Laura estava deitada na cama, com Moody sobre ela, os braos presos acima da
cabea, um canivete suspenso na mo dele. O corao de Adam se partiu, e seu olhar foi diretamente para o de Laura.
   Ela o encarou tambm e viu o horror em seu rosto, o amor se derramando de seus olhos  mas era tarde demais. Ela
soube ento, com uma certeza silenciosa, que deveria ter confiado a ele toda a verdade h muito tempo, e um pedido de
desculpas tomou completamente a expresso de seu rosto. Foi ento que o outro homem  Cooper, ela s o notou depois 
abaixou-se e apontou um revlver para Doyal Moody que levantou as mos e caiu para trs. Subitamente tudo estava
terminado. Ela estava livre. Livre.
   Ela se levantou e correu para Adam, gritando, e se afundou em seus braos. Ouviu Cooper dizer a Doyal que ele estava
preso, as palavras parecendo vir de uma grande distncia, enquanto os soluos se formavam em seu peito e Adam a apertava
de encontro a ele, acariciando seus cabelos com sofreguido.
    Voc est bem? Ele a machucou?
   Ele a deitou e se afastou.
    Voc est sangrando!
    No  a mo dela se ergueu at o arranho doloroso em sua garganta.   s um arranho.
   As mos dele tocaram a massa pegajosa em sua barriga.
    O sangue  dele  ela disse, rpido, com uma ponta de orgulho  Eu o fiz se cortar.
   Cooper estava de p ao lado de Adam.
    Positivo. Ela o cortou mesmo. Deu um talho na sua virilha esquerda, bem em cima da artria. Alguns minutos a mais e
ele sangraria at a morte.
    Alguns segundos a mais  a voz de Adam soava trmula  e eu a teria perdido!  Fechou os olhos contra a viso
que invocava, e Laura se ergueu para ele, os braos em torno de seu pescoo.
    Eu sinto tanto, Adam  ela sussurrou.  Eu deveria ter lhe contado.
    Voc estava nos protegendo  ele disse, com a mesma voz partida.
    Eu coloquei todos vocs em perigo.
    Eu j sei da histria toda, tudo menos as provas que colocaro esse marginal fora de caminho.
    Eu escrevi tudo e enviei para o policial Cooper aos cuidados da polcia de Saint Cloud. Deveria t-lo feito h muito
tempo, mas estava com medo.
    Voc estava tentando se proteger, e a ns tambm. Eu tenho certeza disso, porque quando tudo aconteceu, voc
sacrificou sua prpria segurana em prol da nossa. Eu entendo isso. E at admiro o que voc fez. Mas se voc for algum dia
fazer algo perigoso novamente, eu juro que vou  ele engoliu em seco.  Voc deveria ter confiado em mim e contado a
verdade!
    Eu queria  ela disse, piscando para reprimir as lgrimas  mas isso o teria transformado em um alvo tambm.
    E eu quase a perdi por causa disso!
    Mas voc veio me salvar  ela afirmou, chorosa.  Eu deveria saber que voc o faria!
    Com certeza voc deveria saber  disse uma voz profunda atrs deles. Jake estava de p com um ombro encostado na
parede perto da cabeceira da cama. Levantou a mo enorme e deu uns tapinhas no alto da cabea de Laura, sorrindo.
    Que seja uma lio para voc, mocinha. Ns, os Fortune, cuidamos dos nossos. E ponto final.
    Era tudo o que eu estava tentando fazer, senhor  ela lhe disse firmemente, voltando o olhar para o rosto de Adam. 
Cuidar dos meus.
   Adam a apertou num abrao carinhoso.
    Vamos para casa.
   Laura riu. Foi um riso profundo e cristalino, que deixava ver tudo que se passava em seu corao naquele momento.
    Para casa  ela disse saboreando as palavras.
    Sim, vamos para casa.

   A limusine esperava, o motor ligado, uma das muitas que se alinhavam ao longo do meio-fio da rua em frente  igreja alta
e estreita de tijolos vermelhos. O homem e a mulher dentro dela gritaram com alegria quando as portas duplas brancas se
escancararam e as pessoas se espalharam para lhes abrir caminho. O arroz jogado pelos convidados enchia o ar, enquanto os
recm-casados corriam para fora, de mos dadas.
   O longo cabelo louro de Laura estava preso em um coque, deixando mechas soltas para carem em seu rosto e prenderem-
se no fino tule de seu vu, que formava ondas  sua volta, soprado pela brisa que cheirava a primavera, a brilho de sol e a nova
vida. A brisa desmanchava seus cachos e fazia com que suas faces ficassem cor-de-rosa enquanto fazia esvoaar em direo ao
cu o vu preso no alto de sua cabea com um largo diadema de prolas. Laura apertava o buqu em uma das mos e os dedos
de Adam na outra, rindo enquanto andava at a limusine. O motorista saiu e abriu a porta traseira, mas o brao de Adam
envolveu sua cintura fina, fazendo com que parasse.
   Resplandecente em um fraque cinza e gravata branca, ele pegou sua esposa nos braos, apertando o peitilho de seu vestido
de seda. Uma das mos alisava seus ombros nus. Ele inclinou a cabea dela para trs com a fora e a posse de seu beijo. O
arroz no parava de cair. As crianas saltavam no mesmo lugar por baixo das mos de seus avs, que as continham
gentilmente. Adam ergueu a cabea, jogou um beijo para sua famlia, depois voltou o rosto para o cu, jogou outro beijo para o
alto, antes de dar a mo para que sua esposa entrasse no carro e segui-la.
    Esse era para voc  disse Sterling com uma voz desconcertada.
   Kate concordou e passou um leno nas lgrimas que caam de seus olhos.
    Ela o transformou. Eu soube que o faria no dia em que o vi no restaurante com seu pai.  Fungou e esfregou o nariz.
 Eu no pude ouvir o que eles diziam, mas posso dizer que todo o comportamento de meu neto mudou. Ele se suavizou, se
abriu. Eu o vi abraar o pai.  Ela sorriu.  Eu nunca pensei que veria isso.
   Sterling balanou a cabea, com admirao.
    Eu tinha minhas dvidas Mas voc sabia que ela era a pessoa certa para ele mesmo antes de v-la.
   Kate suspirou.
    Eu o senti, e nenhuma das informaes que voc conseguiu para mim impediu esse sentimento, mas eu precisava v-la.
Eu sabia que estava me arriscando, me escondendo no andar superior e olhando pela janela, mas ao menos foi a que os dois
impostores apareceram.
   Ela voltou-se para olhar pela janela para as pessoas reunidas no gramado da velha igreja. Eles acenavam e emitiam os sons
de uma famlia rindo, enquanto a limusine de Laura e Adam ia descendo lentamente a rua. Ela olhou para o par em questo no
limite da multido, como ladres de tocaia, esperando que algum se distrasse com uma carteira, e estremeceu. Sterling
pousou a mo na dela e procurou distra-la.
    Eu no deveria ter duvidado de voc. Afinal, ningum precisa me dizer que milagres uma mulher forte pode realizar.
   Kate sorriu e colocou a cabea para trs. Mechas cinzentas reluziam suavemente em seu cabelo ruivo e espesso. Seu
sorriso era moleque, sbio, como se sentisse o modo pelo qual o velho corao dele lhe saltava no peito. Ento ela ficou sria,
as sobrancelhas se arqueando, e sua mente gil se dirigiu para outros pensamentos.
    Adam est bem arranjado agora  disse, rudemente, voltando o olhar para a janela. A famlia comeara a se dispersar,
mas grupos ainda ficaram conversando. Kate observou Tracey Ducet e Wayne Pots se insinuarem no grupo mais prximo. O
sorriso de Tracey era tmido. O de Wayne era insinuante, quase untuoso. O rosto nobre de Kate ganhou uma expresso dura.
    O que vamos fazer com eles? Sterling limpou a garganta.
    Eu no vejo, no momento, o que possamos fazer. Kate franziu a testa.
    Obviamente eu no posso aparecer e desmascar-los. Mesmo se a famlia no pensasse que eu estou morta, no tenho
certeza se desmascarar Kate Ducey como falsa seria o melhor a fazer.
   Sterling concordou e apertou os lbios.
    Eu me pergunto se alguma outra pessoa no poderia fazer isso por ns.
   Kate balanou a cabea.
    Eu no posso imaginar quem seria. Todos os que sabiam da verdade morreram. Ben, a parteira
   Sorriu enigmaticamente.
    At mesmo eu, agora.
   A mo de Sterling se fechou em volta da dela.
    E os seqestradores? Eles saberiam.
   Um espasmo de dor passou pelo rosto de Kate.
    Eles no ousariam. Significaria se expor.
    Ah, a senhora est certa novamente.
   Kate sorriu, suavizando o rosto, e deu a mo a Sterling.
    A senhora mais uma vez no tem outra escolha a no ser observar e esperar  disse, tristemente.
   Ele a olhou cheio de simpatia, enquanto ela se voltou para um ltimo e saudoso olhar para sua famlia.
    Como se meu filho j no tivesse o suficiente para lidar.
    Jake ficar bem  assegurou Sterling.  Mas ajudaria muito se ele soubesse que voc est viva. Voc sempre foi uma
fonte de fora para ele e para toda a famlia. Kate os olhou com saudade mais um momento, depois balanou a cabea.
    Eu no posso me arriscar. Se a pessoa que me queria matar souber que eles falharam, toda a famlia pode estar em
perigo.
   Sterling emitiu um som de consentimento relutante.
    Bom, Jake pode se virar sozinho um pouco mais. Ele  forte. Voc providenciou isso.
    Eu espero que voc esteja certo.
    Claro que estou certo. Quando j estive errado? Kate lhe lanou um olhar malicioso.
    Toda vez em que discordou de mim. Sterling deu uma gargalhada.
    Eu espero ser mais inteligente do que isso. Kate olhou pela janela novamente.
    Eu espero que vocs dois sejam to inteligentes quanto pensam que ns somos  disse ela, e ento suspirou e apertou
um boto incrustado no descanso de sua porta. O alto-falante escondido na moldura da porta crepitou.
    Madame?
    Tire-nos daqui.
   Ela deu um olhar preocupado na direo de Sterling. Ele manteve a expresso cuidadosamente impassvel e simplesmente
deu de ombros.
    Mais uma limusine idntica s outras em uma longa fila  disse ele, distraidamente.
   Kate deixou que um sorriso elevasse os cantos de sua boca, as linhas de preocupao se desfazendo em sua testa.
    Voc  um cara bem inteligente
    Eu aprendo rpido e sou um bom professor  disse Sterling, afetadamente.
   Kate voltou os olhos apertados para frente e fingiu no notar que ele ainda segurava sua mo. Deixe o velho adulador se
afligir um pouco mais. Kate Fortune no era o tipo de mulher que entregasse facilmente seu corao  e nem qualquer outra
coisa.
   FIM
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